Com pena do ambientalista

Reunir os amigos para limpar o córrego pode ser um gesto bonito, mas é inútil
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No último dia 5 de junho, comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi estabelecida para marcar a abertura da Conferência de Estocolmo (Suécia) sobre o Meio Ambiente, em 1972, e sempre é um bom gancho para a imprensa abordar a questão da sustentabilidade.  
 
Entre as notícias divulgadas no dia, a iniciativa de um ambientalista da Região Metropolitana de Vitória, ES, chamou minha atenção. Ele reuniu um pequeno grupo de amigos para limpar as margens de um córrego no bairro em que moram. Na verdade, usar a palavra córrego é um eufemismo (para os que gostam de Língua Portuguesa), porque se tratava de uma vala mesmo.
 
O grupo estava juntando sacolas plásticas, garrafas PET, latas, restos de móveis e toda sorte de lixo que costuma ser encontrado nos corpos d’água que cruzam as regiões densamente habitadas. Um hábito insano do homem, já que jogar lixo na água é comprometer a qualidade de algo imprescindível à vida.  
 
Viajando pelas estradas do país, quando passamos por pontes, costuma-se ver uma placa indicando o nome do rio que está sendo cruzado, por exemplo: “Rio Paiol – extensão 28 metros”. Quando eu assisto a uma reportagem como essa, sempre me vem à mente a mesma placa de trânsito verde, em orientação paisagem, letras brancas, com as seguintes inscrições: “Lixeira Paiol – extensão 28 metros”. Na verdade, em pleno século 21, há muita gente que ainda precisa ser ensinada de que rio não é lixeira. 
 
Continuando, a repórter entrevistou uma das moradoras do local, que não estava participando da mobilização, para saber a opinião dela. A mulher declarou que o grupo estava fazendo uma boa ação e que, quando menina, ela havia se banhado naquele rio que um dia fora limpo.  O repórter cinematográfico fez um take da casa da moradora entrevistada, localizada às margens do córrego, e foi possível ver que outras construções formavam ali uma comunidade poluidora daquele riacho. 
 
No fundo das casas, era possível ver a típica cena: vários tubos de PVC de 100 mm cortados, despejando esgoto in natura no córrego. O mais intrigante dessa história é que a moradora disse, com um suspiro de saudosismo, esperar que um dia o rio volte a ser límpido e cristalino, cheio de peixes das mais diversas espécies, como nos “velhos tempos”. 
 
Para completar, a repórter aproveitou a situação para criticar a prefeitura local, informando aos telespectadores de que havia a necessidade urgente de se dragar o rio, para minimizar o assoreamento. Dessa forma, ela deu a entender que o poder público estava em falta com a população, ao passo que os cidadãos, pela iniciativa de um grupo independente, estava “fazendo a sua parte” pela defesa do meio ambiente. Que bravata!
 
Nessa história toda, eu fiquei com pena do ambientalista. Um homem de trajes e vocabulário simples, com boa intenção e uma iniciativa politicamente correta. Tão correta que mereceu alguns minutos de destaque em rede estadual. Porém, o tempo empregado foi completamente desperdiçado; para o senso comum, a ação é louvável; mas do ponto de vista técnico ambiental, a ação ganha mais um adjetivo: inútil.
 
A prova disso é o take das casas dos vizinhos do ambientalista. O lixo que ele estava juntando com os amigos era proveniente das moradias construídas à beira do rio (e de outras mais acima, contra jusante) que, de acordo com as leis ambientais estão alocadas em local proibido, a tão falada área de preservação permanente (APP).
 
Enquanto um grupo de seis pessoas limpa as margens do córrego no dia 5 de junho, milhares de pessoas jogam lixo e esgoto, no mesmo córrego, 365 dias por ano. É por isso que fico com pena de quem faz esse tipo de ação. É uma grande perda de tempo (e dinheiro), por mais politicamente incorreto que seja escrever isso. Nesse contexto, lembro-me de um ditado que aprendi quando criança: “Escola limpa não é a que mais se varre, mas a que menos se suja.”
 
Ao assistir à reportagem, como engenheiro florestal começo a imaginar uma solução tecnicamente viável para o problema. Para tanto, o primeiro passo é identificar a origem do problema: (1) Grave desordenamento urbano, que leva a população a ocupar as margens dos rios; (2) falta de educação formal da parte do povo. 
No próximo post, comentarei sobre a ação de outros ambientalistas, a viabilidade técnica de projetos e o papel da educação formal e ambiental. 
Autor: Djeison Batista - Publicado em: 27/06/2013 - Fonte: