O império que se converteu

Roma não morreu, apenas vestiu a batina
Erika Camargo

A arqueologia é uma ciência viva, porque em sua busca pela compreensão do passado, ela abre portas para muitas outras maneiras de encarar o presente. Um exemplo é entender por que um título tão pomposo como “sumo pontífice” é dado para um homem simples e que prega a humildade, como o papa Francisco.
 

A Igreja Católica Apostólica Romana é a instituição que melhor conserva o riquíssimo legado do Império Romano. A Igreja, que havia sido esmagada pelas perseguições, tornou-se, no governo do imperador Constantino, no século 4, aquela que triunfou sobre o paganismo, da mesma forma que os romanos triunfaram sobre os outros povos do Mediterrâneo. Ela ainda conserva em seu nome, língua oficial, localização de sua sede e teologia, a herança do império que dominou o mundo conhecido de então.
 

Várias palavras usadas na terminologia eclesiástica hoje faziam parte do vocabulário romano, como diocese e basílica. Mesmo o termo “pontífice” evoca uma forte relação com a era romana. O quarto título oficial do papa é supremo pontífice. Esse status tem como base a tradução da Bíblia feita por Jerônimo, no fim do século 4, conhecida por Vulgata Latina. Nessa tradução da Bíblia, Jerônimo utilizou o termo “pontífice” para traduzir a palavra grega ἀρχιερεύς (archiereus), que significa sacerdote. A ideia é que cada bispo em sua paróquia equivale aos sacerdotes dos tempos bíblicos.
 

No contexto romano, porém, “pontífice” tinha um conceito completamente diferente. Designava aqueles que faziam parte do Colégio de Pontífices, os quais seriam os sacerdotes mais importantes da religião do Estado, na antiguidade Romana. Durante o período monárquico de Roma (aproximadamente 750 – 509 a.C.), esse grupo atuaria como conselheiro do rei em assuntos religiosos.
 

Os pontífices continuaram com a função de conselheiros para assuntos religiosos do Senado durante o período inicial da República. Mas, a partir do governo de Otaviano Augusto, os imperadores romanos adquiriram a posição de pontifex maximus, ou seja, de chefe desse conselho de sacerdotes. Enquanto os outros membros que formavam o conselho entravam para o grupo apenas com uma indicação direta do imperador.
 

Com a legalização do cristianismo, no quarto século, o título chegou a ser usado por papas já no século seguinte, mas ganhou real força durante o período da Renascença. Embora utilizado até hoje em documentos oficiais, a designação nunca entrou na lista oficial de títulos papais do Anuário Pontifício.
 

Com o declínio do Império Romano do Ocidente e a fragmentação do território entre as tribos bárbaras, o clero católico foi quem impediu que a Europa se tornasse um caos. Possuindo educação superior à média, o clero pôde auxiliar nas funções administrativas e judiciais de suas cidades. E em grande parte, é graças à preservação do conhecimento antigo pela Igreja que grandes avanços romanos na área da engenharia, direito e outros são ainda utilizados.

Autor: Matheus Grillo - Publicado em: 05/08/2013 - Fonte: