Santidade na cidade

O “santo do pau oco” estragou a brincadeira?
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Rotulada por alguns como o ópio social e apontada por outros como estratégia de manobra dos ignorantes, a prática da religião nunca foi um sinal, por si só, de vida espiritual verdadeira e coerente. Na busca de viver o texto no contexto, às vezes (mais do que gostaria), encontro cristãos assustadoramente alienados tanto de um lado quanto do outro. É aí que a religião pode se tornar o engano amigo, “bunitinho” e adequado. 
 
No fim do século 17, a coroa portuguesa cobrava 20% de imposto sobre a extração de minério no Brasil colônia. Para escapar dessa tributação, os mineiros, tanto escravos quanto senhores, escondiam ouro, diamante e pedras preciosas dentro de imagens religiosas ocas. Nascia aí a expressão popular “santo do pau oco” como sinônimo de falsidade. 
 
Essa expressão descortina um traço do sistema de visão de mundo brasileiro que tende a interpretar santidade como hipocrisia e se revela na expressão “santinho” que caiu no gosto popular e é sempre usada com cinismo quando convém.
 
O texto, revelação que Deus faz de si mesmo através da Bíblia, é abandonado, negligenciado e por vezes ignorado por verdadeiros santos ocos. Pessoas que vivem espiritualmente vazias ou no mínimo fragilizadas, absorvidas pelo contexto e pelas preocupações diárias que as sufocam (Mt 13:22). 
 
Elas perdem de vista a grandeza do Reino de Deus, permitindo que sua visão de mundo e lógica sejam distorcidas por pressuposições contextuais. Seu discurso vago e generalista de um amor insípido parece uma versão 3D dos livros de autoajuda mais chinfrins. 
 
Já outros santos, ignoram o contexto, local em que vivemos a vocação espiritual, porque parecem esquecer que o Reino de Deus já chegou. Olham para o mundo contemporâneo como o playground do diabo e esquecem que o Príncipe deste mundo, que tem o cetro nas mãos e que comanda a história deste planeta tem outro endereço. 
 
Alienados, esses santos se apegam a prescrições, rituais e jargões que falam muito, mas dizem quase nada a quem de fato precisa entender. Um engano sutil, mas poderoso, que faz esse santo oco pensar que está cheio de algo bom quando de fato é como um pastel cheio de vento.
 
No fim das contas, o santo do pau oco virou mesmo um estraga prazeres. A cidade, que tanto precisa de santos vivendo o texto em contexto, pena por sua ausência. E os santos, saudados nas cartas de Paulo e em outras epístolas do Novo Testamento, andam desaparecidos de nossas metrópoles, casas e famílias. 
 
Os santos de alma e cabeça ocas, absorvidos pelo contexto ou escondidos dele, são de fato vítimas de sua visão deturpada de santidade. Viver o texto em contexto é experimentar o que o Novo Testamento chama de “Cristo... formado em vocês” (Gl 4:19). 
 
Santidade de verdade não é ausência de erros ou injustificável senso de superioridade religiosa. Santidade é ser cheio da presença de Cristo formando uma nova mente que pensa, enxerga, interpreta e age a maior parte do tempo equilibradamente. 
 
Santidade é reconhecer a presença de Deus atuante, viva, presente e surpreendente. Uma mente biblicamente moldada não é irritada e exacerbada pela manifestação constante do sobrenatural, mas serena e confiante. Essa santidade não é forçada, mas amadurecida naturalmente pela obediência constante e prolongada na mesma direção. 
 
Viver a santidade é viver de fato o amor de Cristo. Esse amor não é intolerante, condenatório, segregacionista ou elitista. Mas também não é omisso ou covarde. O Cristo formado em nós – a verdadeira espiritualidade – é genuinamente preocupado por todo “outro” da criação de Deus. Esse amor leva a entrega a Deus e ao outro, o que é contracultural, visto que vivemos para ganhar, agregar, conquistar, vencer, enfim, receber. 
 
A santidade na cidade reflete o Santo que caminhou por Jerusalém, Jericó e Cafarnaum. A santidade na cidade é Cristo vivendo em nós em São Paulo, Natal, Brasília ou Cabrobó.  
 
Na santidade, o desistir de si mesmo é vencer; o abandonar-se para Deus é ser achado; o perder a ambição egoísta é ganhar a liberdade e o abandonar os desejos é receber a completude da alma. 
 
O santo do pau oco que me perdoe, mas o que precisamos é da invasão dos santos, pessoas comuns com seus defeitos e qualidades vivendo nas mãos de Deus e sendo moldados à imagem de Jesus. A todos os santos urbanos, minhas boas-vindas!
Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 03/09/2013 - Fonte: