Canta em favor do seu semelhante

O papel da música na luta pelos direitos civis dos negros
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“As árvores do Sul dão uma fruta estranha. Folha em sangue se banha. Corpo negro balançando lento. Fruta pendendo de um galho ao vento.”
 
Assim começa a canção Strange Fruit, gravada pela cantora Billie Holiday, em 1939. Essa “estranha fruta” eram os cadáveres de negros linchados e/ou enforcados nos ultrapreconceituosos estados do Sul dos Estados Unidos. O poema rascante da canção colocava o dedo na ferida aberta do racismo norte-americano.
 
No mesmo ano da gravação de Strange Fruit, a cantora negra Marian Anderson teve que se apresentar ao ar livre na escadaria do Lincoln Memorial porque as Filhas da Revolução Americana não lhe deram permissão para cantar no Salão da Constituição de Washington D.C. 
 
Vinte e quatro anos depois, mais precisamente em 28 de agosto de 1963, ela participava da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade, a manifestação gigantesca que mobilizou milhares de pessoas que naquele dia ainda ouviriam o líder Martin Luther King Jr. Na ocasião, Marian Anderson cantou He’s got the whole world in His hands (Ele tem o mundo inteiro nas mãos). 
 
Antes de Luther King começar a discursar, Mahalia Jackson cantou uma antiga canção gospel: I’ve been ‘buked and I’ve been scorned (Eu tenho sido repreendida e desprezada). A música fala sobre religião, mas foi cantada e entendida como um grito por justiça. Ali compareceram milhares de representantes dos desprezados pelo abominável sistema de opressão racial. 
 
Martin Luther King se levantou para fazer um breve discurso. Quando parou de falar, Mahalia lhe pediu que contasse à multidão sobre o sonho que tivera. Ele, então, iniciou aquele famoso discurso: “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”). 
 
O apoio musical ao movimento dos direitos civis dos negros foi a trilha sonora de uma guinada radical na vida social e espiritual de muitos cristãos. Mahalia Jackson, Luther King e outros cantores cristãos e pastores repudiaram a “estranha fruta” do ódio e do preconceito com música e um discurso pela fraternidade entre todas as pessoas. Eles apontaram para crentes e descrentes que é uma contradição amar a Deus sobre todas as coisas sem amar o próximo como a si mesmo.
Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 11/09/2013 - Fonte: