Facebook, um bom conselheiro

E porque isso não resolve nossos problemas
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Quer bons conselhos? Entre no Facebook.
 
É isso mesmo. Não é piada. Veja só alguns exemplos. Se você acessou a rede social no dia dos pais, descobriu um monte de coisas criativas e legais que poderia ter feito para o seu pai (e não fez). Tinha fotos bacanas, declarações bonitas, frases de efeito. Tinha de tudo para todos os gostos. Uma boa foi: “Nem todo rei usa coroa, a prova disso é o meu pai.” Legal, não? E o melhor: com as facilidades da vida digital, é só dar um ou dois cliques e você pode aplicar as melhores para o seu próprio pai.
 
Se você entrar lá em dia de manifestação política, vai descobrir que todo mundo é revoltado com a corrupção e politicamente ativo. Ou seria politicamente hiperativo? Ou ainda interativo? Você vai finalmente descobrir aquilo que a escola nunca conseguiu lhe ensinar: qual é a orientação partidária correta. Afinal, esquerda ou direita? Lá você vai encontrar as melhores respostas, pode apostar.
 
Você também vai descobrir a verdade sobre muitas coisas que a mídia malvada esconde. Não deve demorar muito e vai aparecer lá um link compartilhando um texto sobre a “verdade” do homem na lua. Mais um pouquinho e aparecerá outro texto sobre a verdade da família de PMs supostamente assassinada pelo próprio filho. Role a página mais um pouco e você terá a verdade sobre os Iluminati. Você vai descobrir com uma dose de espanto que alguns pacatos amigos seus conhecem detalhes dos bastidores que todo jornalista daria um bom dinheiro para saber e publicar.
 
Há também bons conselhos religiosos. No Facebook, você poderá aprender mais de Bíblia do que frequentando muitos cultos por aí. Versos bíblicos são reproduzidos a todo instante, enquanto muitos pregadores usam os púlpitos para viajar nas suas próprias experiências. Mas é claro, não peça demais. Você não encontrará nenhuma interpretação sofisticada, terá dificuldade de encontrar algo do Antigo Testamento e, se o negócio é compreender profecias, vai ficar dependendo de mudanças de papas ou tragédias mundiais. Nessas épocas, você descobrirá que muito mais gente entende as profecias bíblicas do que imaginava e poderá aprender também.
 
No Facebook você também será surpreendido a todo instante com um novo conselho prático para a vida, muitas vezes vindo de quem você menos esperava. Tipo assim: “Ninguém perde nada por ser gentil” ou “Cuide primeiro da sua vida, depois venha ver a minha.” Parece que os para-choques de caminhão mudaram de lugar.
 
A maior parte desses conselhos é útil e verdadeira. Se seguíssemos à risca muitos deles, nossa vida não estaria bem melhor? Sim, pasme, o Facebook tornaria nossa vida melhor. Mas será que o nosso problema é realmente a falta de bons conselhos, de boa informação? Agora achamos este companheiro um tanto estranho, mas útil: o Facebook, que nos dá tão bons conselhos e a oportunidade de sermos também difusores da boa informação. Pode ser que agora vá, que nossos problemas estejam perto do fim.
 
Mas eu prefiro apostar que o problema está em outro lugar, afinal, como diz C. S. Lewis, bons conselhos não nos faltaram nos últimos 4 mil anos e ainda assim continuamos nessa pindaíba, buscando um sentido para a vida, tentando superar nossas misérias, buscando algo mais. O problema do mundo está em nós. E isso não há tecnologia que solucione. Algumas podem até mascarar, dar a sensação de que estamos um pouquinho melhores. Mas lá no fundo a gente suspeita que todo esse aconselhamento facebookiano não passa de mero passatempo. E se é assim, é só mais uma cortina de fumaça para a nossa condição miserável.
Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 12/08/2013 - Fonte: