Outra perspectiva

Com humor e seriedade, eles interpretam o drama da salvação. Conheça um grupo de amigos que faz da encenação um ministério
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O que você pensa quando se fala em dramatização na igreja? As repostas podem variar. Você pode se lembrar daquela sua estreia (possivelmente traumática) numa apresentação de décimo terceiro sábado da Escola Sabatina infantil ou de sua participação no culto jovem improvisado num acampamento de carnaval.

Nesses casos e em outros, a falta de ensaio, de conhecimento técnico, de figurino e cenário adequados, bem como de talento, podem ter gerado ruídos de comunicação tão grandes que a apresentação se tornou ineficaz, quando muito virou comédia, expondo os participantes ao ridículo e entediando quem assistiu.

Por outro lado, é fácil você também se lembrar de inúmeras situações em que dramatizações lhe tocaram profundamente, fazendo-o refletir naquilo que realmente vale a pena. A verdade é que aquela encenação realizada no campori de desbravadores, na cantata de Natal, no encerramento do congresso de jovens ou da vigília pode ter nos marcado tanto quanto (ou mais do que) uma música ou sermão.

Versão brasileira

Conscientes de que o teatro cristão tem um grande potencial evangelístico e de que o dom da interpretação é tão legítimo como qualquer outro, oito amigos decidiram organizar, em 2005, o grupo Perspectivas Brasil. Esse ministério de artes cênicas foi inspirado num grupo de mesmo nome da Universidad Adventista del Plata. Isielson Miranda, idealizador do grupo tupiniquim, estudou um ano na Argentina, quando participou do ministério hermano. De volta ao Brasil, ele escolheu os componentes a dedo: seus amigos. Esse é um dos segredos da sinergia do grupo e continuidade do trabalho.

Ao longo desses seis anos, a equipe já teve algumas alterações na sua formação, mas de forma geral a base se mantém. Depois de se reunir no Unasp, em Engenheiro Coelho, SP – campus em que os componentes estudavam – o Perspectivas Brasil agora recebe o apoio e utiliza as dependências do Unasp, campus Hortolândia, para os ensaios.

Nesse período também, o grupo acumulou várias apresentações em grandes eventos denominacionais, como no lançamento do CD Eu Acredito do Coral Jovem do Unasp, na gravação do DVD de 25 anos do Prisma Brasil, na transmissão da vigília da TV Novo Tempo, no aniversário do Instituto Adventista Paranaense (IAP) e no musical Igreja – A Paixão de Deus, apresentado no Credicard Hall, em São Paulo.

Seriedade

Para quem já riu e refletiu com as apresentações do Perspectivas Brasil talvez não imagine que, mais do que amizade e descontração, o sucesso do grupo é fruto de oração, ensaio e estudo. Prova disso é que boa parte da equipe fez um curso de dramatização para iniciantes em São Paulo. Lá, eles foram introduzidos a conceitos e técnicas sobre improvisação. Para eles, assim como um pregador estuda oratória e um músico gasta tempo para aprender técnicas vocais e instrumentais – quem testemunha por meio das artes cênicas deve se dedicar a sua arte.

A seriedade do trabalho também fica evidente no interesse do grupo em divulgar o ministério de artes cênicas. Eles gravaram um DVD com peças curtas, um pequeno sermão e uma entrevista, na qual os irmãos Isielson e Isiel Miranda explicam a origem e história do grupo, bem como organizar um ministério (veja o box “Sua turma em cena”). O material, além de promocional, serve como ferramenta evangelística. O grupo ressalta que esse ministério já resultou no resgate de vários jovens afastados da igreja.

Todo ensaio semanal da trupe, que costuma durar três horas, é iniciado com uma reflexão espiritual. Eles sabem que mais do que técnicas, o impacto espiritual do que fazem depende da consagração individual e coletiva. Um dos cuidados tomados pelo grupo é de cuidar com os excessos na fisicalização. “Se temos que fisicalizar uma cena de alguém drogado, temos muito cuidado para que essa fisicalização não seja apologética ou excessiva. É preciso muito cuidado para evitar também a sensualidade nas cenas”, explica Isielson. Quanto ao uso do humor, eles seguem outro princípio: “O humor tem o poder incrível de ‘abrir’ as pessoas, mas deve deve ser utilizado com propósito: deixar uma mensagem mais profunda”, orienta.

Workshop

Na visita do Perspectivas Brasil à Tatuí, SP, em maio, além de se apresentar no culto jovem da Igreja do Jardim Wanderley, o grupo realizou um workshop para 30 pessoas. Na oficina, Isielson falou brevemente sobre a origem e história do teatro, e sua utilização religiosa, inclusive no Brasil, pelo padre José de Anchieta na catequização dos índios. Isielson também definiu os elementos essenciais do teatro (ator, texto e público) e descreveu os gêneros mais conhecidos da arte.

Os interessados pelo tema aprenderam que a essência do teatro está ligada à observação, olhar com atenção para descobrir algo intenso. E que a arte cênica é uma ferramenta eficiente de estímulo dos sentidos e de propaganda ideológica. Todas essas peculiaridades se mostram interessantes para aqueles que desejam fazer bom uso da técnica, compartilhando valores e o melhor roteiro de todos os tempos: a história da salvação.

Siga o roteiro

Historicamente, a Igreja Adventista tem visto o teatro com ressalvas. A denominação tem desaconselhado a frequência às salas de teatro e orientado quanto ao uso dessa arte em suas programações. Nesse aspecto, Ellen White não condena a dramatização na igreja e para fins evangelísticos, mas ressalta que as mesmas devem evitar a vulgaridade e o exibicionismo, conselho adequado também para músicos e pregadores. Em resumo, não há uma proibição para a arte em si, mas cuidados quanto ao seu uso.
Fonte: Alberto Timm em Revista Adventista, setembro de 1996, p. 8 e 9.

Sua turma em cena

Dicas para implementar o ministério de artes cênicas na sua igreja:

Ore. Para não entrar em cena cheio de si, mas do Espírito Santo.
Tenha vontade. Como tudo na vida, interpretar exige dedicação.
Tenha um chamado. Todo ministério surge de um dom e é usado para uma missão.
Converse. Pessoas de todas as idades, classes sociais e posicionamentos. Isso quebrará seus preconceitos e criará mais sensibilidade com o público.
Líder. Não se iluda, sem um nada funciona.
Responsabilidade. Por causa da visibilidade, esse ministério atrai muita gente, mas observe quem tem foco. E nem sempre o mais capaz será o melhor.
Equipe de apoio. Vocês precisam de pessoas para ajudar com o figurino, iluminação, agenda e som.
Ensaio. Sempre no mesmo lugar e hora.
Estude. Aprenda técnicas e conceitos.

 

Para saber +

www.onetimeblind.com

 

Matéria publicada na Conexão JA de julho-setembro de 2011, nas págs. 24 e 25.

Autor: Wendel - Publicado em: 25/04/2014 - Fonte: