Plástico ou papel? – parte 2

É importante conhecer as fontes das matérias-primas para raciocinar de forma sustentável
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No post passado, eu comentei sobre o consumo de plástico e papel em sacolas e embalagens, além do consumismo em si. Deixei em aberto o comentário sobre a famosa frase que lemos nos rodapés de alguns e-mails: “antes de imprimir, pense em sua responsabilidade e compromisso com o meio ambiente”.
 

Para começar, sinceramente, não sei quem teve a ideia de divulgar essa frase via correio eletrônico. Portanto, não sei qual foi a real intenção do autor, mas sugiro uma reflexão sobre essa frase com respeito à sustentabilidade.

Em 2001, eu fazia o estágio obrigatório de conclusão do curso Técnico em Eletrônica, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre as diversas atividades desempenhadas, eu instalava muitas impressoras (a maioria matricial) nas repartições da universidade.
 

As impressoras matriciais foram uma evolução das máquinas de datilografar e imprimiam a partir de uma fita de nylon acoplada ao cabeçote de impressão. Eram impressoras de alto rendimento, que faziam centenas de impressões (apenas em preto e branco, diga-se de passagem) com a mesma fita.
 

Contudo, o inconveniente dessas impressoras era o barulho que faziam durante o funcionamento. Algumas eram tão grandes e tão barulhentas que vinham de fábrica com um abafador de ruído para ser colocado sobre o equipamento. Outro detalhe é que o papel utilizado era do tamanho carta e do tipo contínuo. Entre uma folha e outra havia um picote para facilitar a separação das páginas, além de as bordas possuírem uma tira destacável com furos para serem encaixados no mecanismo de avanço mecânico da impressora.
 

Hoje, ainda se pode comprar impressoras matriciais e papel contínuo no mercado especializado, que não caíram em desuso completamente por causa do seu elevado rendimento, resultando em um baixo custo de impressão por folha. Por isso, muitas empresas ainda usam essa tecnologia para impressão de relatórios que não precisem ser coloridos e não exijam grande qualidade de impressão.
 

Naquela época, já existiam impressoras a jato de tinta, mas eram mais raras. Elas se popularizaram na segunda metade dos anos 2000 e hoje estão presentes em boa parte  das casas que têm computador pessoal. Desde então se passou a imprimir praticamente tudo, mesmo informações corriqueiras que eram costumeiramente escritas à mão, como uma lista de compras do supermercado.
 

Lembro-me de que as pessoas faziam desenhos no programa Paint Brush e depois os imprimiam à toa, só para testar a nova tecnologia. As impressões coloridas pareciam algo de outro mundo. Só depois é que muita gente viu que as tintas acabavam, e como não havia recarga e nem cartuchos similares, comprar os originais não era muito barato.

Nessa época, todos os trabalhos escolares passaram a ser impressos, o que facilitou muito a vida dos estudantes e professores. Facilitou também a vida de quem lucrava com o consumo de papel de impressão e escrita, o famoso sulfite, tamanho A4.
 

Matéria-prima e consumo

Mais uma vez, voltamos ao tema do consumo. É importante lembrar que todas as vezes que você desnecessariamente imprimi algo, a quantidade de resíduos produzidos é aumentada, além do gasto de papel, tinta (ou toner) e energia elétrica. Assim, quem criou a frase do rodapé do e-mail acertou em cheio por nos fazer pensar antes de acionar a impressora. Afinal, a soma das ações corriqueiras e banais do nosso cotidiano gera um grande impacto nos recursos naturais do planeta.
 

Mas, qual é a matéria-prima do papel? Ele pode ser feito a partir de quase todas as fibras vegetais, animais e até mesmo minerais. Contudo, em termos de processos industriais, a maior matéria-prima do papel é a celulose extraída da madeira de árvores. Porém, antes que você pense que está derrubando uma árvore ao usar irresponsavelmente sua impressora, saiba que 100% do papel produzido no Brasil são oriundos de florestas de produção, também conhecidas como áreas reflorestadas.
 

As principais espécies destinadas à produção de polpa celulósica e papel no país pertencem a dois gêneros botânicos chamados pinus (pinheiros) e eucalyptus (eucaliptos). O primeiro pertence ao grupo das gimnospermas ou coníferas, e o segundo ao grupo das angiospermas eudicotiledôneas. Essas espécies de pinheiros não devem ser confundidas com o pinheiro-do-paraná, que pertence a outro gênero botânico (araucária) e que não é utilizada industrialmente na produção de polpa celulósica.
 

Dessa forma, você pode ficar seguro de que a madeira nativa, mesmo a da Mata Atlântica ou da Floresta Amazônica, não é utilizada na produção de papel no Brasil. Como disse, pode-se produzir polpa celulósica de qualquer madeira, mas as máquinas, reagentes químicos e outros detalhes do processo de polpação industrial em larga escala foram projetados para trabalhar apenas com as espécies de pinheiros e eucaliptos, o que torna a madeira nativa uma matéria-prima inapropriada para esse tipo de indústria.
 

As árvores utilizadas para a produção de polpa celulósica são plantadas em larga escala, formando grandes maciços florestais que totalizam 6,5 milhões de hectares, distribuídos em todas as regiões do Brasil, com maior concentração no Sul e Sudeste. As áreas colhidas são continuamente replantadas, garantindo a sustentabilidade do processo.
 

Existe muita discussão sobre os prós e contras desse tipo de cultivo para produção. Mas, o que se pode dizer inicialmente, é que o plantio de florestas para a geração dos mais diversos produtos utilizados pelo ser humano (madeira serrada, casas, móveis, construção civil, papel, tintas, vernizes, solventes, desinfetantes, roupas, alimentos, remédios, etc.) constitui uma prática viável e que minimiza o consumo da madeira nativa, desde que seja feito com as técnicas adequadas.
 

Além disso, a maioria das empresas que detém áreas plantadas atende à legislação ambiental vigente, aprovada pelos selos de certificação florestal, e conta com profissionais especializados para desenvolver suas atividades. Vale destacar também que praticamente todos os alimentos que consumimos também são produzidos como o papel, em larga escala, a partir da monocultura.  
 

Para encerrar, recomendo que você crie o hábito de guardar folhas impressas em apenas uma face do papel, porque elas podem ser usadas como rascunho e, até mesmo a para impressão de informações mais corriqueiras, como a lista de compras. Lembre-se também de separar o papel seco, porque ele é facilmente reciclável. E mais uma dica: “antes de imprimir, pense em sua responsabilidade e compromisso com o meio ambiente”.

Autor: Djeison Batista - Publicado em: 23/10/2013 - Fonte: