Pastor no meio de lobos

O capelão do Senado dos Estados Unidos explica como concilia religião e política
Rogério Chimello

Há mais de 200 anos, todas as seções do Senado norte-americano são abertas com uma oração. E, desde 7 de julho de 2003, elas são feitas pelo contra-almirante e pastor adventista Barry C. Black, 62º a ocupar o posto de capelão. Black, que tem 65 anos e serviu a Marinha por 27, tem como missão dar apoio espiritual e moral para 6 mil pessoas, incluindo os cem senadores, os funcionários da instituição e seus familiares. Para tanto, seu gabinete é apartidário e não sectário. Black tem dois doutorados: um em Ministério e outro em Psicologia. Já foi condecorado pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), por sua contribuição para a igualdade de direitos civis e, no fim de 2013, seus discursos foram destacados pela imprensa americana. Ele apelou para que os senadores deixassem o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia. Assim como em seus sermões, nesta entrevista Black vai ao ponto.

Você teve uma infância pobre e sofrida nos guetos de Baltimore. Como explica seu êxito?

Eu atribuo meu sucesso pessoal e profissional ao conhecimento da Palavra de Deus, ao esforço para fazer Sua vontade e à confiança em Sua condução providencial.

Como foi sua experiência de três meses como missionário na amazônia peruana, no fim dos anos 60?

Conheci ali um casal de missionários que demonstrou tanta afetividade e o incondicional amor de Deus, que minha ideia de cristianismo mudou. A maioria dos cristãos que tinha conhecido antes não praticava o que ensinava, mas Sigfried e Evelyn Neuendorff sim.

As orações que abrem as seções do Senado têm importância prática ou são apenas formalismo?

A oração é algo prático porque funciona. Tiago 4:3 diz: “Pedis, e não recebeis, porque pedis mal.” Orar antes de cada sessão me permite ter as primeiras palavras que moldarão a agenda de nossos legisladores.

O Senado tem honrado a histórica separação entre Igreja e Estado, mas não a separação entre Deus e o Estado. Qual seria a diferença?

A separação entre o Estado e a Igreja é a garantia de que nenhuma religião será estabelecida pelo governo. Muitos dos fundadores dos Estados Unidos vieram para cá para fugir da perseguição do Estado. Sem a separação entre Igreja e Estado, o governo pode ser tentado a forçar a observância religiosa, como o Império Romano fez muitos anos atrás. Porém, a noção de Deus e Estado tem a ver com o desejo de ter fatores espirituais impactando o governo.

Como é ser um líder espiritual em meio a um mar de interesses políticos e econômicos?

Olho para a comunidade do Senado como minha congregação. Sou o pastor deles. Como qualquer líder de igreja, você entra em águas agitadas e deve navegar através delas, com a orientação do Senhor. Eu me preparo para isso permanecendo na Palavra. Além da leitura da Bíblia, a oração me permite ficar em constante comunhão com Deus. Escrevo os devocionais em minha cabeça durante minha corrida matinal ou indo para o trabalho.

Durante a paralisação do Senado, você repreendeu os políticos. Seu puxão de orelha foi destaque no jornal The New York Times do dia 7 de outubro do ano passado. Seus discursos já lhe trouxeram problemas?

Eles não têm causado qualquer problema. Nossos senadores são dedicados em decidir o melhor para o curso de nossa nação. Eu interajo regularmente com eles em um café da manhã de oração. Se estivesse falando sobre o poder das palavras, lhes diria que elas têm consequências. Provérbios 18:21 diz que o poder da vida e da morte está na língua. Também lhes diria que a forma como você diz algo pode ser tão importante quanto o que você diz. Provérbios 15:1 diz que uma resposta branda desvia o furor. Assim, eu os incentivaria a ser responsáveis por suas palavras.

A Bíblia tem respostas para a política?

Ela não aborda todos os dilemas políticos, mas provê princípios que nos permitem responder a eles.

Que conselhos daria a um cristão que deseja ser político?

Saiba o que você crê e por que você crê. Entenda que, de acordo com Romanos 13, a política pode ser um chamado divino.

Autor: Márcio Basso - Publicado em: 03/04/2014 - Fonte: