O fim do Orkut

E a continuação daquilo que ele facilitou: o sonho da visibilidade
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Após um longo período vegetativo, em coma, os médicos decidiram finalmente desligar os aparelhos e deixar o Orkut morrer. O velório durou bastante, os últimos meses. Mas, amanhã, 30 de setembro, a rede social que popularizou as redes sociais finalmente será enterrada. Não sem antes doar alguns dos seus órgãos para as faculdades de medicina digital: as comunidades se tornarão páginas estáticas, espécies de corpos inertes que poderão ser examinados pelos internautas do futuro, aqueles que vão querer saber como foi que começou a cultura deles.

É exagero falar que o Orkut deu início a uma nova cultura? Talvez, sim. Mas não há excesso ao dizer que ele contribuiu com um traço marcante da cultura digital deste início de século 21: a lógica da visibilidade midiática. Se não foi o primeiro, o Orkut foi o mais eficiente a implantar esse jeito de viver.

Ao longo da história, poucas pessoas tiveram exposição e destaque social. Na maioria das vezes, essa proeminência era privilégio exclusivo de grandes estadistas e clérigos, que arrogavam para si a função de mediadores entre os humanos e os deuses e, por isso, eram dotados de visibilidade especial. Na maior parte das vezes, os demais cidadãos eram meros anônimos. Ser visível era praticamente uma eleição divina.

Mas quando a visibilidade era um golpe do destino, ninguém se preocupava muito com isso. Acontece que, quando surgiram os meios de comunicação, isso mudou. Quem aparecia ali era gente comum que conseguiu escapar do limbo do anonimato social, tornava-se celebridade, um verdadeiro olimpiano: seres humanos normais, com suas alegrias e dores, que habitavam o Olimpo, o monte dos deuses, o lugar dos privilégios. Então, era possível lutar para se tornar visível, o que favoreceu a ideia de que a vida ganha mais sentido se estiver em exposição.

O Orkut “democratizou” ainda mais a luta, quando passou a ser um espaço em que todos podem expor sua vida e competir por um lugar ao sol, cuja luz irradia das telas midiáticas. Cada ser humano que viveu sobre a Terra sempre tentou fazer algo significativo da vida. Mas, ao liberar as pessoas para buscar visibilidade, o Orkut deflagrou uma guerra de uns contra os outros pela atenção dos demais. Nem que seja para ser esquecido no segundo seguinte. Viver para se expor – ou seria se expor para viver?

É verdade que a internet, desde o início, sugeria muito relacionamento entre as pessoas. Veja, por exemplo, funcionalidades como e-mail, o finado MSN e seu sucessor, Skype. Eles são ótimos como ferramentas de conversa. Com todos eles, é possível ter um bate-papo com várias pessoas ao mesmo tempo. Mas eles não favorecem a visibilidade midiática. Neles a informação é confidencial, fica entre duas pessoas ou, no máximo, um grupo selecionado. Seu usuário não se torna alguém visível. Seu conteúdo não fica exposto, competindo na vitrine social.

Ao completar dez anos, o Orkut morre. Mas, assim como Getúlio Vargas pretendia, ele sai da vida para entrar na história. Mais importante: deixa sucessores, como o Facebook, muito mais eficientes ao nos dar ferramentas para explorarmos a visibilidade midiática e essa competição infindável pelo lugar mais importante na timeline dos outros. Assim, o Orkut acaba, mas a visibilidade midiática, não. Por isso o seu fim é ainda mais importante. Como toda morte, essa é uma oportunidade de reflexão sobre o que queremos da vida. No caso: queremos viver disputando espaço na vitrine dos outros? É isso que dá sentido à nossa vida?

Autor: Tales Tomaz - Publicado em: 29/09/2014 - Fonte: