Missão no campus

Conheça os projetos missionários que têm dado certo nas universidades seculares e entenda como você pode ser usado por Deus na faculdade
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Símbolo de status, chance de bom emprego e vida melhor, cursar o ensino superior já é realidade para mais de cinco milhões de brasileiros. A explosão universitária fez com que nunca tivéssemos tantos colegas de faculdade como agora. Só para se ter uma ideia, de 1994 a 2009, o número de instituições de ensino superior saltou de 851 para 2.282 e, no mesmo período, o número de alunos triplicou.1 Hoje 15% dos brasileiros com idade universitária estão na faculdade. 
 
Dois fatores importantes para esse boom do ensino superior foram o aumento da oferta de vagas – as faculdades particulares representam 70% desse mercado – além da baixa do preço das mensalidades, em média 31% nos últimos dez anos. Na prática, isso significa que muitas famílias de baixa renda passaram a se orgulhar de ter seu primeiro membro com diploma universitário. Prova disso é que você conhece alguém com esse perfil, se não for um. 
 
Pegando carona nesse fenômeno socioeconômico, estão também, sem dúvida, os adventistas. Apesar de não existir um censo universitário da denominação no Brasil (208 mil adventistas têm entre 18 a 24 anos), a simples observação do aumento do número de estudantes nas igrejas de periferia das metrópoles e nas pequenas congregações do interior aponta para isso. 
 

Resistência e aceitação

Porém, mais do que conseguir um bom diploma universitário (o que no contexto competitivo de hoje é fundamental, mas não o suficiente), um bom emprego e estabilidade financeira, cada vez mais universitários adventistas têm entendido que seu ingresso na universidade não é fruto do acaso ou de simples mérito pessoal. Eles têm aprendido a olhar a universidade como um campo evangelístico, no qual foram colocados para ser missionários. Por isso, essa matéria quer ajudar aqueles que se sentem desafiados a testemunhar num dos ambientes mais hostis à religião tradicional. 
 
Em primeiro lugar, vale desmistificar a ideia de que universidade e religião são coisas inconciliáveis. Esse pensamento é fruto apenas da propaganda ideológica dos dois últimos séculos. A universidade, no modelo ocidental como a conhecemos, deve sua origem e desenvolvimento ao cristianismo, porque foi organizada, principalmente, para o estudo de teologia. No caso dos Estados Unidos, além de uma forte base religosa, as maiores universidades daquele país nasceram com propósito de formar missionários e pastores.2 
 
Ironicamente, hoje, esses mesmos centros de excelência de ensino atacam o cristianismo. A secularização do Ocidente tirou a educação das mãos das igrejas e as confiou ao Estado, criando um abismo entre universidade e religião, ciência e fé. Porém, a história mostra que a máxima “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Pv 9:10) é tão válida para o campus universitário como para o púlpito.
 
Outro ponto importante é que o teor ácido das pesquisas acadêmicas e das aulas ministradas por professores ateus militantes não representam, necessariamente, a resistência dos alunos à religião. Pelo menos é o que aponta o estudo feito por Jorge Cláudio Ribeiro no fim da década de 1990, com 1.032 estudantes da PUC-SP. A pesquisa, que procurou identificar o perfil da religiosidade dos universitários entrevistados, mostrou que, mesmo com o processo de secularização, “as instituições e tradições religiosas ainda se configuram como um estoque simbólico e ético socializador dos jovens”.3 
 
Mas isso não significa que os universitários vivam sua religião do modo “tradicional”. Ao contrário, o estudo constatou que há um “generalizado esvaziamento na prática ritual, na crença e na pertença religiosa”.4 Ribeiro chega a nomear esse comportamento de “sangria ritual”, ou seja, a rejeição de práticas religiosas que não “dialogam” com a modernidade ou que não se identificam com a opção pessoal do jovem.
 
“Essa nova religiosidade não implica crer num corpo de doutrinas, frequentar semanalmente um templo e adotar um estilo de vida que reflita a ideia religiosa abraçada. A própria compreensão de religiosidade tem uma dimensão puramente antropológica, cuja função é conferir ao jovem transcendência e sentido para a totalidade da existência”, sintetiza o professor Adolfo Suárez, doutor em Ciências da Religião e coordenador do ensino religioso universitário do Unasp, campus Engenheiro Coelho. Nesse contexto, a fé pode assumir a conotação de pensamento positivo, de confiança no próprio sucesso na vida, e os ritos religiosos podem ser substituídos por boas ações.
 

Luz no campus

O projeto Conexão Vertical, realizado em Belo Horizonte, é uma tentativa de responder a essa demanda. Atendendo um convite do pastor Antônio Pires, em 2008, Paulo Cândido de Oliveira, então pastor do distrito do Progresso, passou a ensinar conceitos de cosmovisão, missiologia e discipulado para um grupo de estudantes da UFMG que queria fazer a diferença no campus. Segundo Paulinho, como costuma ser chamado, os encontros ajudaram os estudantes a deixar de ver a igreja como um clube fechado, restrita a um prédio, e a entender que ela existe onde dois ou três estão reunidos em nome de Jesus (Mt 18:20). 
 
Um exercício aplicado ao grupo foi o de percepção da visão de mundo do outro. Paulinho pediu que cada estudante fizesse uma entrevista de sete perguntas com pessoas conhecidas e desconhecidas. O objetivo era procurar entender o pensamento alheio, aceitá-lo, ainda que discordando, a fim de apresentar um jeito melhor de ver a vida, a cosmivisão bíblica. O pastor lembra que a espiritualidade é uma característica natural ao ser humano e que todos a manifestam, das mais variadas formas. Sendo assim, cabe ao missionário identificar as pontes que podem ligar a pessoa à mensagem cristã. 
 
Marcos Filipe Guimarães Pinheiro acredita que essas discussões abriram os olhos do grupo para a necessidade de um evangelismo especializado, mais planejado e que desperdiçasse menos tempo e dinheiro. “Além disso, aprendi que é preciso diferenciar aspectos da tradição religiosa que não se aplicam a todas as culturas, das experiências reais de santificação fundamentadas na Bíblia”, resume seu aprendizado. Ele, que foi aluno da graduação e do mestrado em Educação Física da UFMG, hoje é professor substituto da mesma instituição e membro ativo do Conexão Vertical. 
 

Belo Horizonte 

Depois da orientação teórica e dos exercícios práticos, o grupo passou a aplicar os conceitos de comunidade (pequenos grupos), discipulado (amizade e orientação bíblica) e celebração (reuniões aos sábados no campus). No culto havia louvor acompanhado com instrumentos, mensagem musical, momento de interação e um sermão de tônica mais existencial”, descreve Paulinho. Devido a mudanças administrativas na associação local e sua transferência para São Paulo, o projeto não apresentou resultados mais concretos. No entanto, ele lembra que vários alunos passaram a frequentar as igrejas de Belo Horizonte e possivelmente alguns tenham sido batizados. 
 
Atualmente, Samuel Filipe Cardoso de Paula, aluno de Química e um dos remanescentes do início do projeto, tem ajudado a organizar as reuniões do Conexão Vertical no campus da Pampulha. O grupo tem se encontrado para discutir o tema da origem da vida, sob a orientação da professora Queila de Souza Garcia, que tem pós-doutorado em Ecofisiologia Vegetal, pela Universidade de Barcelona, na Espanha. 
 
Além de dirigir as discussões sobre criacionismo, ela oferece apoio espiritual ao grupo. Queila – que é casada com um professor evolucionista da UFMG – acredita que a soma de respeito para com os outros e a conduta coerente é a receita de um bom testemunho: “Nossa esperança, ética, responsabilidade e dedicação ao trabalho devem fazer a diferença. Se não nos destacarmos como profissionais competentes e distintos, nunca atingiremos as pessoas secularizadas.” 
 

São Paulo

Na maior universidade do Brasil, a USP, a mobilização dos alunos adventistas vem de longa data. Alguns dizem que as primeiras reuniões do Grupo de Estudantes Adventistas (GEA, como ficou conhecido) foram iniciadas no começo da década de 1980. Naquela época, o grupo participou de passeatas antitabagistas, organizou a apresentação de corais no campus e vendeu livros denominacionais na porta do refeitório. Fora da universidade, almoços de confraternização e acampamentos deram a tônica social do movimento. 
 
De lá para cá, muitas gerações de universitários abraçaram a causa. E a atual pode estar dando um passo que vai consolidar ainda mais esse ministério. Neste ano, o grupo passou a se reunir nos fins de semana num salão alugado no bairro do Butantã, próximo ao campus. Agora, a congregação é oficialmente reconhecida pela Associação Paulistana. Prova disso é que o pastor Alberto Nery foi escolhido para liderar espiritualmente os estudantes. Por experiência, Alberto sabe o que é estudar numa universidade não adventista. Ele é formado em Psicologia pelo Mackenzie. 
 
Segundo Alberto, os principais desafios do grupo são financeiros e de estrutura. Boa parte dos membros ainda depende economicamente dos pais. Mas isso não impede que eles testemunhem através de uma abordagem contextualizada. Os cultos de sábado começam mais tarde, porque vida de estudante não é fácil. A liturgia é simplificada e toda a adoração é realizada com as pessoas sentadas em círculo, para promover a interação e representar um dos lemas do grupo: igualdade entre todos. As tardes de sábado são dedicadas ao voluntariado e as noites de domingo aos treinamentos. 
 
Além de adquirir uma sede própria – que deve funcionar como espaço cultural e multiuso – o grupo pretende oferecer um cursinho pré-vestibular gratuito e palestras de alto nível acadêmico acompanhadas de coffee-break nos domingos à noite. Tudo isso no intuito de quebrar preconceitos e se aproximar de colegas e professores da universidade. Agora, acompanhando o grupo mais de perto, Alberto vê outras possibilidades evangelísticas: “Temos que trabalhar com algum projeto de sustentabilidade e de saúde. Hoje, só as religiões orientais têm uma abordagem holística, mas nossa mensagem de saúde é a única verdadeiramente integral.” Enquanto o grupo não se torna oficialmente uma congregação, os estudantes nomearam o projeto de Comunidade Adventista de Jovens Universitários (Caju). Cerca de 40 pessoas frequentam as reuniões de sábado. 
 

Estados Unidos

Filho da “segunda geração” do GEA da USP, Klebert Bezerra Feitosa, 39 anos, levou para o exterior sua experiência missionária no campus. Depois de participar de pequenos grupos, almoços de confraternização e acampamentos universitários no Brasil, Klebert pegou seu diploma de bacharel em Física e migrou para os Estados Unidos, onde cursou mestrado e doutorado na Universidade de Massachusetts. 
 
Lá, depois de vários anos de iniciativas sem muito resultado, com a orientação do pastor local e de um missiólogo, John McGhee, Klebert entendeu que era necessário estabelecer uma igreja no campus. A estratégia inicial foi oferecer palestras de alto nível acadêmico no sábado de manhã. O primeiro tema – sobre as similaridades entre o islamismo e o cristianismo – foi escolhido com quatro meses de antecedência e providencialmente apresentado no sábado posterior ao ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Os encontros dessa natureza foram evangelisticamente bem-sucedidos, mas inviáveis financeiramente, devido ao elevado custo do deslocamento dos palestrantes. 
 
Foi então que Klebert se deparou, como ele assim define, com os “conceitos revolucionários de evangelismo” de Brian McLaren. A partir daí, os programas foram simplificados, tornando-se mais interativos, criativos e cristocêntricos. Segundo Klebert, nos anos posteriores, foram feitos vários ajustes na abordagem, mas o segredo do grupo tem sido um princípio: “nunca tenha medo de fazer mudanças”. Nessa época, foram organizados também retiros, jantares temáticos, classes bíblicas às sextas-feiras à noite e um coral de sinais que interpretava músicas cristãs, com a participação de não adventistas. Hoje, Klebert, assim como sua esposa, são professores da James Madison University, na Virgínia (EUA). Eles mudaram de campus, mas o trabalho com os universitários continua.
 
Klebert explica que nos últimos anos a Igreja Adventista nos Estados Unidos tem dado mais atenção evangelística aos campi seculares. Um exemplo disso é o ministério Campus (campushope.com), que com o apoio da Associação de Michigan promove um congresso anual de universitários com forte ênfase em reavivamento e missão. “Esse grupo, conhecido como Generation of Youth for Christ (gycweb.org), realizou um enorme congresso na virada do último ano em Baltimore, Maryland, com sete mil estudantes. Essa iniciativa tem usado a tecnologia das redes sociais para energizar a nova geração de jovens com o chamado e a missão da igreja. A resposta tem sido fabulosa e inúmeros ministérios têm sido formados em diversas partes do país”, descreve Klebert. 
 

Contextualização

“As grandes universidades são verdadeiras cidades. Têm hospital, sedes administrativas, linhas de ônibus e leis específicas. Além disso, os alunos de lá geralmente se dedicam muito aos estudos e vivem com intensidade a cultura do campus – Paulinho chama a atenção para o desafio missionário. Imersão na cultura do campus é o que experimentam principalmente os alunos de universidades públicas, que deixam sua cidade natal para “mergulhar” nos estudos, às vezes, em tempo integral. 
 
Foi assim com a engenheira elétrica Esloany Daisy Carniatto Delvecchi, 28 anos, de Cascavel, PR. Há quatro anos ela mora em Campinas, onde faz pós-graduação na Unicamp. A participação num GEA e o posterior acolhimento da Igreja Central da cidade foi o que facilitou sua adaptação. Ela diz ter encontrado no grupo amizade e apoio espiritual, ao compartilhar vitórias e derrotas com os que sabem o que é estudar num campus secular. 
 
Uma igreja que cumpre bem esse papel de acolher universitários adventistas de outras cidades é a congregação que se reúne há dez anos no campus da UFSC, em Florianópolis. Em 2001, um grupo de pessoas que moravam próximo a universidade decidiu sair da Igreja Central da cidade, para estabelecer uma igreja numa capela da UFSC – local reservado para aqueles que desejam organizar cerimônias religiosas de qualquer confissão.

Hoje, a congregação que conta com 65 pessoas (sendo 20 universitários), espera a aprovação da prefeitura para construir seu templo num terreno vizinho à universidade. Depois de utilizar vários espaços do campus, atualmente a igreja realiza seus cultos de sábado no Centro de Ciências Jurídicas e, às segunda-feiras, ao meio-dia, organiza um culto específico para os estudantes.

Fábio Scheffel, ex-aluno de Administração da UFSC e membro da igreja, diz que uma das abordagens evangelísticas utilizadas pela congregação é oferecer palestras sobre profecias bíblicas e antitabagistas na semana dedicada aos cursos de extensão da universidade. 
 

Como você pode perceber, as experiências e lugares podem ser diferentes, mas um dos princípios do evangelismo nos campi seculares é o da contextualização. E ninguém melhor para fazer isso do que os próprios estudantes, que conhecem as pessoas e a realidade em que vivem. E, quando essa iniciativa é acompanhada do apoio da associação e da orientação de um pastor “antenado”, a chance de o ministério frutificar e se consolidar é multiplicada.
 

O líder sul-americano dos jovens adventistas, pastor Areli Barbosa, reconhece que, devido ao grande número de universitários e ao aumento dos campi, nem sempre a Igreja consegue dar a assistência espiritual adequada a todos. Mas ele lembra que o Ministério Jovem tem investido na produção de alguns materiais para universitários e tem incentivado a organização de agremiações estudantis. Areli acredita que esse grupo, por sua formação diferenciada, pode dar uma contribuição especializada para a missão da igreja. “O mais importante é que cada jovem se conscientize de que pode fazer algo pelos universitários. É só comecar”, desafia o pastor. E aí, você topa?

Referências

1 Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (semesp.org.br). 
  1. 2 James Kennedy e Jerry Newcombe, E se Jesus não tivesse nascido? (São Paulo: Vida, 2003), p. 75 e 77.
3 Jorge Cláudio Ribeiro, “Os universitários e a transcendência – visão geral, visão local”. In: Rever, São Paulo, n. 2, 2004, p. 115. Disponível em www.pucsp.br/rever/rv2_2004/p_ribeiro.pdf
4 Ibid., p. 89. 
 

Agremiações

Em nível regional, uma das melhores maneiras de os universitários se organizarem para encontrar apoio espiritual e evangelizar é formando associações estudantis. No Brasil, existem 19 grupos desse tipo, que se reúnem para reivindicar seus direitos de liberdade religiosa, participar de projetos sociais, assistir a congressos e celebrar.

Uma das mais ativas é a AGUA (Agremiação Gaúcha de Universitários Adventistas – universitariogaucho.com.br), cujos projetos sociais como o Vida por Vidas (vidaporvidas.com) e Galera da Medula reconhecidos nacional e internacionalmente (galeradamedula.com.br).

Uma das agremiações mais novas é a Jumta, organizada em junho, que representa os estudantes de Cuiabá (cliquejovem.com.br). Para incentivar a formação de mais associações, a sede sul-americana da Igreja Adventista lançou neste ano um manual, e no segundo semestre deve colocar no ar o portal universitarios.org.br.

 

Projetos e materiais

A Igreja Adventista dedicou a edição deste ano do concurso Bom de Bíblia (bomdebiblia.com.br) para os universitários. As provas estão sendo elaboradas pelo professor de Teologia do Unasp, Dr. Rodrigo Silva, e a final da competição será disputada em Lima, Peru, no dia 3 de dezembro. O vencedor vai ganhar um intercâmbio internacional. Outra novidade, é que em 2012, os estudantes terão um guia de estudos bíblicos específico para usar na universidade, com lições sobre cosmovisão teísta, fundamentos do cristianismo e adventismo. Enquanto isso, os universitários já podem contar com as Bíblias e o guia do Ano-Bíblico específicos. 
30 mil exemplares do Ano-Bíblico 
10 mil Bíblias
 

Diálogo

A revista Diálogo Universitário alcança 117 países, incluindo China, Irã, Líbia e Uzbequistão. Se você estuda num campus secular, pode assinar gratuitamente a revista e ainda pedir exemplares para a biblioteca da sua instituição. No site da Diálogo (dialogue.adventist.org) a maioria das matérias está disponível em quatro idiomas: português, inglês, espanhol e francês. 
Autor: Wendel - Publicado em: 14/10/2013 - Fonte: