Noé, o filme proibido

Países de maioria religiosa ditam suas liberdades
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No fim de março, fui entrevistada pela rádio Justiça, do Supremo Tribunal Federal. O repórter pediu que eu comentasse o veto da exibição do filme Noé na Indonésia. A proibição no país do sudeste asiático havia sido divulgada no dia anterior.

Na entrevista, comecei dizendo que fico muito preocupada com casos de restrições por motivos religiosos. Argumentei que isso significa muito mais do que a proibição em si, do que a privação dos cidadãos daquele país de assistirem a um filme que retrata uma história da tradição cristã, relatada em um livro cristão.

Significa muito mais: é a fiel tradução de intolerância religiosa, um dos maiores males da humanidade, que já levou milhões de pessoas à morte e motiva a maioria dos conflitos bélicos do mundo.

Como cidadã, tenho direito de não concordar com a crença religiosa do outro, mas também tenho o dever, inclusive legal aqui no Brasil, de respeitar a escolha do meu semelhante. Sem discutir o mérito do filme, se ele traduz com fidelidade ou não a narrativa bíblica, o ponto em questão aqui é o desrespeito a um direito.

Quando um país cuja maioria que professa determinada crença, proíbe a exibição de um filme simplesmente porque essa produção reflete em parte ou em grande parte a crença de uma minoria, tal nação nada mais faz do que proceder de forma intolerante. A menos que o conteúdo do filme seja ofensivo e ameace outros direitos, essa decisão só pode ser classificada como tal. Posturas como essas são sementes de ódio que acabam servindo de exemplo para outras nações que já ameaçaram impedir a exibição de Noé.

O ponto é que, quando é ameaçada uma liberdade tão fundamental e preciosa à dignidade humana, como a religiosa, todas as demais liberdades se encontram em risco. Nesse sentido, essas proibições devem acender um sinal de alerta, devem acionar nossos mecanismos de vigilância, porque esse é o preço da liberdade.

Autor: Damaris Moura - Publicado em: 10/04/2014 - Fonte: