Jesus versus Sua doutrina – parte 1

Uma luta em que os dois lados perdem
© Piotr Marcinski / Fotolia
Há um falso dilema que insiste em assolar a vida prática dos seguidores de Cristo. Trata-se da ideia de que devemos ler as Escrituras somente de forma devocional. O argumento é que a devoção serve para o crente se familiarizar com a pessoa de Jesus, indo à Bíblia não em busca de confirmações doutrinárias ou mesmo de estudo cuidadoso. Bastaria conhecer o que a Bíblia diz acerca de Jesus. É comum ouvir que ler o texto sagrado dessa perspectiva seja o equivalente ou até o sinônimo de devoção pessoal.
 
Apesar da ampla aceitação do conceito, algumas perguntas requerem atenção. A abordagem não estaria pressupondo uma dicotomia entre Jesus e Sua doutrina? Se for o caso, a dicotomia pode ser apoiada por evidências bíblicas? Fazer as pessoas escolherem entre Jesus ou Sua doutrina não constituiria contradição insuperável, tendo em vista que o próprio Jesus afirmou que o reconhecimento de Sua condição messiânica dependia de análise de Sua doutrina? 
 
Além do mais, tudo o que se conhece a respeito de Jesus – Seu nascimento virginal, vida vitoriosa sobre a tentação, as profecias do Antigo Testamento cumpridas por Ele, Seu sacrifício redentor, entre outros – não faz parte do corpo de doutrinas bíblicas? Portanto, Jesus separado das doutrinas nem poderia ser compreendido da forma como os cristãos o fazem; antes, seria mera figura simbólica, cuja identidade permaneceria no campo da especulação.
 
Talvez a ênfase no Jesus contraposto às doutrinas tenha raiz em, ao menos, dois fatores: um relacionado à mentalidade da própria igreja e outro atrelado ao contexto cultural, o qual acaba exercendo influência sobre os cristãos. Nesse momento, trataremos apenas do primeiro.

 

No que tange à mentalidade cristã, existe uma reação ao legalismo que marcou a tradição protestante no século 18 e deixou resquícios entre as denominações que diretamente descenderam da Reforma. A racionalidade dos primeiros reformadores desembocou em uma religião formal para, cerca de um século depois, ceder espaço à esterilidade proporcionada pelo Racionalismo cristão do pós-iluminismo. Em reação a esse perfil de religiosidade vazia, tivemos o momento pietista, que tentava retomar a simplicidade da fé cristã, mas que, infelizmente, caminhou para outro extremo.
 
No século 20, ao passo que o cristianismo tradicional se viu em guerra contra ideologias ateístas (marxismo, darwinismo e existencialismo, para mencionarmos algumas), além de viver em constante conflito com o liberalismo teológico, testemunhamos a ascensão de uma espiritualidade cristã carregada de espontaneidade, anti-intelectualista e comprometida com uma agenda sóciopolítica bem definida.

 

Na teologia, a experiência da salvação pessoal ocupou o primeiro plano. Toda uma subcultura cristã, alimentada, sobretudo, por hinos e pregações, se erigiu em torno da salvação, obliterando outras doutrinas do cristianismo. Não à toa, certo segmento do evangelicalismo é conhecido como os "nascidos de novo".
 
Parece que a ênfase em uma compreensão reducionista do processo de salvação se constituiu um dos fatores que explicam o antinomismo da pregação evangélica contemporânea. Sob a influência do existencialismo cristão de Kierkegaard, o evangelicalismo do pós-guerra apresentou a mensagem bíblica como se fosse constituída de um relacionamento com o Deus, sem necessidade de buscar qualquer base para esse relacionamento, ou sem a intermediação das Escrituras. A Bíblia até poderia ser o ponto inicial para se relacionar com Deus, mas não a mensagem segura, a revelação substancial de Sua mensagem.
 
Nessa nova configuração, as doutrinas perderam sua relevância dentro da espiritualidade cristã. A efervescência provocada por cultos espetaculares, nos quais o emocionalismo é o alvo pretendido, dispensa o estudo objetivo da Bíblia. A mensagem dos púlpitos se encontra atrelada a tendências, necessidades familiares ou demandas motivacionais, ganhando um sentido místico, por vezes até perdendo características propriamente cristãs.
Autor: Douglas Reis - Publicado em: 11/09/2013 - Fonte: