Mulher prisioneira

A revolução feminista colocou as mulheres em outra prisão
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Uma vez ouvi que toda mulher que se preze se considera feminista. Já fui bem feminista, no sentido político e militante do termo, mas deixei de ser. Não que desvalorize as conquistas das sofredoras e injustiçadas que vieram antes de mim e abriram mão do sutiã para aumentar a fogueira em praça pública exigindo reconhecimento, respeito e – por favor – o direito de votar! 
 
O que não me faz mais tão do time é a convicção de que o tal feminismo descambou. Que me perdoem as mais engajadas, mas a desilusão aqui tem a ver com o hoje, com o ontem e com o indizível amanhã. Tem a ver também com sexo e decência. Com aquilo que minha vó chamaria de boa moral. Claro que você é livre para discordar de tudo isso e parar de ler aqui mesmo, mas peço, por favor, continue comigo mais um pouquinho e pondere meus motivos.
 
A pílula anticoncepcional deu direitos para a mulher que antes eram impensáveis. Ela regularia seu ciclo menstrual, escolheria a hora de engravidar e se tornaria, a partir de então, mais independente sexualmente. Para quem se julgava debaixo de uma escravidão de costumes e desmandos masculinos até parecia uma liberdade almejável. Mas o que fizemos com isso?
 
Hoje a mulher se despe para vender cerveja, iogurte, malas, casas e pacotes de viagem. É dela cobrado que se masturbe, tenha orgasmos múltiplos em todas as relações e, básico, livre-se da tal virgindade tão logo se apresente a menarca! Nada retrógrada sou, mas quando vejo meninas de 15 anos em plena vida sexual ao invés de fazer planos para estudar e guardar seu corpo na dignidade que a idade merece, tenho pena. Pena de nós. Quando vejo revistas femininas alardeando novos brinquedos sexuais e maneiras de trair sem despertar suspeitas, compadeço-me de nossa situação.
 
Há quem diga que, provavelmente, foi um homem que inventou a tal liberação só pra poder ter sexo fácil. Pode ser. Só sei que hoje, olhando por aí, conversando e ouvindo sobre o que pensam e se sentem obrigadas a fazer e mostrar, sinto compaixão por minhas colegas de pós-feminismo. Claro que gosto de poder votar e ser eleita, de poder trabalhar e decidir quando quero engravidar. Acho muito legal as pessoas poderem conversar na rua comigo e negociar sem que meu pai ou marido sejam intermediários, mas só.
 
Nada contra as revoluções, entretanto, penso que saímos de uma prisão para entrar em outra. Menos digna, aliás. Pois de que serve poder fazer sexo por aí à vontade se ninguém vai me achar melhor ou me dar mais valor por isso? No fim, não vou ser mais uma, com uma culpa de pesar os ombros e uma reputação de fazer corar a vovó? Então isso não é liberdade, é outra prisão.
Autor: Fabiana Bertotti - Publicado em: 29/05/2013 - Fonte: