O grão da voz

A voz do cantor é que nos faz gostar da música?
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"Se você não gosta de uma música, experimente ouvi-la na voz do seu cantor predileto." Essa frase do professor Luiz Tatit nunca me saiu da cabeça.
 
Nunca fui fã da dupla Zezé di Camargo e Luciano e daquela canção que grita assim "É o amoooor, que mexe com minha cabeça e laiá lalaiá...". 
 
Mas aí assisti ao biofilme Dois Filhos de Francisco (2005) e ouvi a mesma música na voz de Maria Bethânia. Não, também não sou fã de Bethânia. O que gostei, na verdade, foi da voz sem berreiro, em voz mais grave, dita sem afobação, sem batidinha repetitiva de bateria e efeitos de teclado Casio. Achei que a música tinha prumo, tinha uma melodia boa. 
 
Por outro lado, talvez aconteça de pessoas gostarem de uma música da Maria Bethânia se a ouvirem na voz de Zezé di Camargo. 
 
Há pessoas que não gostam da voz de determinado cantor, mas apreciam a mesma música desse cantor interpretada por uma cantora de sua preferência. Não sei se esse fenômeno se dá com todo e qualquer estilo. Prefiro não experimentar. Frank Sinatra seria capaz de "salvar" uma canção do Alexandre Pires? Não sei, mas talvez seja possível tirar leite de pagode.
 
Isso também pode acontecer com a música cristã: músicas do quarteto Arautos do Rei às vezes são mais bem apreciadas por algumas pessoas quando cantadas por grupos como Novo Tom. Outros vão preferir uma canção refinada do João Alexandre se for cantada por Aline Barros. E quem sabe alguns até gostariam de uma canção do padre Marcelo Rossi se os intérpretes fossem os roqueiros gospel do Oficina G3.
 
Isso não é nenhum anátema. Ocorre que cada cantor ou grupo vocal se apresenta com seu jeito peculiar e idiossincrático de cantar.
 
O estudioso Roland Barthes chamava essas particularidades vocais de "o grão da voz". O modo de cantar equivaleria ao modo de dizer as coisas. Assim como cada indivíduo possui um jeito único de falar, cada cantor demonstra sua singularidade vocal ao cantar. E fazemos escolhas pelo timbre e pelo modo único de dizer as coisas quando preferimos assistir a uma mesma partida de futebol ou na voz de Milton Leite ou nos berros, digo, na voz de Galvão Bueno.
 
Ouve-se esse "grão da voz" ao notar a distinção vocal de Elis Regina, Tony Bennett ou Roberto Carlos. Ou de Fernanda Brum, Alessandra Samadello ou Leonardo Gonçalves. A canção parece adquirir a personalidade de quem a está entoando. 
 
Muita gente boa passou a gostar de certa música quando, em vez de Peninha, ouviram a voz de Caetano Veloso: "Às vezes no silêncio da noite..." A canção é a mesma, mas muda-se o jeito de cantar e, muitas vezes, o estilo do arranjo instrumental. Assim, gostamos tanto de certo tipo de performance vocal quanto de certo tipo de arranjo. Não gosta de uma música? Às vezes pode ser o caso de experimentar ouvi-la na voz do seu cantor predileto.
Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 27/08/2013 - Fonte: