De Gata Borralheira à Imperatriz

A saga da ascensão do cristianismo em Roma
Erika Camargo
Todo mundo pode ver nos evangelhos bíblicos como a realidade dos primeiros cristãos era bem diferente da nossa hoje. A começar pelo antes perseguidor apóstolo Paulo, a história registra uma vasta lista de pessoas que gostariam de crucificar, apedrejar ou decapitar os seguidores de Cristo. A pergunta é: como uma religião inicialmente marginalizada e perseguida se tornou a mais influente dos últimos dois milênios? 
 
Quando o imperador Diocleciano assumiu sua posição, deparou-se com a realidade de um império vasto que estava dando seus primeiros sinais de decadência. Em busca de uma administração mais eficaz, elaborou um sistema político conhecido por tetrarquia. 
 
Qual era a ideia? Diocleciano dividiu o império em duas partes e criou a figura de dois imperadores com o título de Augusto. Nomeou como Augusto do Ocidente um general de sua confiança, Maximiano, e ele próprio seria o Augusto do Oriente, sem deixar de ser hierarquicamente superior a Maximiano. 
 
Considerando essa medida ainda insuficiente, ele escolheu mais dois imperadores assistentes, aos quais chamou de Césares: Constâncio Cloro para o ocidente e Galério para o Oriente. Foi Galério que incentivou Diocleciano a empreender uma ferrenha perseguição contra os cristãos, cuja presença era mais forte na parte oriental do império. 
 
Em 305, do nada, Diocleciano resolveu se aposentar e virar agricultor. Poucos dias depois, Maximiliano também se retirou do cargo. Na sequência, Galério sucedeu Diocleciano como imperador absoluto e Constâncio Cloro como Augusto do Ocidente. O problema foi que Galério nomeou como Césares pessoas de sua predileção, de modo que o filho de Maximiano (Maxêncio) e o de Constâncio (Constantino) não gostaram de ficar de fora da linha sucessória de poder. Daí, houve briga para todo lado.
 
A confusão na sucessão do sistema inventado por Diocleciano resultou numa luta pelo poder de cada um por si, com seus respectivos exércitos. No fim de sete anos de conflitos intensos, a última batalha foi, ironicamente, entre Maxêncio e Constantino, os dois excluídos da sucessão. 
 
Maxêncio possuía a vantagem de estar dentro da cidade de Roma, defendendo-se com um exército maior: 100 mil homens. Enquanto que a ofensiva cabia a Constantino, o qual estacionou seus 40 mil homens nos arredores de Roma, do outro lado do rio Tibre.
 
Contudo, nas vésperas da batalha, Constantino teria tido um sonho ou visão. Segundo Lactâncio, ele teve um sonho em que foi orientado a marcar as duas letras inicias do nome Cristo nos escudos de seus soldados, como um ato de fé no Deus cristão, que lhe daria a vitória. Segundo Eusébio, Constantino viu uma cruz com a inscrição “sob este símbolo vencerás” e, posteriormente, teve uma visão de Cristo. Seja como for, no dia da batalha, o exército de Constantino tinha a inscrição cristã nos escudos e venceu as tropas de Maxêncio. 
 
Saber o quão autêntica foi a experiência religiosa de Constantino com o Deus dos cristãos é um dos grandes mistérios da história. Alguns argumentam que ele realmente se tornou cristão, enquanto outros enxergam tudo isso como uma manobra política de um líder que gostaria de ganhar o apoio de um grupo religioso emergente. Veja os argumentos de cada lado:
 
Pró – conversão
(1) O relato de sua experiência de conversão é convincente;
(2) Na época, os cristãos representavam no máximo 10% da população do Império Romano, o que não é um número tão significativo de partidários a ser conquistado. 
(3) Constantino aceitou mediar conflitos internos dos cristãos a fim de promover a unidade da Igreja.
 
Pró – jogada política
(1) O arco do Triunfo de Constantino sobre Maxêncio não faz qualquer referência direta aos cristãos ou ao Deus do cristianismo. No monumento, há uma inscrição que se limita a mencionar que Constantino teve ajuda de uma divindade;
(2) As moedas com a imagem de Constantino faziam uso da simbologia pagã, em especial a do Sol Invicto;
(3) Constantino não foi batizado apenas no seu leito de morte por um bispo de tendências doutrinariamente duvidosas;
(4) O imperador estabeleceu por lei o descanso obrigatório no domingo, dia de celebração da ressurreição para os cristãos da época e de honra ao deus Sol para os pagãos;
(5) Os cristãos ficaram isentos de adorar o imperador, mas os pagãos não.
 
Graças à vitória de Constantino sobre seus rivais, o cristianismo saiu do status de religião perseguida para religião estatal, deixando a obscuridade para se tornar uma das mais poderosas religiões do mundo. O problema é o quanto esse processo de institucionalização e sincretismo com o paganismo acabou maculando a pregação da mensagem de Cristo. 
Autor: Matheus Grillo - Publicado em: 27/08/2013 - Fonte: