Lições da espionagem norte-americana

Usar a internet é entregar um rastreador da sua vida nas mãos dos poderosos
© Andrea Danti / Fotolia
Edward Snowden. De repente esse nome se tornou famoso. Ok, não tanto como Neymar, mas em poucas semanas esse sujeito passou do anonimato para o centro dos holofotes, a ponto de gerar um mal-estar entre dezenas de governos do mundo inteiro! E isso tudo porque esse norte-americano denunciou um esquema de espionagem em que seu próprio país investiga e-mails, fotos, telefonemas e dados privados de cidadãos do mundo inteiro através do acesso direto a servidores de empresas como Google, Microsoft, Facebook, Yahoo e – pasmem, fãs da maçã – a queridinha Apple.
 
Para os brasileiros, o escândalo veio à tona em um momento com muita concorrência, afinal, ao mesmo tempo, estavam acontecendo duas coisas raras no Brasil: a Copa das Confederações e uma manifestação política popular. Isso fez a notícia da espionagem ficar apenas em terceiro plano. Ainda assim, ela é muito importante.
O que fazemos e falamos na internet ou no telefone é livre como pensamos? Tem gente que acha que é a mesma coisa falar algo nas ruas ou no Facebook. As redes sociais seriam apenas um novo espaço para a liberdade de expressão. Seriam as ruas do século 21. “Mais devagar com o andor porque o santo é de barro!”
 
A primeira diferença é que na internet tudo é registrado. Sempre pensamos nisso como algo bom, que permite recordar, facilita a divulgação de uma mensagem e economiza repetição. Nunca pensamos no registro como aquilo que facilita que os outros nos controlem. Há quem reaja assim: “Quem não deve, não teme”. Será mesmo? Será que um governo nunca cometerá uma arbitrariedade contra um cidadão? Todas as pessoas que veem uma foto que você postou na rede social vão julgar corretamente o fato? O pequeno alcance de uma foto de papel também diminuía as chances dela cair nas mãos erradas.
 
Outro ponto importante é que a nova forma de “livre” expressão não é possível sem um equipamento e sem acesso à internet. Mas aqui não há tanta diferença em relação a outras formas de expressão, como livro ou foto. Para usá-las, você também dependia de equipamentos oferecidos pelos outros. A exceção é a manifestação da voz, nas ruas. Afinal, nesse caso, você usa um equipamento verdadeiramente democrático, que é dado a todos indistintamente.
 
O livro e a foto, porém, uma vez produzidos, poderiam ser guardados para sempre. Isso não acontece com as coisas que estão “na nuvem”, ou seja, na internet. Esse é o terceiro ponto. Não existe o tal acesso “livre”. Por exemplo, muita gente não sabe que os livros digitais vendidos na Amazon não são bens que pertencem ao novo comprador. O que são vendidas, na realidade, são licenças para o usuário entrar no servidor da empresa e usar o arquivo. Em vez de um bem, você compra um serviço, que existe enquanto aquela empresa continuar oferecendo-o e sob as condições que estiverem explicadas no contrato. Isso mesmo, no contrato, aquele que a gente lê minuciosamente antes de cada compra na internet...
 
Isso ressalta o último aspecto que salta aos olhos na suposta liberdade digital. Não somos donos das nossas falas nas redes sociais. Estamos depositando toda nossa vida em bits que não nos pertencem. Os dados sobre nós  são propriedade de corporações, que podem fazer com eles o que estiver estipulado nos contratos – sim, de novo eles. Mais: bits que os governos podem obrigar as empresas a entregar, se assim acharem necessário.
 
Há benefícios? É claro que há. Há mais praticidade, existe a possibilidade de acessar as mesmas coisas em diversos lugares diferentes sem ter que carregá-las. Mas isso tem um preço: você coloca um rastreador da sua vida nas mãos dos poderosos. Há uma perda de autonomia e de privacidade de que muitas vezes não estamos plenamente cientes. O caso Snowden nos chama a questionar se queremos estar assim tão vulneráveis, tão expostos. Ele nos mostra que nossa liberdade de expressar na internet pode ser bem mais ilusória do que gostaríamos.
Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 12/07/2013 - Fonte: