Nunca mais sozinhos

Para banir a solidão, inventamos a vida online
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Acordamos pela manhã e ligamos o notebook, o tablet ou o smartphone. Para muita gente, é verdade, não é nem o caso de ligar o smartphone. Ele já passou a noite ligado, como um anjo que vela ao nosso redor. O fato é que precisamos nos reconectar com o mundo. Precisamos ser abastecidos pelas notícias. 
 
Elas asseguram que, no tempo em que ficamos inconscientes, o mundo aí fora continuou o mesmo, nada ruiu, nada desapareceu de repente. Deslizamos o dedo para cá, deslizamos para lá. Com aparentemente tudo em ordem, podemos partir para o dia. Precisamos desse ritual, assim como o religioso precisava da oração matinal.
 
Só que as notícias que garantem a continuidade do mundo não são necessariamente as últimas decisões do governo ou o estado do trânsito na cidade. Na realidade, são as notícias da vida dos familiares, amigos, colegas de escola ou de trabalho. É desse combustível que precisamos.
 
Nunca estivemos tão ávidos por saber de todos os passos dos nossos queridos – ok, alguns nem tão queridos assim. E essa é uma via de mão dupla, pois passamos a descrever também a nossa rotina, para que todos saibam exatamente onde estamos, com quem saímos, o que comemos ou o que achamos do programa de TV que estamos assistindo.
 
É importante que não haja qualquer impedimento para quem quer falar com a gente. Temos que viver sem fronteiras, como diz uma propaganda por aí. Precisamos estar acessíveis. O tempo todo. Em todo lugar. Por isso, enquanto fazemos outras atividades, deixamos nosso anjo tecnológico alerta, sempre ligado. Ele nos avisa de qualquer eventualidade.
 
Mas o que acontece se não há novidade, se não tem notícia? Se ninguém posta nada? Vem certo vazio. É hora de entrar em ação a função “música” de algum aparelhinho. Os menos atualizados vão de CD player mesmo. Os demais vão usar o próprio smartphone, colocar um fone de ouvido e pronto: resolvido!
 
Passaremos o dia inteiro online ou, na pior das hipóteses, com uma música de fundo, adicionando trilha sonora à trama sem graça da nossa vida offline. O que isso significa? É o fim da solidão. Essa companheira incansável da saga humana sobre a Terra se tornou alvo implacável da nossa genialidade. Lutamos com todas as forças para inventar os aparelhos que sustentam essa criação incomparável: a vida online. E tudo isso porque não queremos mais estar sozinhos nem um minuto sequer. Solidão, nunca mais. Agora podemos estar pra sempre ocupados, para sempre perto de todos.
 
A vida online é justamente o oposto do que os críticos sempre disseram. Falaram que ela distanciava as pessoas. Na realidade, ela nos aproxima, nos cola uns nos outros em tempo real. A pergunta que fica é: será que não fomos para o outro extremo? Será que não estamos todos próximos demais? Sou a única pessoa que sente certa falta de ar? Não falo daquele ar físico, que estamos acostumados a inspirar, mas do ar simbólico, que representa certo distanciamento dos outros, justamente o que garante nossa individualidade.
 
Afinal, se é verdade que devemos nos relacionar com os outros, também é verdade que precisamos de momentos a sós, sem os quais não formamos uma personalidade individual. Precisamos das duas coisas e estamos querendo banir uma delas. A vida offline nos parece solitária demais para ser tolerada, mas talvez tenhamos que aprender a reservar um tempo para ela, para que não percamos a capacidade de refletir na nossa própria existência. O que seria nosso fim como humanos. 
Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 06/12/2013 - Fonte: