Jesus versus Sua doutrina – parte 2

Um novo cristianismo no horizonte
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Anteriormente, tratei de um falso dilema que vem acompanhando os cristãos sobre o que é mais importante: Jesus ou Suas doutrinas? Falei que a escolha é falsa. Mas esse dilema aparece de outras formas: Jesus ou religião? Recentemente, assisti a um vídeo na internet em que o autor cantava uma espécie de rap sobre o tema, contrastando os ensinos de Jesus aos da religião instituída, chegando a afirmar que o Mestre intencionava acabar com a religião!
 

Em seguida, assisti a outro vídeo, postado por um ateu que denunciava a falácia de afirmar que cristianismo não é uma religião. Embora o vídeo do ateu tenha diversas incoerências e afirmações errôneas, ele está correto em seu ponto principal: o cristianismo é uma religião. Da mesma forma, é impossível separar as doutrinas da pessoa de Jesus, porque elas estão associadas a Ele, assim como também nos permitem conhecê-Lo de maneira mais objetiva.
 

Vimos ainda na primeira parte dessa série que o anti-intelectualismo na igreja levou à separação de Jesus em relação à doutrina, resumindo o cristianismo à doutrina da salvação, entendida de forma bastante limitada. Se o entendimento parcial da salvação solapou a ênfase doutrinária, não se pode ignorar a influência do pensamento pós-moderno para a polarização entre Jesus e Suas doutrinas.
 

Como reação à modernidade e seu espírito de ordem, a pós-modernidade se opõe a toda hierarquização de ideologias segundo sua racionalidade. A espiritualidade passa a contar com maior espontaneidade, ao mesmo tempo em que o sincretismo flui com maior naturalidade e frequência.
 

Posturas rígidas e dogmáticas não são mais vistas como necessárias para alcançar um ideal pré-estabelecido, o qual seja fixo. Não existem coisas como alvos inamovíveis ou verdades universais que os justifiquem. Tudo agora são descobertas experimentais que dão sentido a uma busca que ninguém pode dizer com exatidão para onde conduzirá.
 

Se no passado erros doutrinários eram evitados, hoje eles são fundamentais no processo de aprendizagem. E, é claro, todo erro é apenas questão de perspectiva ou mesmo propicia descobertas que levem à mudança de perspectiva.
 

Um cristianismo sob influência pós-moderna substitui as doutrinas típicas por valores relevantes à época, tais quais tolerância, amor, justiça, luta contra o preconceito, etc. Esses próprios valores são redefinidos, por sua vez, tornando-se impossível fazer um paralelo perfeito com a doutrina cristã, a qual acaba sendo, também por essa razão, encarada de maneira tão negativa, quando não confundida com premissas pós-modernas. Dentro desse quadro, estaria o cristianismo fadado a perder sua identidade peculiar?
 

Levantamos a princípio a questão do entendimento sobre a vida devocional. O problema com o Jesus do coração é que ele tem pouco efeito sobre a mente. Uma vida devocional apaixonada não pode significar meramente uma leitura superficial das Escrituras, que desconsidere contextos e implicações mais amplos, sob o pretexto de se aproximar da pessoa de Cristo.
 

O Senhor Jesus recapitulou o sentido dos primeiros mandamentos do decálogo ao afirmar que devemos amar o Senhor de toda nossa alma, com todo o nosso entendimento, com todas as forças e com todo o coração (Mc 12:30). Nosso amor a Deus não será completo se omitir alguma área significativa da vida.

Como podemos reverter a situação? De que maneira se restabeleceria um modelo em que a doutrina seja convergente com Jesus? Tratarei disso na última parte dessa série.

Autor: Douglas Reis - Publicado em: 13/09/2013 - Fonte: