A necessidade da dúvida

Ela é o meio-termo entre a ignorância e a resistência
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Stephen Hawking não se tornou conhecido como apostador doentio, desses que frequentam cassinos. Entretanto, em julho de 2012, Hawking cismou com Gordon Kane, da Universidade de Michigan (EUA). Ele acreditava que jamais seria encontrado o bóson de Higgs, uma partícula subatômica supostamente relacionada à origem do Universo. Com a descoberta feita, Hawking perdeu seus 100 dólares.1
 
Ninguém discriminou o físico por sua incredulidade, afinal, duvidar também faz parte da ciência. Mas cientistas já erraram por excesso de credulidade. Charles Dawson que o diga! Dawson se aproveitou da fama de Arthur Smith Woodward, do Museu Britânico, para junto dele anunciar sua descoberta: o crânio de um suposto elo perdido entre o homem e o macaco. 
 
Batizado de Homem de Piltdown, o primeiro fragmento foi divulgado em 12 de dezembro de 1912. Seguiu-se o achado de dois crânios semelhantes em 1915, todos considerados legítimos. Somente em 1949, mais de 30 anos depois da descoberta, o paleontólogo Kenneth Oakley testou um dos fósseis mostrando que era recente. A peça consistia na fusão de uma caixa craniana de um homem moderno com a de um orangotango, com dentes de elefante, hipopótamo e chimpanzé.2
 

Fé e dúvida

Nem sempre é simples perceber quando devemos acreditar e quando devemos duvidar. Principalmente quando o assunto é a fé. Mas haveria algum espaço para a dúvida na vida cristã? Uma boa definição explica a dúvida como um estado entre fé e incredulidade. A dúvida não seria uma coisa ou outra, apenas um meio-termo.3
 
A essa altura, alguém perguntaria: “Espere um minuto: Jesus não repreendeu Tomé por ter duvidado?” É válido refletirmos sobre o que realmente aconteceu. Tomé é lembrado por ter duvidado da ressurreição de Cristo. Como não havia testemunhado a primeira aparição de Jesus, ao rever o grupo e saber da notícia, ele afirmou firmemente: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas Suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei” (Jo 20:25, NVI).
 
Jesus Se reencontrou com os discípulos uma semana depois da declaração de Tomé. Cristo desafiou Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as Minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no Meu lado. Pare de duvidar e creia.” (Jo 20:27, NVI). Por que Jesus reagiu de forma tão severa ao lidar com a dúvida de Tomé? Será que toda dúvida é sempre errada? 
 

Ignorância x resistência

Uma coisa é ter dúvidas que sejam fruto de nossa incapacidade de entender determinado fato ou explicação. Outra coisa, bem diferente, é continuar duvidando quando as respostas estão bem à nossa frente! E o que aconteceu com o vacilante Tomé? Apesar de sua fraqueza, o paciente amigo Jesus tratou Tomé de tal maneira que ele se sentiu acolhido e disposto a seguir o Mestre.4
 
Você tem dúvidas? Ótimo! Deus tem mais do que boas respostas: Ele oferece Seu companheirismo. Há muitas coisas que você não entenderá completamente. Para outras, você terá farta evidência ao longo da jornada. Com base naquilo que podemos assimilar por meio de nossa mente limitada, devemos decidir confiar no Salvador e declarar como Tomé: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20:28, NVI).
 

Notas

1 "Bóson de Higgs me custou 100 dólares", diz Hawking, em revista Exame.  .
2 Michel de Pracontal, A Impostura Intelectual em Dez Lições (Unesp, 2004), p.175-183.
3Os Guinness, Encontrando Deus em meio à dúvida: a segurança da fé para além das questões mais difíceis da vida (Brasília, DF: Palavra, 2011), p. 26.
4 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, (CPB, 2003), p. 808.
Autor: Douglas Reis - Publicado em: 29/05/2013 - Fonte: