À distância de um toque

A impaciência como efeito colateral do nosso mundo controlável
© Sergey Nivens/ Fotolia
O mundo digital tem algumas imagens futuristas que são muito sedutoras. Que tal apertar um botão e instalar direto na sua mente todos os conhecimentos que os professores estão passando? Que tal se, ao dizer “Segunda Guerra Mundial”, seu próprio cérebro fizesse uma varredura em todas as principais bibliotecas do mundo e apresentasse pra você o que há de mais relevante? Imagine como seria fazer uma prova assim! Certamente seria muito mais fácil e iria provocar muito menos dor de cabeça.
 
Se esse cenário parece muito longe da realidade, saiba que, ao menos em parte, ele tem se tornado a cada dia mais possível. Atualmente, já são conhecidas formas de fazer o cérebro se comunicar diretamente com algum aparelho tecnológico, sem a necessidade de um estímulo externo como a força física ou a voz. Isso tem sido testado com próteses que responderão diretamente ao comando do cérebro, assim como os músculos de um braço natural o fazem.
 
Parece um sonho, não é mesmo? A questão é: Isso seria vantajoso para nós? Pergunte para alguém que acaba de perder o braço em um acidente e você terá um sonoro “sim!”. Alguém tem coragem de tirar a razão dessa pessoa? Eu não tenho.
 
Mas o fato de isso ser muito bom para alguns casos não tira nosso direito – ou seria dever? – de pensar em consequências e desafios que se abrem em outras situações. O mundo digital está entregando algo que nossos avós nunca alcançaram e talvez por isso mesmo sempre os fascinou: uma vida controlável, programável.
 
Nunca nos pareceu tão real a possibilidade de controlar nossa vida e evitar os infortúnios. Sabe qual era a coisa mais decisiva para uma pessoa há uns quatro séculos? Saber se iria chover o suficiente na próxima colheita. Isso porque, caso não chovesse, não haveria colheita. E diferentemente de hoje, naquela época cada um vivia da sua própria plantação ou, no máximo, da colheita das redondezas. Hoje a maioria das pessoas não depende mais da chuva aqui ou acolá para comer amanhã. Estamos menos suscetíveis aos mandos e desmandos da natureza.
 
O principal instrumento para atingirmos esse êxito é a tecnologia. É ela que coloca cada vez mais coisas ao nosso alcance. Mas nosso êxito está nos habituando a exigir que tudo tenha solução imediata, que tudo seja controlável. Tudo parece estar à distância de um botão, ou pelo menos deveria estar. E aí está uma grande armadilha.
 
É que o botão vem com um pacote: ele traz consigo nossa impaciência com as coisas que ainda não são controláveis e com aquelas que nunca serão. Por exemplo, uma relação amorosa nunca será uma ciência precisa. Amar implica conhecer de verdade a outra pessoa e construir uma relação juntos, e isso exige tempo, intimidade e muita convivência. Não dá para apertar um botão e resolver. Mas, como estamos ficando mal acostumados, vamos perdendo a paciência com aquilo que não se encaixa naquele exato momento com nossas expectativas.
 
Aprender todo o conteúdo de uma prova ao apertar um botão iria resolver a nota, mas acabaria com o prazer de aprender. Arrumar uma namorada com o aperto de uma tecla resolveria um problema final, mas mataria o prazer de construir um relacionamento. Em outras palavras, precisamos aprender a apreciar mais o “meio”, e não só o “fim”. Pergunte a alguém que “chegou lá”, ou seja, que alcançou um sonho. As histórias que ele vai contar são sempre da caminhada, e não da chegada. A emoção está no “meio”, e o fim só tem valor se o percurso foi bom. A lógica do botão é a do fim sem o meio. Mas o decisivo da vida não está no fim das coisas. Está no meio.
Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 10/06/2013 - Fonte: