O mais pop dos clássicos

Controverso, Mozart foi alvo de admiração e ódio
© Daniel Ladman / Fotolia

Antes de morrer em 1791, aos 35 anos, Wolfgang Amadeus Mozart já se sentia derrotado pela vida. Suas dívidas aumentavam e a audiência da alta sociedade diminuía. De acordo com Norbert Elias, no livro Mozart – Sociologia de um gênio, duas fontes que alimentavam sua autoestima e senso de importância estavam secando: o amor sincero de uma mulher e a admiração do público de Viena por sua música. Por algum tempo, ele tivera ambos.
Mas há razões para crer que, em seus últimos anos de vida, ele sentia cada vez mais que havia perdido os dois.
 

Como toda criança prodígio, Mozart foi um garoto sem infância, encantando os salões da corte europeia, feito um brinquedo da moda. Quando cresceu, consolidou sua arte individual e maravilhou as plateias. Também se tornou controverso, sendo alvo de admiração e ódio. Do que você leu até aqui, qualquer semelhança com a vida do popstar Michael Jackson parece mera coincidência, não é mesmo?
 

Mozart acabou sendo socialmente ejetado dos círculos palacianos por dois motivos. Primeiro, por causa de sua música. Na época, o crítico Johann F. Reichardt disse que a música instrumental do jovem Mozart era "extremamente antinatural", pois era "alegre e, de repente, triste e, de repente, alegre novamente".
 

Embora vez ou outra Mozart tivesse que fazer concessões ao gosto do público, do qual vinha seu sustento, suas óperas começavam a fugir da tradicional fórmula "elegante" e algumas de suas obras instrumentais traziam inovações que não agradavam a plateia.
 

Se a música tinha a função primordial de agradar aos senhores e senhoras da classe dominante, e não de evocar sentimentos pessoais, Mozart já não era aquela criança que ia de palácio em palácio como um bichinho de circo a se exibir para madames e reis. Sua personalidade e sua vontade criativa não se moldavam àquela sociedade.

Isso explica o outro motivo de seu abandono pela alta sociedade de Viena: sua busca de autonomia numa época em que os músicos dependiam financeiramente da aristocracia da corte.
 

Enquanto trabalhou para o príncipe de Salzburgo, Mozart identificou-se com a nobreza da corte e seus gostos, mas se incomodava com a afetação e a hipocrisia dos aristocratas e se ressentia da humilhação a que lhe submetiam, principalmente em razão de sua origem social (seu pai vinha de uma família de artesãos). Além disso, os músicos eram tratados como meros serviçais – costumavam entrar pela porta dos fundos e comiam com a criadagem, por exemplo. Devido à sua arte distinta, Mozart ainda tinha privilégios, como jantar à mesa dos cortesãos, normalmente em troca de uma execução ao piano.
 

Seu rompimento com a corte de Salzburgo repercutiu entre os cortesãos, o que fez despencar as encomendas por novas músicas. Em carta ao pai, Mozart contou como o conde Colloredo o havia humilhado. Leopold Mozart respondeu pedindo-lhe que se sujeitasse aos empregadores. Isso acabou levando Wolfgang Amadeus a revoltar-se contra a atitude subserviente do pai.
 

Mas Seu Leopold recebeu, em 1785, uma carta de outro grande compositor clássico, Joseph Haydn, que dizia: "... Digo-lhe diante de Deus e como homem honesto: seu filho é o maior compositor que conheço. Ele tem gosto e a maior ciência da composição."
 

Você não precisa colocar de fundo uma sinfonia de Mozart enquanto faz a tarefa de Matemática. Mozart não torna ninguém mais inteligente. Mas é impossível não ficar impressionado com o fato de que um compositor clássico tenha se tornado mais popular e apreciado nos tempos da música pop.

Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 29/09/2014 - Fonte: