Além do voto

Não basta ir às urnas, é preciso participar da gestão pública. Saiba por que e como exercer sua cidadania
Carlos Seribelli
A cada dois anos, a política volta à pauta, e você, às urnas [texto publicado na edição de outubro de 2012]. Mas sua sensação, como a de muitos, é de que não há nada novo debaixo do sol? Ok. Você faz parte da maioria. É o que dizem o senso comum e as pesquisas. De 2006 para 2010, por exemplo, segundo o TSE, diminuiu em 28% o número de eleitores com menos de 18 anos, grupo que não tem a obrigação e, pelo jeito, o interesse de votar. A pesquisa Condutas Políticas, Valores e Voto dos Jovens Eleitores de Belo Horizonte, feita pela UFMG com 500 jovens, também em 2010, mostrou que 82% deles tinham pouco ou nenhum interesse pela política. 
 
Como explicar essa apatia? Ao que tudo indica, é o descrédito da geração atual no modelo político vigente, passível de muitas manobras e pouco representativo. Em outras palavras, os jovens não teriam perdido o idealismo, mas acreditam que o melhor jeito de canalizar sua força para a mudança é nas vias alternativas, mais horizontais, que não necessariamente passem por um caminho já institucionalizado. 
 
O problema é que boa parte dos insatisfeitos desconhece os processos básicos da política. Aí já viu, o sentimento que poderia gerar ação e mudança, acaba resultando em indiferença e alienação. Diante desse quadro, a Conexão 2.0 assume o partido de ajudar a romper com essa apatia política. Tomara que ao fim desta reportagem, você tenha vontade de mudar o mundo, a começar por sua cidade, nas eleições deste mês. 
 

Heróis e bandidos

A indiferença e aversão dos jovens pelo tema começa, talvez, pela demonização da figura do político. É o que defende o prefeito de Maringá, PR, Sílvio Magalhães Barros. “Os políticos só aparecem na imprensa quando fazem alguma coisa errada. Já os bombeiros, por exemplo, são retratados como heróis. Logo, a percepção das pessoas é que os bombeiros são gente boa, e os políticos, ruins”, analisa.  
 
Ele acredita que esse estereótipo está longe de refletir a realidade. Evidentemente, Sílvio Barros não nega a existência de corruptos e da corrupção, mas insiste que muitos homens públicos exercem seu cargo com seriedade. “Não basta querer ser político, é preciso vocação para servir”, resume o prefeito, que teve no pai, ex-prefeito e deputado federal, seu modelo de político. 
 

Modelo em crise

Mas não é só a imagem do político que está arranhada, existe um questionamento sobre o modelo democrático que temos, baseado em partidos e concebido no século 18. Quem engrossa o coro desse descontentamento é o advogado Marcos Vinícius de Campos. Ex-deputado federal e doutor em Direito Econômico pela USP, Marcos Vinícius atua na Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, uma ONG voltada para a promoção da cidadania e a formação de novas liderenças públicas. 
 
Segundo o professor universitário, são inúmeros os fatores para o desinteresse do brasileiro pela política, de institucionais à culturais. Em relação aos partidos, há descrédito por causa do descompromisso com uma ideologia, da inexistência de uma agenda de políticas públicas consistentes e da falta de estímulo à formação de novos líderes. Quanto aos políticos, há uma expectativa de que sejam mais éticos e prestem contas à população.
 
“O sistema político brasileiro está ultrapassado. E essa discussão precisa acontecer de forma urgente. Eu defendo a representação regional, ou o chamado voto distrital. Assim, haveria mais compromisso do candidato com a região que o elegeu”, argumenta o deputado estadual do Paraná, Artagão Mattos Leão Júnior, que diz prestar contas de suas ações diariamente no seu site, além de produzir uma newsletter semanal. Ele é defensor também do retorno de disciplinas sobre civismo ao currículo escolar para formar alunos mais conscientes. 
 

Cultura política

E é na baixa cultura política da sociedade, onde o sapato mais aperta. Para reverter esse quadro, na visão do ex-deputado Marcos Vinícius, é preciso mais do que investir na educação. É necessário fomentar a experimentação política. O raciocínio do advogado é simples: o processo democrático seria mais familiar para você, caso participasse de eleições e discussões de interesse coletivo. Experiências como formar a chapa do grêmio da escola, opinar na assembleia do condomínio e votar em referendos. 
 
“Quem não toma conta da parte, não se preocupa com o todo”, adverte Marcos Vinícius, explicando que existem outras vias de participação política, além da  partidária e eleitoral. “Qual é a crise da democracia representativa?”, ele pergunta e já responde em seguida: “É que o eleitor não pode vir só de vez em quando e votar. Ele precisa participar da gestão pública.” Para que essa mobilização aconteça, os nativos digitais já contam com uma ferramenta viral e gratuita, a web. Só resta saber se eles já descobriram aonde precisam chegar. 
 

Política e religião se discute

Para dizer que rumo os jovens devem seguir, não há nenhuma instituição melhor do que a igreja. É verdade que não cabe aos pastores, padres ou líderes indicar candidatos ou apoiar publicamente um partido, mas contribuir para a conscientização política de seus fiéis. “A capacidade de mobilização é intrínseca às igrejas. E elas podem trabalhar questões importantes no nível da consciência. Isso é muito sério e precisa ser feito em consonância com o evangelho,” defende o prefeito Sílvio Barros.  
 
“A omissão é a autorização para que aqueles que não estão fazendo um bom papel, continuem onde estão”, argumenta o deputado Artagão, em referência à apatia e indiferença de muitos grupos religiosos. “Algumas igrejas fazem um desserviço político. O trabalho social delas é louvável e reconhecido, mas é preciso trabalhar mais a reflexão política de seus membros”, completa. O deputado adverte que outro erro que as igrejas devem evitar é “vender” o apoio para um candidato em troca de forro, piso ou pintura do templo. 
 
“Como comunidade religiosa, temos algo a dizer na elaboração das leis”, exemplifica Marcos Vinícius. Para ele, a despolitização não faz sentido para igrejas que pregam um evangelho que tem contribuições a dar nas áreas de educação, assistência social, saúde e ensino de valores. Traduzindo, a esperança no mundo porvir não pode ser justificativa para se cruzar os braços hoje. 
 

Igreja e Estado

“As duas instituições [Igreja e Estado] foram estabelecidas por Deus, em esferas distintas. Ao Estado compete a manutenção da ordem social por meio do cumprimento das leis, o que envolve punição ou recompensa e, à Igreja cabe a transformação por meio do evangelho,” resume o professor de Teologia da Faculdade Adventista da Amazônia, Márcio Costa, que em seu doutorado estudou a relação entre a Igreja Adventista e o Estado. 
 
O professor Márcio complementa que o governo e a igreja partilham interesses, como o bem-estar da sociedade. Logo, a participação dos cristãos na esfera pública deve priorizar essa agenda comum. Os governos estão abertos a essa cooperação porque sabem da capilaridade social das igrejas, que chegam onde o poder público não alcança. Só falta os cristãos acordarem para as possibilidades missionárias das parcerias com o Estado. 
 
Agenda comum
“A Igreja e o poder público precisam indentificar uma agenda comum. Somar competências e capacidades, para minimizar suas limitações. Não vai dar para fazer tudo, mas é possível unir forças”, pontua o prefeito Sílvio Barros. Em Maringá, ele que é membro da Igreja Adventista, tem na denominação uma parceira para a realização de feiras de saúde e cursos antitabagistas.
 
Mensalmente, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade oferecem atendimento e orientação em medicina preventiva. Com a ajuda de fiéis, estudantes e profissionais voluntários, o evento leva até a população o conhecimento dos adventistas sobre estilo de vida saudável. É uma maneira da Igreja responder a uma demanda urgente no Brasil: a saúde pública. 
 

Deputado-estudante

Mudar nossa cultura de aversão e desconhecimento da política só é possível com a experimentação do processo democrático. Melhor ainda se isso acontecer num ambiente de aprendizado, como a escola e faculdade. Foi o que vivenciaram quatro alunos do Ensino Médio do Colégio Adventista de Jardim dos Estados, em Campo Grande, MS. Artur Zanelatto, Iuri Gutierrez, Gabriel Porto e Déborah Martim participaram do Projeto Parlamento Jovem da Assembleia Legislativa. 
 
Depois dos candidatos a deputado-estudante apresentarem projetos de lei na escola, seus colegas foram às urnas, numa eleição oficial organizada pelo TRE, para escolher os representantes do colégio. Apesar da desconfiança inicial dos alunos, tudo foi levado muito a sério. Artur tinha a proposta de estabelecer em Mato Grosso do Sul escolas técnicas estaduais, nos moldes das que existem em São Paulo. Déborah sugeriu uma lei que obriga o uso de fones de ouvido para quem escuta música no transporte público, assim como é feito em Porto Alegre.
 
Artur e Iuri exerceram a função até o início deste ano, quando Gabriel foi eleito o novo deputado pelo colégio, e Débora ficou como suplente. Os quatro passaram por uma semana de treinamento para entender como funciona a Assembleia Legislativa. Na proposta do Parlamento Jovem, cada estudante exerce o mandato por um ano, participa de uma reunião mensal com os demais 23 alunos eleitos por escolas públicas e sugere projetos sob a orientação de um deputado oficial. 
 

Outra visão

Os participantes do projeto têm coisas em comum. Gostam de ler e já se interessavam por política antes do projeto, apesar de conhecerem pouco sobre o tema. Gabriel diz que assiste ao horário político desde criança, sonhava em ser prefeito e costuma ler os clássicos da literatura, além de jornais e revistas. Déborah sempre acompanhou os pais nas eleições e se despertou para a importância da política nas aulas de História. 
 
O que o grupo também compartilha é uma nova visão sobre o poder público, menos estereotipada e superficial. Gabriel diz que agora se interessa muito mais pela política: “Vi a diferença entre a política, organização social, e a politicagem, o jogo sujo.” Débora também se surpreendeu com a postura de muitos deputados: “Tinha gente que defendia apaixonadamente uma causa, gente bem-intencionada.” 
 
“Na mídia, todos os políticos estão envolvidos com a corrupção. Mas a visão muda quando se tem acesso ao outro lado da história. Têm exceções que fazem a coisa valer”, garante Artur. “Para a maioria, política é coisa chata, votar não faz diferença e todo político é corrupto. Só não fazemos ideia do quanto as gerações anteriores lutaram pelo voto”, lamenta Déborah, com a vontade de quem pretende ajudar outros a ver o que ela enxergou. 
 

Simulação

A partir deste ano, os alunos de Jornalismo e Publicidade do Unasp, campus Engenheiro Coelho, também passarão a olhar os bastidores da política com outros olhos. Durante uma semana, na chamada Jornada de Comunicação, eles simularam uma campanha eleitoral municipal. De um lado, os publicitários planejaram o marketing dos candidatos fictícios e, do outro, jornalistas fizeram a cobertura da campanha através de jornais online
 
Na atividade, o objetivo era treinar as técnicas da profissão e conhecer melhor as ideologias partidárias, a legislação eleitoral e os trâmites de um processo que envolve dinheiro, carisma e ataques ao adversário. O aluno de Jornalismo e Direito, Lucas Rocha, diz ter crescido com a experiência. Natural de Brasília, onde se concentram os parlamentares, ele sempre acompanhou o caderno de política dos jornais, apesar de ter preferência pela seção de esportes. 
 
Lucas conta que boa parte dos seus colegas se sentiu desconfortável com a escolha do tema da jornada deste ano, por não terem familiaridade com o assunto. “Muita gente acha a política irrelevante, mas ela pode mudar muita coisa”, afirma. Segundo ele, na tarefa da faculdade, o mais difícil foi achar um candidato que representasse bem a ideologia dos partidos fictícios. Já na política de verdade, Lucas acredita que poucos partidos e candidatos entendem os ideias dos jovens, talvez, somente os da causa verde. 
 

Nos próximos dois anos

Jovens e experiências como as mencionadas nesta reportagem ainda são exceção, mas podem inspirar outros e outras. O caminho é certo: fomentar a cultura política nas escolas, faculdades, condomínios, associação de moradores, ONGs e igrejas. Conhecer melhor o processo, a legislação e as ideologias. Repensar os esterótipos e atuar diretamente em vias alternativas, mais horizontais e colaborativas. Dessa forma, não vamos precisar voltar a discutir a responsabilidade política do cristão apenas daqui dois anos.
Autor: Wendel - Publicado em: 18/06/2013 - Fonte: