O avesso do avesso

A arquitetura urbana aponta para cima, mas o evangelho nos conduz para baixo
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As pessoas na cidade são movidas por um olhar caracteristicamente para cima. O crescimento é uma obsessão generalizada. A bolsa tem que subir, o salário também. Todo mundo busca promoção, melhor isso e melhor aquilo. Seguindo essa lógica, quando a coisa não vai bem, com a mão fechada levantamos o polegar e o viramos para baixo. Com uma típica entortada de boca demonstramos todo nosso desprezo pelo que vai para baixo. 
 
Com essa obsessão de olhar para cima, muitos se esquecem de que da perspectiva da espiritualidade bíblica, o melhor caminho para cima é, de fato, para baixo. E que nosso ideal de libertação é, em realidade, a maior e mais triste das escravidões. 
 
A espiritualidade que liberta parte de uma mente não limitada pelo tapume do poder e glória humana. Pensamos que dinheiro e prestígio nos permitirá uma vida mais livre, o que na prática significa poder comprar tudo de que “necessitamos”, dar boa escola para os filhos, morar bem, sair de férias, entre outras coisas que somente quem “pode” e está “por cima” experimenta. 
 
Porém, a tristeza vem à tona quando, ao chegar ao fim do arco-íris, você descobre que essa necessidade de subir é insaciável. Descobre que seus filhos têm a melhor educação formal possível, mas mendigam a presença dos pais; você percebe que mora bem, mas mal conhece ou aproveita sua casa. E as férias?! Ah, isso é pra quem tem tempo!
 
Resta saber se essa é a vida adulta que você deseja ter. Caso contrário, o caminho cristão alternativo talvez não seja tão alternativo assim. A espiritualidade demonstrada pelo Jesus de Nazaré é o avesso do avesso, um contrassenso, praticamente um disparate aos olhos dos urbanoides. 
 
Ele ensinou e viveu outra lógica. Para Ele, quem perde ganha; e o mérito está em ajudar quem não pode retribuir; emprestar para quem não pode pagar; e amar aquele que nos odeia. Isso tudo é verdadeiramente o avesso do avesso para uma sociedade em que perder é pecado, juntar-se a quem não agrega é burrice, emprestar é falência certa e amar exige condições. 
 
Mas, olhando de perto, o avesso do avesso pode ser o lado certo da costura. Durante toda a vida somos cercados por vozes que nos incentivam a buscar coisas mais altas, a olhar para cima. No evangelho de Jesus, porém, essas vozes não estão presentes. No avesso do avesso, Jesus ensina que quem quer ser o líder deve se tornar servo (Mt 20:25-28); quem quer ser grande deve se tornar uma criança (Mt 18:3); e quem ama sua vida deve perdê-la (Jo 12:25). 
 
Um pouco radical e utópico? Talvez porque você ainda não chegou ao topo. Os que trilharam o caminho morro acima e chegaram ao fim do arco-íris do tal sucesso, já descobriram que o pote de ouro é feito de névoa, não se pode pegar. 
A ansiedade do jovem brasileiro pelo sucesso só é menor do que a frustração dos que já o alcançaram. A espiritualidade verdadeira trabalha numa sintonia diferente.
 
Jesus tinha o olhar para baixo e seu caminho foi descendente enquanto alcançava o ponto mais alto (Fp 2:5-11). Sua direção tendia para o pobre, o sofredor, o marginalizado, o solitário, o faminto, o moribundo, o torturado, o sem-teto. Seu caminho era em direção a todo aquele que clamava por compaixão. E enquanto caminhava para baixo, chegava ao ponto mais alto. O trágico avesso humano é que, por vezes, ao chegar ao sonhado ponto mais alto, normalmente tocamos o fundo do poço. 
 
O viver a espiritualidade tendo a mente moldada pela lógica do avesso talvez não traga sucesso, popularidade ou poder. Mas certamente encherá o coração com alegria e paz, verdadeiras joias raras e objeto de luxo nos aglomerados urbanos. 
O caminho para alcançar o que o ser humano tanto busca talvez esteja loucamente escondido no avesso do avesso. A coragem libertadora está em dar a meia volta e viver orgulhosamente no avesso.
Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 01/10/2013 - Fonte: