Os mitos do rock in Africa

Algumas acusações contra o estilo podem estar baseadas em histórias pouco confiáveis
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Por muito tempo se ouviu sermões e palestras que argumentavam que o diabo é o pai do rock e que o estilo veio da África com os negros para transtornar a vida da família tão branca, tão cristã e tão norte-americana.
 
Esses argumentos, originários de declarações de roqueiros e historietas improváveis, fazem parte das objeções ao rock. Descontando o fato de que há muitos roqueiros e canções que apoiam atitudes daninhas e nada defensáveis do ponto de vista moral, o que há de verdade nesses argumentos?
 
Ainda circula por aí a história de um missionário que fez uma experiência musical numa "incivilizada" região da África. Quando seu aparelho de som tocou música clássica, os homens da tribo sorriram e indicaram em seu idioma que o som era agradável para eles. Mas quando ouviram rock, os nativos reagiram empunhando suas lanças como se fossem lutar e pegaram pedras para destruir o aparelho.
 
Não demorou para que os contadores dessas histórias fossem acusados de preconceito racial. Eles consideravam a música dos povos africanos como primitiva, selvagem, pagã, demoníaca, inspirada pelo vodu.
 
Acostumados à sofisticação harmônica e orquestral da música clássica europeia, os oponentes do rock se opunham, por tabela, à música de raiz africana, demonstrando ignorar que a complexidade dessa música era de outra ordem. No caso, de ordem rítmica. Fingiam ignorar ainda a bonita simplicidade melódica daquela música, cuja base frequentemente serviu às apreciadas melodias de black spirituals e canções gospel do fim do século 19.
 
Nesse tipo de história, os africanos reagem somente de acordo com um estágio primário de comportamento musical. Ouvem uma música e reagem gostando. Ouvem outra e reagem brigando. Assim, se até os “pagãos incivilizados” reconhecem o suposto mal inerente do rock, como os civilizados cristãos ocidentais poderiam negá-lo? Essa conclusão soa como música para os ouvidos dos religiosos apreciadores da música erudita europeia.
 
Se acrescentarmos o fato musical que a batida quadrada do rock nada tem a ver com a intrincada teia percussiva do vodu, então fica até difícil saber o que é fictício nessas histórias: se as conclusões ou as próprias histórias.
 
Então, num exercício ficcional, vou tentar adivinhar quais as músicas que o improvável missionário usou no experimento. Ele pode ter tocado um disco dos Beatles. Mas que música? Hey Jude? Yesterday? Não, ou os nativos poderiam sair apaixonados direto para suas tendas. Eleanor Rigby ou A day in the life? Não, elas têm orquestração muito sofisticada, iria parecer música clássica e os nativos poderiam ficar elogiando o arranjo para os violinos. Mas certamente aqueles não eram nativos que amavam os Beatles e os Rolling Stones.
 
Será que eles condenariam os deuses do mau gosto se ouvissem o "aê-aê-ô-ô" do axé? Também não creio que a vitrola desse experimento tocou I will survive, hit da disco music. Seria muita irresponsabilidade científica!
 
Mas o missionário pode ter tocado a 5ª Sinfonia de Beethoven. Hum, não, aquele “pam-pam-pam-pam” assustaria os pobres ouvintes selvagens. Melhor tocar um concerto de Mozart, dos mais calmos. 
 
E se depois ele tocou um punk do Sex Pistols ou um heavy metal do Ozzy Osbourne? Penso que só a menção desses nomes já faz desmaiar de horror muita gente, incluindo este escriba. Nesse caso, quase dá para acreditar que as tribos cobaias do experimento iriam ficar em pé de guerra. A menos que algum nativo engraçadinho gritasse “Toca Raul!”.
Autor: Joêzer Mendonça - Publicado em: 06/11/2013 - Fonte: