A mágica do carnaval

E o ciclo sem-fim de dor e prazer
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O carnaval encontra suas origens com os gregos e seu insaciável apetite pelo conhecimento e veneração aos deuses (At 17:22), passa pela Igreja Católica medieval e seu fascínio fatal pelo poder e domínio, e encontra seu apogeu em uma sociedade contemporânea marcada pela dor e embriagada pelo prazer.

Essas duas coisas, dor e prazer, como um time entrosado, comandam a vida de milhões de pessoas. É uma dupla dinâmica e com forte tendência cíclica; de retroalimentação. Há tempos, Paulo Freire já discorria sobre os dois modelos de brasileiros, o oprimido e o opressor. O primeiro, conhecedor da dor e perseguidor do prazer que o liberta por um instante. O segundo, atormentado por seus fantasmas éticos e pela dor que o rodeia, vê no prazer um direito e expressa assim sua imaginada superioridade.

A mágica do carnaval fica por conta da união temporária de dois mundos aparentemente antagônicos, mas que se mostram, nos dias de folia, ser “farinha do mesmo saco”. Os dois são acometidos pela ilusão de que o prazer é o alívio e remédio contra dor. O elixir milenar do prazer é buscado à exaustão, apenas para se revelar no seu extremo que no fim a dor é maior. A euforia é seguida pela tristeza e a energia pelo esgotamento.

Num samba-enredo trágico, digno da cultura grega, oprimido e opressor se encontram e se veem como irmãos enganados por uma entidade brincalhona que gosta de pregar peças de mau gosto, embalando a todos numa mesma toada – “beber, cair e levantar”. Com isso, a escravidão da dor e do prazer continua a dominar a vida dos oprimidos e opressores num círculo encantado e sem-fim de busca de “sei lá o que”.

A espiritualidade cristã, porém, sugere um caminho diferente e pede passagem para lembrar a todos que “é preciso saber viver”. O prazer não é o remédio para a dor. Ele é bem-vindo e desejável, mas não se pode esperar que o prazer cumpra um papel que não cabe a ele. As palavras sagradas do texto bíblico, ironicamente escritas em grego, têm comunicado aos foliões de plantão, ao longo dos séculos, que não é o conhecimento, nem poder, nem domínio e tão pouco o prazer sem limites que libertam o ser humano de sua cadeia cíclica de miséria, dor e medo. O recado aos gregos, aos cristãos medievais e a todos nós é: “Deus é amor [...] no amor não há medo; pelo contrário o perfeito amor expulsa o medo. [...]” (1Jo 4:16, 18).

A sociedade urbana contemporânea vive em medo. A apoteose da folia é o prenúncio da dor. Por isso, saber viver como criatura formada pelas mãos de um Deus de amor é experimentar a libertação duradoura.

Se como dizem, a arte imita a vida e a vida imita a arte, quem sabe além do carnaval exista de fato uma quaresma, que quer dizer preparação. E quem sabe a vida imite um livro e haja ressurreição. Ressurreição de uma vida nova que não tem fim. A espiritualidade cristã convida todos a uma vida nova diária que liberta de fato e que concede “a paz de Deus, que excede todo entendimento” (Fp 4:7).

Não proponho que a espiritualidade cristã tenha ausência de dor e muito menos de prazer, mas sim, que ela liberta do ciclo que aprisiona. O cristianismo sugere uma nova humanidade, na qual a dor é abraçada como aprendizagem e o prazer como presente de Deus, quem de fato é a verdadeira fonte de alegria, contentamento e satisfação.

O equilíbrio da alma é encontrado na doçura do amor de Deus, que retira o medo, permitindo abraçar a dor seja como ela for; perda, ansiedade, frustração, abandono, busca de significado e propósito ou apenas o vazio da alma. Ao mesmo tempo, esse equilíbrio permite curtir o prazer sem ser frustrado por esperar mais do que ele pode oferecer.

Essa é “a vida nova que não tem fim”!
 

Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 07/03/2014 - Fonte: