Bastidores da República

O jornalista Laurentino Gomes contextualiza a data de 15 de novembro
Rogério Chimello
Sob grande expectativa, o jornalista Laurentino Gomes finalmente lança 1889, o último capítulo da trilogia sobre a história do Brasil no século 19. Os dois primeiros episódios – 1808 e 1822 – instigaram o interesse do leitor sobre o impacto da vinda da família real portuguesa ao país e os bastidores do 7 de setembro. Agora, depois de pesquisar 150 obras, o escritor se volta para o processo que culminou na proclamação da República e seus consequentes desdobramentos. Veja os melhores momentos da conversa que tivemos com ele.
 

Qual é o grande furo de reportagem de 1889?

Acho que é a constatação de que a República se impôs mais pela fragilidade do Império do que pela força de seus ideais. Isso revela fatos jogados à sombra. D. Pedro II, um grande intelectual, possuía alma republicana e sabia que a mudança de regime era inevitável. Em carta à condessa de Barral, ele revela que preferia ser presidente e, quando viajava para o exterior, carregava a própria bagagem e gostava de ser chamado de Pedro de Alcântara e não de imperador. Já o marechal Deodoro da Fonseca tinha pouca formação intelectual e dizia que república e desgraça no Brasil eram a mesma coisa.
 

Se Deodoro era defensor do Império, o que o motivou a aderir à República?

O grande mentor intelectual do movimento foi o militar Benjamim Constant, mas Deodoro era o único que tinha condições de assumir a liderança, por sua posição de veterano de guerra. Conhecido por não “levar desaforo pra casa”, ele também teve motivos de ciúme.
 

É a tal intriga de amor com a baronesa de Triunfo?

Isso mesmo. Ele e o senador Gaspar Silveira Martins disputavam o coração da viúva Maria Adelaide de Andrade Neves, a baronesa, mas o rival levou a melhor. Monarquista até então, Deodoro mudou de lado quando o imperador nomeou o inimigo como presidente da província sulista. A gota d’água aconteceu na madrugada de 16 de novembro, quando D. Pedro II chamou o senador para compor o ministério no lugar do Visconde de Ouro Preto, destituído pelo próprio Deodoro na noite anterior. Foi só aí que ele proclamou efetivamente a República, não no dia 15. Uma curiosidade: como era idoso e doente, o marechal montou o cavalo mais manso do exército, imediatamente aposentado por bons serviços prestados à República.
 

Os ideais da República se mantiveram após a proclamação ou logo se perderam?

Esse foi outro aspecto que me surpreendeu. A mitologia republicana fala sobre um passeio militar nas ruas do Rio de Janeiro, sem resistência. Mas ofusca que correu muito sangue nos dez anos seguintes. Também houve um descolamento entre discurso e prática. Os republicanos defendiam ideais civis, como liberdade de imprensa, estado laico, ampliação do direito de voto, educação para todos... Nas ruas, porém, a República se configurou como um golpe militar, preocupado em afastar o povo analfabeto das decisões. Rapidamente, se transformou em uma ditadura, com a posse do marechal Floriano Peixoto, em 1891, que se impõe a ferro e fogo e fuzilou 180 inimigos em Florianópolis [a cidade tem esse nome justamente por causa dele]. Sem falar nas 12 mil vítimas da Revolução Federalista (RS) e conflitos como a Guerra de Canudos (BA) e a Revolta da Armada (RJ).
 

Quando o Brasil, como República, finalmente entrou nos eixos?

O poder chegou às mãos dos civis com Prudente de Morais, em 1894, mas com política muito parecida com a do fim do Império: o presidente é um representante da aristocracia rural que apoia seu poder nos barões do café, a antiga nobreza. É uma República tutelada, de cima para baixo, que exclui a população de suas decisões. Isso se manteve mais ou menos assim até recentemente. Há uma segunda proclamação da República em 1984, com o movimento Diretas Já, e só em 1993, ocorreu o plebiscito planejado por Constant para o povo decidir se queria um regime republicano, monarquista ou parlamentarista.
 

Os fatos relatados em sua trilogia ecoam na estrutura do Brasil de hoje?

Sim, todas as nossas características atuais estão refletidas no século 19, como a estrutura do estado centralizado, permeável pelos pactos de poder e a corrupção. Problemas como a não incorporação dos escravos na sociedade civil, falta de educação e má distribuição de riqueza são empurrados com a barriga ao longo de mais de dois séculos. Mais que os dois livros anteriores, 1889 contribui para a reflexão de como o Brasil chegou até aqui e como podemos nos organizar para avançar. 
 

Para saber mais

1889 (Globo, 2013), 416 páginas, R$ 44,90
Autor: Fernando Torres - Publicado em: 03/10/2013 - Fonte: