Lixo ou tesouro?

A descoberta de Jericó e o papel da estratigrafia
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O passado nos fascina. Prova disso, é o sucesso atual da série Game of Thrones, produzida pela HBO e que explora diversos períodos da história europeia. A produção revive, de maneira ficcional, momentos como a queda de Roma, a ascensão das hordas mongóis, a Guerra das Duas Rosas, entre outros. Tudo dentro do melhor estilo de resgate épico da Idade Média. 
 
Essas batalhas por poder e domínio, que têm acompanhado a humanidade desde seus primórdios, muitas vezes são analisadas pela arqueologia. As grandes conquistas do passado parecem ganhar nova vida com a descoberta de ossadas, equipamentos militares, muralhas, inscrições e artefatos. O que para a maioria das pessoas poderia ser descuidadamente considerado entulho é objeto precioso para a arqueologia.
 
Esse princípio básico da área foi negligenciado por Edward Robinson. Apesar de sua grande experiência e importância como arqueólogo pioneiro, ele deixou passar esse detalhe. Conhecedor de diversas línguas orientais, principalmente o árabe, Robinson contribuiu no século 19 para a identificação de vários sítios históricos. Deve-se a ele e a seu companheiro de viagens, Eli Smith, a identificação dos muros que rodeavam Jerusalém e do Arco de Robinson, que dava acesso ao templo judaico. Ambos achados datam do primeiro século depois de Cristo. 
 
Em uma de suas viagens, Robinson notou um monte diferente, mas, na época, com menos buracos. Na avaliação dele, tudo aquilo não passava de uma simples colina de lixo. Porém, apenas 70 anos depois, o lugar, Tell es-Sultan, finalmente seria identificado como a antiga cidade de Jericó.
 

A história em camadas

Nos tempos antigos, para se construir uma cidade eram necessárias terra suficiente, água, rotas para comércio e uma localização geográfica que não tornasse vulnerável o povoado. Acontece que, em decorrência de batalhas ou desastres naturais, a cidade poderia vir a sofrer pesados danos. Nesses casos, por vezes era preferível reconstruir a cidade a procurar outro local com condições adequadas para a edificação de uma outra. 
 
É aí que entra a importância histórica do que parecia só entulho. Ele servia de ponto de partida para a reconstrução. Em longo prazo, essa prática formou uma série de estratos ou camadas que deixaram para os pesquisadores informações sobre as transformações pelas quais a cidade passou através dos séculos. No caso de Jericó, é possível notar até 18 camadas sobrepostas por reconstruções e reformas. A ciência que estuda esses níveis de ocupação é a estratigrafia.
 
No próximo texto, vamos entender o que a descoberta de Jericó tem a dizer sobre o contexto em que foi escrita a Bíblia. Continuaremos nossa trilha atrás das pegadas da história. E lembre-se: muito melhor do que assistir a batalhas épicas é revivê-las através dos rastros de perdedores e vencedores, ansiosos por clamar da terra sua versão há muito esquecida da história.
Autor: Matheus Grillo - Publicado em: 29/05/2013 - Fonte: