A lógica do consumo

Como o argumento da pressa incentiva a compra
Rogério Chimello

A tese de doutorado do publicitário e pastor Martin Kuhn analisou como o apelo de urgência da propaganda tem ajudado a estourar o limite do seu cartão de crédito. Ele constatou que a ditadura da pressa é um fenômeno social que não se limita à publicidade e cujos efeitos colaterais são dívidas e constante insatisfação. Entender a lógica do consumo fará bem para seu bolso e alma. 

 
Como foi construído o império do imediatismo?
Com a revolução industrial, o homem passou a produzir em escala. Mas, para que tudo isso fosse distribuído, era preciso motivar as pessoas a comprar. Aí é que entra a revolução das comunicações de massa. Tudo passou a ser global e instantâneo. O sistema de transporte foi também agilizado, encurtando distâncias e fazendo do tempo um fator de diferenciação. No entanto, quando a velocidade se tornou um padrão do mercado, o que sobrou foi a cultura da pressa.
 
Viver nesse ritmo não seria insano?
Sim. Para aguentar o ritmo frenético da vida, muitos recorrem a mecanismos artificiais de controle do tempo, como as bebidas cafeinadas. Nesse contexto, dormir é perder tempo e a lógica se torna trabalhar, produzir, para lucrar e consumir, em um ciclo ininterrupto.
 
Por que a publicidade teve que recorrer ao fator tempo?
Houve um tempo em que se propagou a utilidade dos produtos. Depois, o caminho foi revestir as coisas de uma embalagem simbólica. Mas, agora, é preciso usar o apelo da urgência, na qual velocidade é sinônimo de inteligência. Surgem então as promoções-relâmpago e de curto prazo, acompanhadas das chamadas: “é só amanhã”, “não fique aí parado” ou “economize comprando hoje”. 
 
Como esse apelo funciona no cérebro?
O clima de urgência altera os valores das pessoas, sem alterar seus princípios. Todo mundo sabe que precisa poupar para garantir o futuro, mas quando a oportunidade de compra é colocada como “urgente” e “barata”, o consumidor pensa na oferta como algo imperdível. É uma lógica absurda. Como você economiza gastando? O consumidor é tratado como um idiota...
 
O consumo tem gerado mais felicidade? 
A lógica do mercado é contraditória, porque se sustenta com a insatisfação. Isso acontece por meio do processo de tornar ultrapassado aquilo que foi lançado como a solução de tudo em determinado momento. Resultado? Constante frustração. É a lógica do pecado. A tentação oferece o prazer imediato e joga a conta para o futuro.
 
Há um explicação religiosa para esse fenômeno?
Creio que nossa tendência à urgência surgiu com o pecado. É a constante busca pelo infinito, causada pela nossa separação de Deus (Ec 3:11). Corremos o tempo todo, como fuga do nosso vazio existencial. Satanás tem a intenção de nos sugerir atividades ininterruptas, para que pensemos que estamos realizando algo. É a supermobilidade que não nos tira do lugar.
 
Qual é a relação entre tempo e espiritualidade? 
Nossa conexão com Deus acontece no tempo, não necessariamente no espaço. Precisamos de tempo para contemplar, ler, falar, ouvir, decidir e mudar. Isso tem tudo que ver com o propósito do sábado (Êx 20:8-11). Parafraseando o mandamento, eu diria: “Seis dias trabalharás, acessarás, te conectarás, mas no sábado o Senhor teu Deus controla seu tempo.” Ao viver essa lógica no sábado, nossa vida é reorientada. 
 
C+: O documentário Império do Imediato pode ajudar você a entender melhor esse fenômeno. São 18 minutos muito bem aproveitados.
Autor: Wendel - Publicado em: 01/04/2013 - Fonte: