Natal barato

Deus conosco e com eles
© Giordano Aita / Fotolia
Enquanto as luzes brilham e os shoppings ficam repletos de compradores apressados para completar a lista de presentes, outros continuam seu trabalho fiel e persistente tentando terminar suas tarefas para poder desfrutar da atmosfera festiva do Natal e Ano-Novo. 
 
Enquanto isso, em outro lugar da cidade, algumas crianças continuam sem presentes ou sem mesmo o suficiente para comer e vestir. Outros passarão a noite de Natal sozinhos imaginando dias melhores. 
 
Muitos se unirão a outros iguais, em celebrações encharcadas de fartura, beleza e perfume, enquanto alguns vão assistir de camarote ao desfile de pessoas bem arrumadas em seus carros confortáveis lotando as igrejas para celebrar Jesus, o Salvador. 
 
Mas Salvador de quem? Deles? Ou meu salvador? Se ousarmos olhar através das janelas dos olhos dos outros, vamos descobrir um caleidoscópio de respostas. É verdade que as festas de fim de ano – Natal e Ano-Novo – acontecem em meio a contextos diversos, assim como as cidades em que vivemos. Nesses lugares, o ideal natalino de uma sociedade mais justa e desprendida parece se apagar com o tempo. 
 
Ainda sim o Natal é lindo. Mesmo que seja para encantar os olhos dos que permanecem com a barriga vazia e as mãos acorrentadas pela opressão e falta de oportunidade. Quem sabe essa data poderia ser ainda mais bonita se cada cristão entendesse melhor a mensagem de desprendimento que caracteriza a cena do presépio. 
 
Desprendimento de José em aceitar Maria, sua futura esposa, grávida de outro alguém. Desprendimento de Maria em aceitar a exposição e possível ridículo de explicar, para ouvidos incrédulos, que seu filho era filho de um tal Espírito Santo. Desprendimento dos reis magos que, com grande esforço, cruzaram desertos áridos e terras estrangeiras no lombo de desajeitados camelos para trazer presentes milionários a um bebê desconhecido. Desprendimento dos pastores que deixaram seus rebanhos, com risco de perda financeira, para se curvar diante de um recém-nascido. Desprendimento de Deus, que deixou Seu trono universal para nascer como homem a fim de declarar que é Emanuel, o “Deus conosco”. 
 
A vida espiritual desperta a consciência e cobra um preço de todo vivente urbano. Esse preço é um sussurro desagradavelmente insistente declarando que nós cristãos deveríamos fazer mais por quem tem menos; muito menos. Um sussurro que deveria permitir que curtíssemos as festas de fim de ano com certas limitações. 
 
Afinal, quem não se sente desassossegado ao ver pessoas maltrapilhas pelas ruas – quase humanas – sentadas nos cantos escuros consumindo a si mesmas em vícios para aplacar sua infelicidade? E o que dizer do que sentimos diante de crianças produzidas num qualquer “de repente” inconsequente, obrigadas a viver sem infância na terra das oportunidades? Um Natal barato.
 
É claro que não podemos consertar o mundo. Também nos sentimos explorados por esses mesmos desafortunados que, por vezes, mentem nos semáforos e nos atacam nos cruzamentos. Também fico confuso quanto ao que fazer e como fazer. Mas enquanto luto para resolver meus conflitos éticos e filosóficos, as coisas continuam do mesmo jeito. 
 
Talvez, eu deveria simplificar as coisas. Em vez de resolver o problema do mundo, posso ajudar a resolver o problema de alguém. Os encontros familiares e das igrejas cristãs nesta época do ano deveriam ser momentos de celebração de vidas que refletem os ensinos vividos por Jesus, o Deus conosco. Temos que permitir que o reino de justiça de Jesus não seja mais uma realidade utópica para muitos. Um Deus com eles e conosco. 
 
Espero que nas listas de boas intenções para o próximo ano consigamos incluir um “praticar o Natal o ano todo”. Isso não será feito por comitês, comissões, instituições religiosas, mas por pessoas comuns como eu e você. Ouvintes atentos da sublime voz que sussurra baixinho em nosso coração:
 
“Solte as correntes da injustiça, desate as cordas do jugo, ponha em liberdade os oprimidos, partilhe sua comida com o faminto, abrigue o pobre desamparado, vista o nu que você encontrar e não recuse ajudar ao próximo. Elimine do seu meio o jugo opressor, o dedo acusador e a falsidade do falar. Com renúncia própria beneficie os famintos e satisfaça o anseio dos aflitos” (Is 58:6-10). O “Deus conosco” ficaria bem feliz e nos retribuiria com luz, saúde, prosperidade e paz de espírito.
 
Que esse fim de ano seja para você um grande recomeço: para uma cidade melhor, uma vida espiritual mais coerente, e para uma consciência mais tranquila, viva e incandescente, como as luzes de Natal e os fogos do Ano-Novo!
Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 24/12/2013 - Fonte: