Jesus sim, igreja não

Como sua geração pode responder ao grito pós-moderno de uma espiritualidade sem igreja
Carlos Seribelli
No fim de 2007, minha esposa Angela passou por uma situação que só não foi mais engraçada porque retrata uma realidade desafiadora. Na época, éramos namorados e a confirmação de um convite para eu trabalhar como capelão de um colégio em Curitiba, “caiu do Céu”. Depois de um ano namorando a distância, poderíamos ficar mais tempo juntos e planejar o casamento.

Ela, que trabalhava há cinco anos numa multinacional, comentou com uma colega da empresa que eu havia conseguido emprego na capital paranaense. A amiga, sabendo que eu havia cursado Jornalismo e Teologia, perguntou para a Angela em qual área eu trabalharia. Minha esposa respondeu que atuaria como pastor. Foi então que a colega completou, com a maior naturalidade: “Ah é melhor mesmo, porque hoje em dia mexer com esse negócio de igreja dá mais dinheiro do que trabalhar com comunicação.”
 

Minha esposa estava falando da alegria de Deus ter confirmado nosso chamado para uma missão, porém, sua colega opinou baseada no rótulo que tem de pastor como oportunista e de igreja como um bom negócio. Você já deve ter passado por situação semelhante, em que ao comentar sobre algo essencialmente espiritual, percebe que o mesmo não faz nenhum sentido para outros.

Às vezes, tenho dificuldade de explicar a função de um pastor para amigos e familiares que não possuem formação religiosa e que só pisam numa igreja em dias de batizados, casamentos e funerais. Parece que há um abismo entre os cristãos e aqueles que se identificam como “sem-religião”. Essa separação fica clara na leitura de mundo e na linguagem distinta de ambos os grupos. 
 

Todo esse contexto faz parecer que tornar o evangelho eterno inteligível, em nosso tempo, será mais desafiador para nossa geração do que para as que nos antecederam. Por isso, nesta matéria, você poderá entender porque ocorreu esse divórcio entre igreja e sociedade, qual é o impacto disso no adventismo e como você pode tornar a pregação do evangelho relevante no século 21. 
 

Divórcio

Cada momento histórico vivido pela humanidade parece ser uma reação ao período anterior: de rejeição ao que foi ultravalorizado e de ultravalorização do que foi rejeitado. A Idade Média tinha a religião institucional como a força organizadora da sociedade, logo, a Modernidade, o período seguinte, foi caracterizado como uma reação a esse paradigma, colocando a racionalidade e a ciência como os responsáveis por produzir sentido para a vida. Começava aí o processo de secularização, que jogou a religião para “escanteio”, colocou a fé à margem da sociedade, como algo importante apenas na esfera da vida privada. 
 
A pós-modernidade, contexto em que vivemos, é uma reação a esses dois períodos: à religião institucional da Idade Média e à racionalidade e ciência da Modernidade. Isso não quer dizer que, em nossos dias, esses elementos não existam ou não tenham papel relevante, mas que lhes restaram papéis secundários.

A sociedade pós-moderna valoriza e se vale do conhecimento científico, especialmente quando esse gera tecnologia, conforto e progresso; no entanto, não acredita na utopia que vê na ciência a solução para todos os problemas da humanidade, inclusive os éticos.

Qual é a razão? O mundo pós-moderno carrega as cicatrizes de duas grandes guerras mundiais, cujo saldo de milhões de mortos deixou claro que os “milagres” das descobertas científicas, como o avião e a energia atômica, podem se virar contra o homem. 
 

No caso da religião tradicional, “por causa dos pecados históricos da Igreja Cristã e do testemunho de professos cristãos, os pós-modernos associam a instituição religiosa à intolerância, arrogância, prepotência e falsidade”.1 E, se já não bastasse esse passado vergonhoso, as manchetes sobre o cristianismo contemporâneo não ajudam muito: costumam associar catolicismo aos padrões morais “ultrapassados”, padres à pedofilia, pentecostais à alienação cultural e pastores evangélicos à falcatruas.

Por causa disso, o homem do século 21 prefere dizer que é espiritual em vez de religioso; que crê no sobrenatural em vez de professar alguma confissão ou se vincular a alguma denominação. Ele anseia encontrar sentido para a vida e acredita que a espiritualidade pode lhe trazer respostas, função que a racionalidade e a ciência já se mostraram ineficazes em cumprir, porém pensa que uma igreja tradicional é o último lugar em que poderá ter seu espírito satisfeito. 
 

Esse tipo de religiosidade é mais comum nos países ricos, em que o materialismo e o ensino secular exercem grande influência. E no caso dos países da Europa Ocidental, mais do que nos Estados Unidos, a indiferença para a religião institucional chega a assustar. Talvez exista uma razão histórica para isso: a rejeição às igrejas é maior onde a intolerância religiosa predominou. Lembre-se de que a Europa, mais do que qualquer outro continente, carrega as cicatrizes da Inquisição.

E o que dizer do Brasil? Enquanto não sai o resultado do Censo 2010, podemos ficar com a pesquisa de 2000: 9,3% dos brasileiros de 15 a 24 anos se identificaram como “sem-religião”. A maioria desse grupo não é formada por ateus e agnósticos, mas por pessoas que buscam a espiritualidade, sem o desejo de assumir um compromisso com alguma igreja.

 

Conservar e modernizar 

Diante desse panorama, como tornar relevante a mensagem adventista para um público biblicamente “analfabeto”? A resposta é dupla. A relevância da Igreja Adventista depende da fidelidade a sua identidade e da ousadia de seus métodos. Traduzindo: conservar doutrinas e modernizar as abordagens. Vale lembrar que uma denominação cuja escolha do nome completou 150 anos neste mês de outubro já lidou com muitas pressões externas e tensões internas. Por isso, confirmando a profecia, cumprirá com sua missão em nossos dias. 
 
A fidelidade da Igreja a sua identidade é o que justifica sua existência. A cultura pós-moderna pressiona os adventistas a pensar que sua igreja é apenas mais uma entre tantas, cujo caminho para se tornar relevante é não pregar crenças impopulares, mas cuidar dos pobres e aflitos e oferecer mera fuga para a alma. Em seu livro provocador, A visão apocalíptica e a neutralização do adventismo, o Dr. George Knight, especialista em história do adventismo, afirma que assumir essa postura é esterilizar a mensagem adventista. Ele acredita que o evangelho sempre esteve na contramão das tendências pecaminosas de seu tempo. O Sermão do Monte (Mt 5-7), pregado por Jesus, por exemplo, mostra que o cristianismo tem uma mensagem de reforma e não de assimilação cultural (p. 20). 
 
Para fortalecer seu argumento, o Dr. Knight se vale de dois estudos. O primeiro mostra que os fiéis tendem a valorizar igrejas que apresentam um caminho de sacrifício e não uma jornada religiosa light.2 O segundo revela que as denominações conservadoras na doutrina são as que mais crescem nos Estados Unidos, porque representam algo, têm uma mensagem de advertência e esperança para proclamar.3 Por isso, os adventistas não podem se calar quanto à revelação que receberam, pois cabe somente a nós cumprir com esse papel.
 
Quanto aos métodos evangelísticos, formato da adoração e modelos administrativos, não podemos deixar que o tradicionalismo baseado no gosto pessoal ou no saudosismo de alguns, e não em princípios bíblicos, “engesse” o avanço da igreja. Não é necessário pesquisar muito na Bíblia para perceber que Deus se revelou de diferentes formas em contextos distintos; que usou a linguagem de cada tempo para se fazer entender. Também fica claro que a Igreja Adventista mudou muito nos últimos 150 anos. De uma denominação organizada na zona rural americana, em 1863, com 3,5 mil membros e 125 congregações, para uma igreja com 16,3 milhões de fiéis em 206 países. 
 
Com o crescimento, vieram os desafios. Um dos principais é alcançar a mente urbana. Historicamente, os adventistas têm associado a vida nas cidades ao pecado, e há razão para isso; no entanto, desde 2008, mais de metade da população mundial vive nas zonas urbanas. Entender as necessidades dos moradores dessas regiões é facilitar que a mensagem da salvação chegue a mais da metade das pessoas a que fomos chamados a salvar. 
 
“Um bom teste para verificar a relevância da sua congregação para a sociedade é a pergunta: Se sua igreja fechar as portas hoje, a ausência dela será sentida e lamentada pela comunidade? Alguém, além dos membros, se importará? Creio que a maioria das pessoas responderia não, por isso, precisamos entrar, definitivamente, no século 21”, sugere o pastor Paulo Cândido, doutor em Teologia pela Andrews University (EUA) e pastor da Igreja do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo.
 
De modo geral, as igrejas que têm entendido o momento que vivemos, têm optado por cultos mais informais, simples, inspiradores e sem jargões denominacionais; têm repensado a funcionalidade de sua estrutura e incentivado a descoberta de dons e o exercício de ministérios específicos; têm usado de modo estratégico a comunicação em vídeo e pela internet; e têm realizado projetos sociais contínuos e bem focados na realidade da comunidade local.
 
Se ao fim dessa matéria, você tem mais perguntas do que respostas, esse artigo cumpriu sua função. O destino já conhecemos, apenas os próximos passos é que nos são desconhecidos. O futuro da igreja é certo: triunfo. Só teremos medo do amanhã, se esquecermos como Deus conduziu Seu povo no passado. No entanto, você e sua geração são chamados a vivenciar o que está reservado para a igreja: passar por um reavivamento e reforma e proclamar com poder o evangelho eterno. Como isso acontecerá? Seguindo o texto (escritos sagrados) e respondendo às necessidades do contexto (cultura de hoje). 
 

Notas

1 Entrevista do pastor Kleber Gonçalves para a revista Ministério jan-fev 2010, págs. 5-7. 
2 Roger Finke e Rodney Stark, The Churching of America, 1776-1990: Winner and Losers in Our Religious Economy (New Brunswick: Rutgers University Press, 1992). 
3 Dean M. Kelley, Why Conservative Churches Are Growing: A Study in Sociology of Religion (New York: Harper and Row, 1972). 
4 Entrevista do pastor Paulo Cândido para a Revista Adventista, setembro de 2009, p. 27. 
 

Quer “revolucionar” sua igreja?

Apesar de o crescimento da igreja ser um milagre de Deus, o homem tem papel nesse processo. Por isso, especialistas têm estudado por que algumas congregações crescem e outras não. Nessas pesquisas, alguns princípios foram descobertos. Eles podem servir para você avaliar a saúde espiritual da sua igreja e ajudá-la a ser revitalizada.
 
Liderança visionária. Os líderes conhecem e atendem as necessidades da igreja e da comunidade. São agentes de mudança, otimistas e geram entusiasmo. Não são extraordinários, mas estão dispostos a treinar seus liderados.
 
Ministérios de acordo com os dons. Os membros foram orientados a identificar seus talentos espirituais e a usá-los para atender uma necessidade da comunidade. A participação na igreja é determinada por um dom e não por uma função.
 
Espiritualidade contagiante. O testemunho pessoal é dado com ousadia. A verdade é pregada com a autoridade da verdade e não com a incerteza da mentira.
 
Prioridades bíblicas. A missão primária da igreja é pregar o evangelho e não atuar como agência social. E, para proclamar algo que faça diferença, a igreja precisa se manter fiel à Bíblia.
 
Estruturas funcionais. O modelo administrativo e as abordagens evangelísticas não devem ser engessadas por causa de mero tradicionalismo, mas adequadas para cada contexto. 
 
Culto inspirador. A adoração precisa ser preparada com antecedência, simplicidade, excelência e numa linguagem acessível a todos os adoradores, de modo a proporcionar uma experiência real dos fiéis com Deus. 
 
Pequenos grupos. A proposta de dividir a congregação em células tem sido fortemente incentivada pela Igreja na América do Sul. Isso favorece o senso de comunidade e o evangelismo baseado nos relacionamentos. 
 
Amizade. O recém-converso deveria fazer pelos menos sete amigos nos seus primeiros seis meses na igreja. A amizade evita a apostasia e resgata os afastados. 
 
Discipulado. Corrige o conceito de membro como passivo, envolvendo o fiel na missão, no treinamento de outros e no plantio de igrejas. 
 
Valorização dos grupos humanos. Quanto menos barreiras culturais e linguísticas, raciais e de classe a pessoa tiver que transpor, mais facilmente se tornará adventista. 
 
Fonte: Daniel Rode, “Por que algumas igrejas crescem e outras não?”, Diálogo Universitário, n. 1, 2001, págs. 12-14.  
Autor: Wendel - Publicado em: 14/10/2013 - Fonte: