A decadência de um estilo

O sertanejo universitário que ainda não saiu do primário
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Você se lembra daquela canção que diz que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"? Tem muito de verdade nisso, mas não "somos universitários" como eram nossos pais. Enquanto a universidade se dividia em engajados versus alienados nos conflitos ideológicos e políticos dos anos 60 e 70, hoje o destaque são os fariseus universitários que jogam pedra nas Genis de minissaia e as donzelas engajadas na noite baladeira do sertanejo universitário.
 
Naquele tempo, os tais engajados viviam segundo o evangelho comunista de Fidel e Che Guevara e só gostavam de ouvir canções “revolucionárias”. Os chamados “alienados” preferiam escutar a Jovem Guarda. Atualmente, os universitários estão mais distantes e alienados de Fidel, ainda bem. Mas estão bastante engajados no entretenimento de Michel Teló. 
 
Se estamos falando de festas de universitários, então quer dizer que o sertanejo que eles ouvem vem da poesia de Almir Sater e do cancioneiro de Renato Teixeira, certo? Que nada. Os universitários andam curtindo mesmo é a linha decadente da música sertaneja que foi se diluindo, diluindo até desembocar no pula-pula e no chora-chora do "sertanejo universitário".
 
A trajetória do estilo pode ser resumida nos nomes dos cantores sertanejos. Em priscas eras, juntavam-se dois nomes caipiras e a cantoria começava: Tonico e Tinoco, Pena Branca & Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho. Ou uma dupla de cognome, digamos, "chamativo": Milionário & Zé Rico, Gavião Moreno e El Condor, Domingo e Feryado, e o inacreditável Bátima e Robinson. A dupla Chitãozinho & Xororó foi a última dos apelidos rurais.
 
Nos anos 90, os nomes eram mais urbanos, já que a patroa começava a assumir que gostava da mesma música que sua empregada ouvia: Leandro e Leonardo, Gian e Giovani, Zezé di Camargo e Luciano. Hoje, os nomes escolhidos são tão mauricinhos quanto inodoros: Victor e Leo, Jorge e Mateus, João Bosco e Vinícius, Lucas & Matheus (estes últimos têm nome de apóstolo, mas não são uma dupla gospel). 
 
Enquanto nossos pais, ou pelo menos, os pais de alguns, cantavam as músicas de protesto de Geraldo Vandré e Chico Buarque, e eram obrigados a camuflar o "cale-se" da ditadura com um "cálice" na letra, muitos universitários de hoje cantam a música conformada dos amores chorosos e as letras que não camuflam nem o primarismo. Onde está o "cale-se" quando a gente mais precisa dele?
 
Não pense o leitor que vivo a sonhar com uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer. Aguento firme só uns dez dias nesse cenário bucólico. Não faço planos de me mudar para um rancho fundo bem pra lá fim do mundo (embora a canção No Rancho Fundo seja uma das melodias mais belas do repertório nacional). Mas a canção sertaneja já viveu dias mais interessantes.
 
O sertanejo moderno abusa da temática do amor perdido, embora as letras estejam menos embebidas em dor de cotovelo. Ainda há letras de duplo sentido, embora longe da pornofonia do batidão do funk. A melodia continua simples, mas os gogós... quanta diferença! Há menos trinados inalcançáveis, menos veias saltando na garganta.
Ao contrário do "forró universitário", que prefere as raízes pé de serra do estilo, o sertanejo universitário bebe no caldeirão pop que ergue ídolos e os esquece em uma estação. Essa rápida troca de guarda no topo das paradas tem lá suas vantagens. Já pensou o que seria do ouvinte passar vinte anos ouvindo Luan Santana?
Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 06/12/2013 - Fonte: