A misericórdia ilusória da crença

Contra o evangelho da ilusão que faz bem
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Ao promover debates com alunos de Ensino Fundamental e Médio, dei-me conta de que, mesmo os alunos cristãos, acatam inconscientemente pressupostos que minam sua fé. Frases-conceitos, tais como “cada um tem o direito de fazer o que quiser com sua vida”, “penso assim porque sou cristão, mas os não cristãos também estão certos por pensar do jeito deles”, entre outras, revelam o nível de influência da pós-modernidade sobre os jovens cristãos. E é entre eles que as mudanças começam.
 
Muitos líderes, piedosos e bem dispostos, raciocinam que se os membros da igreja toda (o que inclui os jovens) se envolverem no evangelismo pessoal, não haverá espaço para dúvidas. Acredito no testemunho pessoal. Sei de seu potencial para vitalizar a vida cristã. Mas ele não pode responder algumas dúvidas profundas; tais dúvidas não o são no sentido de questionamento em busca de resposta, mas no acolhimento da incredulidade.
 
E há muita incredulidade que se mistura no bojo pessoal de crenças, maculando a visão de determinados cristãos. Nem por isso eles deixam de ser membros ativos da igreja. Pensam ser cristãos, quando, de fato, seus conceitos não variam muito daqueles que a maior parte da população reconheceria como válidos. Sobretudo os mais novos estão despreparados para lidar com a sutil influência da pós-modernidade, através de filmes, animês, games, livros, revistas, amizades, etc.
 
A crença, para esses cristãos sob o signo pós-moderno, presta-se a desempenhar um papel bem restrito, envolvendo algumas poucas áreas da vida, como a parte emocional, relacional e as obras de caridade. Tudo muito válido, todavia insuficiente. O antídoto? Mostrar que a religião afeta o intelecto, a concepção de vida como um todo. Precisamos parar de vestir a carapuça de que a religião lide apenas com um conjunto de valores. As pessoas não necessitam crer em Deus somente com o objetivo de verem seus filhos longes das drogas ou de evitar que meninas engravidem e casais se separem. Há mais do que isso.
 
Em um soneto intitulado Jesus, o poeta parnasiano Olavo Bilac menciona a “utopia celeste” e a “misericórdia ilusória da crença”, expressões que bem refletem a forma como se encara a religião praticamente um século depois de Bilac. Os valores religiosos são bem aceitos, em geral, mas sua base histórica e factual, descartada. Lembra a situação de um pai que narra um conto de fadas para ensinar o filho a ser obediente, sem se preocupar que a história pareça fantástica, pelo motivo de a história em si não ser importante, já que se trata de algo claramente fictício.
 
Entretanto, os cristãos vêm aceitando isso sem reivindicar o evangelho não como uma esperança possível, porém como a única esperança. Jesus, em Seus próprios termos, não Se recomenda como uma das alternativas para a humanidade; Ele é o Único e o único absoluto. Sua misericórdia é real, porque ela se acha embasada em fatos verificáveis, como Sua morte, ressurreição e ascensão. Apenas por isso, a fé cristã merece nossa crença.
Autor: Douglas Reis - Publicado em: 28/08/2013 - Fonte: