Realmente preciso de algo novo?

A obsolescência planificada tornou o novo não somente atraente, mas necessário
© Giuseppe Porzani / Fotolia
Você já comprou um produto novo, recém-lançado no mercado através de uma campanha de publicidade encantadora, e depois percebeu que toda aquela novidade prometida nos anúncios não era assim tão melhor do que o produto que você já possuía? Ou então você já adquiriu alguma coisa que de uma hora pra outra não teve mais utilidade, por não se adaptar às novas tecnologias que foram surgindo no mercado? É provável que todos nós já passamos por uma situação dessa, afinal, o que é novo deve ser mesmo muito melhor, correto? Bem, vamos pensar um pouco sobre isso.
 
O desejo pelo novo é algo inerente à natureza dos consumidores contemporâneos. Essa característica do mercado atual foi detectada pela empresa Trendwatching, especializada em examinar as tendências de consumo mais promissoras no mundo todo, e compartilhada no seu Trend Briefing de julho/agosto de 2012, sob o título “Newism: Por que os consumidores cobiçam tudo que é novo mais do que nunca. E, por que isso significa o céu ou o inferno para as marcas?”
 
Nesse estudo, as implicações do newism são entendidas como “a destruição criativa, hipercompetição, globalismo, consumo anabolizado e uma celebração da inovação, tudo em uma tendência só”. Nessa lógica, as coisas são criadas num ritmo absolutamente mais intenso do que o da sua destruição. 
 
Nesse cenário a gente tem sempre algo novo para testar, sempre tem uma novidade sedutora para nos encher os olhos e nos motivar a ir às compras. A indústria entende bem como essa engrenagem funciona e se apoia em uma estratégia conhecida como obsolescência planificada ou percebida. 
 
A obsolescência planificada é a expressão utilizada por alguns críticos da sociedade de consumo para descrever um sistema de produção e distribuição em que as coisas são feitas para envelhecer em um tempo determinado (leia-se rápido) a fim de que sejam brevemente descartadas para dar lugar a novos produtos. 
 
Você pode perceber essa estratégia quando tem dificuldades com alguns softwares que não rodam em sistemas mais novos ou com plugs de energia ou transmissão de dados que não se conectam com os modelos mais novos. Desse modo, a obsolescência planificada torna o novo não somente atraente, mas necessário. 
 
Por outro lado, a obsolescência percebida é aquele sentimento que o consumidor tem de que seu produto não tem mais valor, simplesmente porque parece um pouco desatualizado ou fora de moda, mesmo que ele seja ainda perfeitamente adequado para o uso.
 
Assim, descartamos roupas novas simplesmente porque não fazem parte da última coleção. O guarda-roupas está cheio, mas a impressão é de que nenhuma peça serve para o próximo compromisso. Essa parece ser mesmo a lógica perfeita para um sistema em que os lançamentos de novos produtos no mercado superam, em muito, o descarte natural dos velhos modelos. 
 
Bom, você pode estar se perguntando: Então não posso acompanhar as tendências e me valer do que surge de melhor? Claro que sim! Devemos nos valer das invenções que têm potencial pra melhorar nossa vida e a sociedade, mas essas coisas não podem consumir todo nosso tempo e dinheiro, tornando-se uma obsessão, alimentada simplesmente pelo fator novidade. 
 
Além disso, o descarte daquilo que está em pleno funcionamento é, na verdade, jogar dinheiro no lixo, e isso é mau uso dos recursos que Deus nos deu. Sem falar que esse ritmo de consumo não é nada ecologicamente sustentável. O caminho é consumir de modo consciente, aproveitando os produtos ao máximo, cuidando com o apelo de comprar o novo simplesmente por que é novo, e empregando mais recursos em favor do nosso desenvolvimento individual e coletivo.
Autor: Martin Kuhn - Publicado em: 19/06/2013 - Fonte: