Jesus versus Sua doutrina – parte 3

Há solução? Três alternativas
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Nas duas primeiras partes da série, acompanhamos como se faz uma falsa separação entre Jesus e Sua doutrina, motivada pela cultura anti-intelectual do cristianismo e também pelo contexto pós-moderno em que vivemos. No encerramento dessa série, cabe considerarmos uma possível solução para o problema. A opção "Jesus ou as doutrinas" deve ser preterida por um modelo mais amplo, o qual inclua Jesus com a doutrina. Seguindo esse raciocínio, teríamos, ao menos, três alternativas.
 
A primeira seria ter as doutrinas como o centro da devoção e por meio delas tentar caminhar até Cristo. As doutrinas serviriam como via de acesso ao Salvador. Um dos problemas com tal proposta é que, ao destacar dessa maneira a doutrina, corre-se o risco de torná-la um fim em si mesma. A porta estaria aberta para o legalismo e a esterilidade espiritual. Vale lembrar que na época do primeiro advento de Cristo, as pessoas mais apaixonadas pelas doutrinas resolveram crucificar o Messias!
 
Uma segunda alternativa seria apresentar alternada e colaborativamente Jesus e a doutrina. A ênfase seria dupla, sendo que nem o Mestre, nem sua mensagem deixariam de receber endosso. A dificuldade com essa abordagem se acha na má compreensão que ela originaria. Ao apresentar Jesus e Sua doutrina lado a lado, não se correria o risco de sugerir que ambos possuam igual importância? Talvez isso pudesse levar futuramente à compreensão de que as doutrinas sejam salvíficas, de modo bastante similar ao conceito católico de sacramento.
 
Finalmente, o terceiro modelo consiste em um relacionamento dinâmico entre Cristo e Sua doutrina, estabelecendo o Salvador no centro dessa relação. Jesus seria mais do que o centro – nele, teríamos o próprio ápice, o ponto para o qual todas as doutrinas convergem. Logo, a mensagem bíblica não seria um adorno fútil, porém parte da revelação que Deus fez de Si mesmo, a qual alcançou seu clímax em Jesus. 
 
Parece que nisso consiste o exemplo dos primeiros apóstolos. Basta dizer que tanto nas epístolas paulinas, quanto nas chamadas epístolas gerais, vemos a centralidade da obra de Cristo, mas não apenas no que se refere à justificação (como é a ênfase dos evangélicos). Jesus é imprescindível para que a pessoa que crê alcance maturidade espiritual (processo chamado de santificação). Dentro desse crescimento em Cristo, as doutrinas bíblicas são fundamentais para expressar não apenas a compreensão intelectual do cristão, mas sua própria ligação com a verdade revelada, em íntima conexão com Jesus, o agente Revelador por excelência (Hb 1:1, 2).
 
Sempre que na história da igreja houve a preocupação de redescobrir as doutrinas da Palavra de Deus com um espírito de humildade e submissão ao Salvador, experimentou-se um reavivamento. Para abordarmos as questões de fé no contexto de vindicação de sua legitimidade, precisamos de um espírito manso e dominado pela Pessoa de Jesus (1Pe 3:15). 
 
Infelizmente, há novas tendências no panorama religioso cristão. Sob o paradigma da leitura devocional da Bíblia, entendido como um encontro místico com Jesus e uma aplicação direta do texto na vida do leitor, muitos seguem comumente ignorando os detalhes históricos e sem preocupação em manter uma interpretação sólida (em geral, o método alegórico parece ser o preferido pelas pessoas, ainda que inconscientemente).
 
Enquanto persistir essa abordagem popular e superficial de ler a Bíblia, menos se poderá conhecer objetivamente o plano de Deus, conforme Ele o revelou. E quem poderá calcular o impacto disso a longo prazo sobre a identidade cristã em tantos indivíduos da nova geração da igreja?
Autor: Douglas Reis - Publicado em: 01/10/2013 - Fonte: