A canção em tempo de protesto

No regime militar, o compositor vivia de metáfora ou então não sobrevivia
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Para a ditadura militar no Brasil, ser patriota significava ficar caladinho diante do regime opressor que não gostava de ser contrariado. Hoje, a revista Veja chama o partido do governo de “PTralhas” e Lula de anta. Há 40 anos, seus colunistas não falariam assim das autoridades nem em pensamento. Talvez, eles fizessem uma canção cheia de metáforas.
 
Em 1966, o 1º lugar no Festival de Música Popular da Record (na era pré-Edir Macedo) foi dado à canção Disparada, de Geraldo Vandré, que dividiu o prêmio com A Banda, de Chico Buarque. 
 
A canção de Vandré começava assim: "Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar/ eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar." E depois dava o recado aos patrões gananciosos e governos brutais: "Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata / Mas com gente é diferente."
 
Dois anos depois, em outro festival, Vandré foi ainda mais direto: "Vem, vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora não espera acontecer." O público engajado nos protestos da época explodia em coro.
Essa canção tem um verso que fala das flores vencendo os canhões. Os militares não gostaram e um deles declarou à revista Veja (9/10/1968): “Essa música é atentadora à soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas e não deveria nem mesmo ser inscrita [no festival de música].”
 
O cantor Luiz Ayrão foi censurado porque aproveitou o 13º aniversário do golpe militar (chamado de “Revolução de 64” nos livros didáticos da época) para prestar uma “homenagem”. Mas ele teve de dizer que a música era sobre um casal em crise: "Treze anos eu te aturo e não aguento mais / Não há Cristo que suporte, e eu não suporto mais / Treze anos me seguro e agora não dá mais / Se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz."
 
A censura política mandava alterar letras, recolher discos e proibir a execução de certas músicas nas rádios. O compositor vivia de metáfora. Ou então não sobrevivia.
 
Em 1973, quando os censores presentes num show mandaram desligar os microfones de Chico Buarque e Gilberto Gil que tentavam cantar Cálice, ficou mais do que explícito o "cale-se" imposto pela ditadura. Naquele dia, aquilo que os dois compositores camuflavam na escrita ficou nítido na pronúncia (Pai, afasta de mim esse cálice/cale-se).
 
Canções de protesto expressam a liberdade e a mudança imaginadas, mas obviamente não mudam o mundo nem revolucionam o sistema político-econômico de um país. Mas os ditadores não pensam assim e preferem músicas como Eu te amo meu Brasil, ufanista até a última semibreve. É o tipo de governante com gosto político-musical como o do rei Saul, que só gostava de música que o deixasse calmo, sereno e tranquilo (1Sm 16:23).
Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 04/07/2013 - Fonte: