Por que os cristãos lotam as igrejas?

A espiritualidade bancária e a economia do reino
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Semana após semana, cristãos lotam as igrejas em busca do “pão”. Como uma massa de famintos sem acesso a suprimentos básicos para sobrevivência, o professo cristão abre suas mãos em súplica para receber alimento que constantemente é insatisfatório. Esses seres vivem seu contexto como agências bancárias aguardando que seus benfeitores, os detentores dos recursos, lhes depositem conteúdo necessário para sua sobrevivência.

Nesse caso, o indivíduo cristão fica aprisionado a um sistema eclesiástico que o confirma como um recipiente de conhecimento, de informação religiosa. Daí, vida espiritual se torna saber, e não ser. O saber se torna mais importante e a informação é o objeto da busca. Neste processo, o ser acaba sendo descartado porque o indivíduo tende a se tornar satisfeito com o saber depositado.

Nesse ambiente benevolente de conceder o “pão” ao faminto, o saber precisa estar alinhado com o saber religioso, e a criatividade, por vezes, é heresia. Espiritualidade se torna a carga que recebo de alguém, o combustível com o qual encho o tanque para seguir a semana, o supermercado em que me abasteço ou o banco no qual recebo depósitos de informação religiosa.

Em todos esses casos, a espiritualidade é definida por transmissão de informação e não, necessariamente, ação de transformação. A experiência cristã se torna vazia porque, embora contenha palavras e conteúdos ainda que corretos, é inócua, sem poder transformador.

Aquele que vive a espiritualidade no contexto precisa desistir de enxergar-se como recipiente passivo de informação e conformação para viver uma relação de transformação com Deus e com as pessoas. Os conteúdos deixam de ser importantes e passam a ser vitais porque são transformadores e não apenas informativos. Passamos a compreender que a palavra sem força de ação transformadora, é vazia; e ação sem a força da palavra é alienação que emburrece.

No século 21, o cristão precisa romper com a autopercepção de que é uma conta bancária e se reencontrar, redefinir e reinventar. O que se livra dessa visão conformista encontra esperança de transformação diária, além de “pão” em abundância.

Nutrido, ele abre os olhos para enxergar o poder de Deus e sua presença agindo em todo instante e em todo lugar. Ele não costuma ser vencido pelo cochilo espiritual, não porque alguém lhe disse que é perigoso, mas porque tem consciência que um segundo de dormência por inanição pode significar perder uma ação fantástica de Deus realizada ao seu redor.

Esse cristão se torna atento e alerta à manifestação constante de Deus em sua vida e na vida dos outros. Esperançoso e concentrado no extraordinário, ele não tem tempo nem prazer em conformar-se à ladainha quase trágica dos jargões que tomam conta do cenário religioso brasileiro. Muito menos espera passivamente pelo “alimento” semanal.

Talvez, o ponto de partida seja a redefinição de si mesmo. A coragem de abandonar a autoimagem estática e obediente, passiva e anulada, de quem apenas está pronto para receber informações de alguém que “sabe”. Conteúdo que nem sempre é entendido e que nem sempre gera convicção e transformação no público que o recebe. Pensar assim, é como experimentar uma revolta espiritual libertadora que permite ao indivíduo se encharcar e fartar do pão e da água da vida, quando e onde a boca secar e o estômago roncar.

A economia do Reino de Deus não se faz por uma massa faminta aguardando alimento espiritual semana após semana que lhes será oferecido por detentores da verdade. A economia do Reino é gerada por uma eclesia inteligente. Uma geração que recebe sabedoria generosa do Espirito de Deus que “a todos dá liberalmente” (Tg 1:5).

Abandonar a espiritualidade bancária é assumir uma vida cristã ativa e responsável, engajada para um Deus vivo e atuante em missão reconciliadora a todo ser humano.

Ainda sim, os cristãos continuarão lotando as igrejas por todo o país. Porém, não mais como miseráveis em busca de migalhas que caem da mesa dos que muito têm, mas como pessoas nutridas, uma nova humanidade, que se junta para celebrar Aquele que é doador da vida e da abundância.

A todo o que tem ouvido e vive no contexto, o texto diz: “Vem! [...] quem tiver sede venha; e quem quiser beba de graça da água da vida” (Ap 22:17).

Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 09/05/2014 - Fonte: