A proteção da fé

As drogas estão cada mais disponíveis e a propaganda pró-consumo ganha força. Mas o que pode proteger você desse discurso incoerente é a religião. Saiba por quê
Rogério Chimello

Mário Augusto Pinheiro, tem 49 anos e uma tarefa que poucos gostariam de encarar. Ele dirige uma clínica de recuperação que atende 40 usuários de drogas de 13 a 17 anos com histórico criminal, em Cosmópolis, SP. “O adolescente é mais desacreditado. É mais difícil recuperá-lo porque ele ainda não viveu nada. O usuário adulto já sofreu tudo, já bateu na mulher, foi preso e perdeu a família. O adolescente ainda vive a ilusão do traficante, de ter moto e namorada”, justifica.

Mário fala com a propriedade de quem já passou por isso. Sua história é o pano de fundo do videodocumentário Independência ou morte, produzido por quatro alunos de Jornalismo do Unasp como trabalho de conclusão de curso. Aos 15 anos, por curiosidade e carência, ele passou a usar maconha, migrou para a cocaína e se afundou no crack. Mário também abandonou a esposa e os dois filhos. Morou na rua, comeu lixo, pediu dinheiro, levou tratamento de choque numa clínica psiquiátrica e chegou a ameaçar de morte os próprios pais.

Ele só retomou o juízo e a liberdade, depois de ficar internado por cinco meses em uma clínica na cidade paulista de Limeira, em 1996. De lá para cá, ele tem reestruturado a vida. Fez alguns cursos de neurolinguística, terminou a faculdade de Letras, construiu uma nova família e tem procurado se aproximar dos filhos mais velhos e da ex-esposa. O relacionamento com os pais foi restaurado, mas as sequelas ficam: seu filho mais velho tem histórico de drogas e a filha publicitária tem problemas com álcool.

“Se eu ficar carregando meu passado, eu volto a usar drogas, porque o fardo é muito pesado. Quando olho para trás, vejo um rastro de destruição, mas prefiro olhar para a frente”, desabafa. Desde que ficou limpo, Mário tem encontrado suporte na religião. Assim que voltou a ficar sóbrio, passou a pesquisar sobre várias tradições, do budismo à Reforma protestante, mas ele diz ser católico.

Para Mário, o importante é se apegar a um Ser superior, independemente da confissão religiosa. É esse princípio que ele procura transmitir para os adolescentes que passam em média seis meses internados na Casa Dia. O desenvolvimento da espiritualidade é um dos principais recursos utilizados por sua equipe. Segundo Mário, a religião é fundamental para recuperar usuários, mas também para prevenir que jovens experimentem as drogas e se tornem dependentes.

A opinião dele não tem base apenas em sua experiência pessoal e profissional. Inúmeros estudos científicos têm mostrado a relação entre fé e a proteção contra as drogas. Mas o que esses estudos apontam? Por que a religião inibe a experimentação? Como sua fé pode protegê-lo de recorrer às muletas psicotrópicas? E como sua igreja ou grupo de amigos religiosos podem ajudar dependentes químicos?

Valores que protegem

Segundo o Handbook of Religion and Health, que tem como um dos autores o maior estudioso do tema no mundo, Dr. Harold Koenig, dos mais de 850 estudos realizados na década de 2000, 81% apresentaram uma relação positiva entre religiosidade e o controle das drogas.

Os outros 19% que apontaram resultados contrários, não mostraram nenhuma relação entre fé e prevenção nem se referiam a grupos de entrevistados que consideravam a religião com fanatismo ou tradicionalismo opressivo. Nesses casos, a religião era um fator estressor e gerador de culpa. Ou seja, mais atrapalhava do que ajudava.
Entre os benefícios da religiosidade apontados pelo pesquisador da Universidade de Duke (EUA), estão o efeito estabilizante da meditação e o redutor de ansiedade das orações e penitências; o estímulo constante para a transformação, que serve de suporte para o tratamento; e a formação de uma rede de apoio que não usa drogas, talvez o fator mais importante de todos.

“A religiosidade funciona como um importante modulador no uso de drogas, porque incute valores morais que têm por fim o respeito e a preservação da vida. O religioso cristão crê na existência de um Deus cujas leis visam sempre ao seu bem-estar”, explica a enfermeira Gina Andrade Abdala, doutoranda em Ciências pela USP, ao informar e comentar os dados do Handbook of Religion and Health.

O interesse pelo tema levou a enfermeira a estudar, com mais três pesquisadores, um grupo de 232 universitários da Faculdade Adventista da Bahia. Dos entrevistados, 92% professavam uma religião e 74% eram adventistas. O estudo mostrou que para 81% deles a religião tinha forte relação com a abstinência de drogas e 90% acreditavam que as práticas religiosas ajudavam na redução e abandono delas.

Gina tem aprofundado seus estudos nessa área. Ela lidera um grupo de pesquisa no mestrado em Promoção da Saúde no Unasp, no qual se debate a implantação de oficinas de espiritualidade para hipertensos e dependentes químicos. Porém, ela faz questão de destacar que a religiosidade como fator de proteção vem acompanhada de bom relacionamento com os pais, de uma rede de amigos que não usam drogas, da prática de esportes e do engajamento nos estudos e em atividades extracurriculares.

Idade, fator de risco

Segundo os especialistas, existem alguns fatores de risco para o uso de drogas que estão relacionados às questões socioambientais. “A idade é um fator de risco, porque o jovem tem dificuldade de controlar seus impulsos”, afirma a psicóloga Dra. Clarice Sandi Madruga, pesquisadora da Unifesp e coordenadora do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad). Clarice informa que os jovens, os homens e aqueles que vivem em ambientes de vulnerabilidade social e têm histórico familiar de uso de drogas são os mais propensos à experimentação e à dependência.

A pesquisadora define drogas como qualquer substância psicotrópica utilizada para alterar a consciência. “Isso inclui os fármacos, as drogas ilícitas e as lícitas de uso recreativo”, classifica. Para Clarice, o uso de drogas faz parte da curiosidade humana. Um hábito milenar que em várias culturas é tolerado e incentivado. “Muitos usam drogas como café, fumo e álcool”, exemplifica a psicóloga para mostrar como nossa sociedade considera inofensivas algumas dessas substâncias.

A curiosidade instigada pelos amigos e familiares costuma ser a motivação para a experimentação entre os jovens. “Aqui na chácara, costumamos trabalhar com o que chamo de grupo de ação positiva. De 40 dependentes, eu preciso ter mais da metade que esteja comprometida com o tratamento, do contrário, não se consegue arrastar o grupo para a recuperação”, argumenta Mário.

Ele entende que todo adolescente sofre pressão de grupo, positiva ou negativa, dependendo com quem ele anda. “Se quem experimentar tiver o fator X, a predisposição química para o vício, a coisa pode complicar”, alerta.

Medo x informação

Clarice acredita que a “pedagogia do medo” não seja a melhor alternativa de conscientização sobre os riscos das drogas. Ela defende que a abordagem com os jovens deve ter como base os fatos e não os mitos. “Um erro da mídia é dar tanta atenção ao crack, sendo que apenas 1% dos brasileiros o consomem. Mais ênfase deveria ser dada ao álcool, por exemplo”, critica a psicóloga. Para a pesquisadora, a massiva propaganda sobre o álcool e o vínculo do produto com o futebol é tolerado porque as cervejarias estão entre os grandes anunciantes na mídia.

Ela também revela que o cigarro é uma das drogas mais difíceis de se abandonar, porque é fumada. Clarice explica que o efeito imediato do entorpecente no organismo está relacionado ao seu potencial de dependência e à forma de consumo. Portanto, as drogas de efeito mais rápido são as administradas por injeção (heroína), fumo (tabaco, maconha e crack) e ingestão (álcool). Logo, o álcool é a droga mais consumida, mas a que mais tempo demora para gerar dependência; enquanto que o crack se mostra mais devastador, levando em pouco tempo muitos de seus usuários a abandonar a família e a morar na rua.

A pesquisadora chama a atenção também para dois dados que surpreenderam na segunda edição do Lenad. O primeiro é o índice de usuários de maconha que se tornaram dependentes da erva: 36% dos que consomem. Segundo Clarice, esse número deve pesar nas discussões sobre a legalização da droga no Brasil.

Outra tendência que preocupa é o consumo abusivo de álcool, o chamado binge drinking, caracterizado pela ingestão de quatro unidades de bebida no intervalo de apenas duas horas. Esse comportamento tem crescido mais entre as mulheres, inclusive entre as adolescentes.

Estatísticas como essas apenas confirmam que conversar sobre drogas nas famílias, escolas e igrejas é cada vez mais necessário. Um diálogo que, segundo os especialistas, não deve ser marcado por ameaças e acusações, mas por informação segura, aceitação e apoio que gere proteção e libertação.

Talvez, o caminho seja admitir que, num primeiro momento, as drogas potencializam o prazer, estimulam, relaxam e diminuem a ansiedade, mas o custo de tudo isso parece não compensar. “Existem mil outras formas de reduzir a ansiedade”, aconselha Clarice, citando os esportes, uma boa rede de amigos e a religião. “Dependendo da droga, não há recuperação”, adverte a psicóloga.

Rede de apoio

A recuperação pode ser mais fácil e rápida se contar com a ajuda que vem de cima. “Além de promover um estilo de vida mais saudável, as crenças espirituais ajudam na adesão ao tratamento”, pontua Gina Abdala. De acordo com a enfermeira, nesses casos, o maior compromisso do usuário com o tratamento se deve ao fato de que os religiosos apresentam menores índices de depressão, mais esperança quanto ao futuro e contam com uma rede de apoio comprometida.

Oferecer esse suporte espiritual e social em cada cidade onde há uma congregação adventista é o sonho de Kátia Reinert, enfermeira que há três anos lidera o Ministério da Saúde da Igreja Adventista na América do Norte. “Estamos agora treinando pessoas para que isso aconteça. Já temos dezenas de igrejas inseridas no programa, porém ainda há muito o que fazer”, avalia Kátia, que estuda a relação entre espiritualidade e saúde no curso de Ph.D da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Kátia explica que o ministério Adventist Recovery (adventistrecovery.org) começou há vários anos por iniciativa de um ex-alcoólatra, mas só recentemente ganhou suporte institucional. “As reuniões funcionam como um grupo de apoio, e não como uma terapia ou intervenção. O objetivo é que as pessoas se sintam à vontade e sejam acolhidas por outras que estão no mesmo processo de reabilitacão. Os casos mais sérios são encaminhados para centros de tratamento”, descreve a enfermeira.

A abordagem do ministério é semelhante ao método dos 12 passos usados há décadas pelos Alcoólicos Anônimos, com a diferença que o Ser superior é apresentado ali como Jesus e a metodologia está relacionada com o processo de desenvolvimento da espiritualidade descrito no livro Caminho a Cristo, de Ellen G. White, pioneira adventista.
Kátia informa que a proposta do trabalho é ajudar qualquer tipo de dependente, seja de drogas, pornografia, jogo ou consumo. É por isso que o ministério desenvolveu, em parceria com o Hope Channel, uma série de 26 entrevistas com especialistas e pessoas que lutam contra vários tipos de dependência.

A enfermeira diz que o trabalho ainda não apresenta números expressivos porque foi implementado há apenas dois anos em nível nacional, mas que as primeiras histórias de recuperação já estão aparecendo. “O método dos 12 passos tem apresentado bons resultados, com estudos comprovados cientificamente. Ele é reconhecido como um dos mais bem-sucedidos caminhos para manter os dependentes sóbrios por mais tempo”, argumenta.

Ciência e religião

Na recuperação de dependentes químicos, o casamento entre ciência e religião também se mostra benéfico. Por isso, as abordagens com base na espiritualidade não podem deixar de contar com um atendimento multidisciplinar, com profissionais de saúde que tenham conhecimento técnico. Afinal, em muitas situações, o grupo religioso de autoajuda não dá conta da complexidade do caso.

É nesse ponto que pode entrar em cena um serviço público oferecido pelo Sistema Único de Saúde. Criado pelo Ministério da Saúde, em 2002, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) têm o objetivo de humanizar o atendimento e potencializar a recuperação de doentes mentais e dependentes químicos. A abordagem é multiprofissional e gratuita.

Para tanto, os mais de 1.700 CAPS espalhados pelo Brasil (saude.gov.br) contam com psiquiatra, psicólogo, enfermeira e terapeuta ocupacional, além da equipe de apoio. No CAPS de Boituva, cidade paulista com 50 mil habitantes, 95 pessoas estão em tratamento. Entre os dependentes, a maioria são homens adultos. Porém, a idade dos pacientes varia dos 13 aos 60 anos.

Assim que procuram o serviço público, os usuários são encaminhados para o cadastro e uma entrevista com o psicólogo. Na sequência, já são agendados horários com o médico psiquiatra e a terapeuta ocupacional. Em seguida, os casos novos são discutidos com a equipe multidisciplinar, que elabora um plano terapêutico individual. Esse programa prevê a frequência das consultas, terapias em grupo e atividades manuais ou lúdicas que o paciente terá de cumprir.

“Quando o dependente falta mais de três vezes, nós vamos até a casa dele. Caso ele desista do tratamento, o prontuário dele é arquivado e retornamos o contato depois de dois meses”, explica a enfermeira Elienai Gama, que atende na unidade de Boituva. Ela informa que o apoio da família é fundamental nesse processo. Por isso, todo o tratamento precisa ser acompanhado pelos parentes. “Nosso objetivo é tornar a reinserção a mais natural possível. Muitos ficam depressivos porque precisam romper com os antigos amigos. Alguns só tinham vínculos sociais no bar”, exemplifica a enfermeira.

Segundo Elienai, o tratamento dura no mínimo seis meses. Nos casos mais graves, as internações voluntárias ou compulsórias são solicitadas. Quando o paciente tem um histórico de pertencimento a uma igreja, os profissionais estimulam seu retorno à comunidade, porque entendem que os irmãos de fé servem de rede de apoio. Nas oficinas do CAPS, os usuários também podem aprender ou reaprender valores como autocuidado, perseverança e paciência. Além disso, alguns cursos proporcionam também geração de renda.

Decisão consciente

Trabalhar com dependentes químicos exige muito dos profissionais envolvidos. O tratamento é longo, as recaídas são frequentes e o avanço é gradativo. Mais desafiador ainda é ajudar mulheres e jovens. Elas, porque têm vergonha e eles, porque ainda são inconsequentes. Quem atua no CAPS tem também que encarar o assédio de traficantes e o risco de lidar com criminosos. Diante de tantos desafios, o que estimula esses profissionais? “É maravilhoso ver os pacientes tendo alta. É isso que nos mantêm aqui”, Elienai revela a motivação da equipe.

Objetivo semelhante tem esta reportagem: ajudar a libertar quem está abusando das drogas ou preso a elas, e alertar aqueles que nunca as usaram, a não brincar com fogo. Afinal, se as drogas são substâncias que alteram a consciência, o caminho mais consciente parece ser ficar longe delas. E a motivação para isso pode ser encontrada na religião, que oferece sentido para a existência e um estilo de vida com fontes alternativas e melhores de prazer.

Idade perigosa

Mais impulsivos, curiosos e menos responsáveis. Essas marcas da juventude pesam na hora de experimentar drogas. O índice de universitários e estudantes do ensino fundamental e médio que já usaram entorpecentes é maior do que a média da população geral. E se esses jovens vivem num contexto vulnerável como as ruas, o consumo é ainda mais alto.

13,8% dos alunos do ensino fundamental e médio já usaram solventes, mais do que o dobro da população geral.
26,1% dos universitários já experimentaram maconha, quase quatro vezes mais do que a média geral.
24,5% dos menores de rua já usaram cocaína, índice dez vezes maior do que o da população geral.
Fontes: Senad, Cebrid-Unifesp e Grea-Fmusp.

A viagem

As drogas psicoativas ou psicotrópicas são as que alteram o funcionamento do Sistema Nervoso Central, ou seja, o cérebro. Elas podem ter três tipos de efeito na consciência: deprimir, estimular e pertubar.

Depressoras: são sedativas ou hipnóticas. Podem ser usadas para fins médicos, a fim de induzir ao sono e anestesiar. O álcool também está nesta categoria.
Estimulantes: provocam agitação e insônia, como cocaína, anfetaminas, nicotina e cafeína.
Perturbadoras: causam delírios e alucinações, e alteram a percepção de tempo e espaço. Maconha, LSD e êxtase estão neste grupo.
Fonte: Material didático da 2ª edição do curso Fé na Prevenção (Senad/Unifesp).

VivaVoz

Informação e aconselhamento gratuito sobre prevenção e tratamento de drogas.
0800-5100015

O barato custa caro

Se as drogas trazem tantos prejuízos físicos e sociais, por que tanta gente as usa ou experimenta? A resposta está na dopamina, neurotransmissor responsável pelo prazer liberado pelo setor de recompensa do cérebro. Em resumo, as drogas são usadas para potencializar o prazer e diminuir as sensações desagradáveis. São muletas utilizadas para fugir dos problemas. O caminho mais seguro é encontrar prazer em outras coisas e encarar os desafios.

Proteja-se!

Boa autoestima
Prática religiosa
Respeito pela regras sociais

Bom relacionamento com a família
Limites dentro de casa
Monitoramento dos pais

Amigos não usuários
Comprometimento com os estudos
Frequência à igreja
Distância de pontos de venda e uso
Alternância entre trabalho e lazer
Fonte: Material didático da 2ª edição do curso Fé na Prevenção (Senad/Unifesp).

Para saber +

Independência ou morte (2013)

Autor: Wendel - Publicado em: 05/01/2014 - Fonte: