A luta do software livre

Ele precisa vencer nosso desejo de exclusividade
© sakura / fotolia
Na última coluna, falamos sobre o compartilhamento no mundo digital e citamos o exemplo da Wikipédia. Mas existe ainda outra iniciativa que vai mais fundo nessa lógica: o software livre.
 
Imagino que você saiba o que é um software. Mas, só para garantir, vamos lá: software é um programa de computador, aquilo que abre as coisas que a gente quer ler, ouvir ou assistir. Ele é um amontoado de códigos que consegue traduzir outra porção de códigos em um texto, uma música, uma imagem e assim por diante. 
 
Há grandes empresas especializadas em produzir esses códigos, como a Microsoft e a Apple. Assim como qualquer produto que deu um bom trabalho para fazer, essas empresas vendem os softwares que produzem. Mas não apenas vendem. Elas camuflam seus códigos para que ninguém possa copiar e fazer um programa igualzinho. Mais ainda: elas registram esses códigos para poderem processar aqueles que, eventualmente, venham a descobri-los e utilizá-los.
 
Até aqui nada de novo. Há séculos nosso mundo vive de esconder segredos para faturar uma grana em cima. A questão é que, quando esse tipo de prática começou, a empresa se protegia contra outra grande empresa, para evitar que seu conhecimento fosse copiado.
 
Só que, com o barateamento da reprodução das coisas no mundo digital, não são apenas grandes empresas que conseguem copiar as coisas. Qualquer pessoa com um computador consegue. Daí surgiu a ideia de fazer um programa cujos códigos ficam abertos para qualquer pessoa ler, editar, personalizar e distribuir. Esses são os softwares livres, que, por terem participação de muitas pessoas, são distribuídos gratuitamente.
 
Ora, se ninguém vai ganhar rios de dinheiro com o software, quem vai fazer então? Aí que está a charada. O software livre aposta no trabalho voluntário. Ou seja, cada usuário que quiser pode contribuir um pouquinho para aperfeiçoar o código. Quem não quiser – talvez porque não entenda bulhufas de programação – não precisa trabalhar. Mesmo assim, tem liberdade de usar. A lógica é bem diferente dessa com a qual estamos acostumados. A gente se acostumou a pensar que as coisas têm que ser restritas a quem paga.
 
Pois é justamente por isso que o software livre aponta para outro tipo de relação entre as pessoas, uma relação muito mais solidária. Se você se empolgou, experimente, por exemplo, o LibreOffice, que faz a mesma coisa que o Word, o PowerPoint e o Excel, mas é livre. Se estiver mais empolgado ainda, experimente o Ubuntu, que é um sistema operacional livre. Sistema operacional é o software que faz os outros softwares funcionarem. É como o Windows. Este texto que você está lendo, por exemplo, foi escrito no LibreOffice em um computador rodando Ubuntu.
 
Mas nem tudo são flores, é claro. Nem sempre o software livre consegue atingir a qualidade dos programas feitos por empresas, embora muitas vezes seja até melhor, já que é desenvolvido continuamente por mais gente.
 
Mais problemático ainda: essa é uma tendência até agora tímida no mundo digital. Na realidade, predomina a outra lógica, a da restrição, da exclusividade. Por exemplo: é chique dizer que tem um aparelho da Apple. Certamente é um produto de altíssima qualidade, que em muitos casos é melhor do que os demais. 
 
Mas, a maioria dos usuários jamais irá utilizar esses recursos superiores. Estão com a Apple por status. Não abrem mão de fazer parte de um grupo seleto, mesmo que não utilizem as vantagens ali oferecidas e mesmo que tenham chance de fomentar outro tipo de lógica, mais inclusiva! É por isso que não dá para se iludir com o mundo digital. Há boas coisas nele, certamente, e o software livre é um exemplo. Mas, no fim das contas, continua sendo um mundo humano, demasiadamente humano.
Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 23/10/2013 - Fonte: