Missão sem fronteiras

Voluntários participam da nova onda evangelística mundial e confirmam que brasileiro é o missionário do momento
Foto: William de Moraes
“Carlito, corta a corda!” – disse Rafael, estendendo uma faca. “Não, não posso!” – respondeu Carlito. “Você tem que fazer isso. Corta a corda!” – insistia Rafael enfaticamente, enquanto Carlito se negava, em lágrimas. Carlito havia assistido a toda a série de conferências, mas não se levantou durante o apelo, pois uma corda amarrada em sua cintura o acorrentava a um pacto de sangue.

Ainda quando bebê, ele havia sido dedicado a Hirã, uma divindade maligna que aterroriza e cativa o povo em Guiné-Bissau. Sangue de porco foi derramado sobre Carlito, e sua vida foi ligada ao ser maligno. Uma corda simbolizava aquela ligação. Por fim, Carlito não resistiu, cortou a corda e abraçou Rafael. O sangue de Jesus foi mais forte, e Carlito se tornou um adventista ativo na comunidade.
 

Essa foi apenas uma das histórias que marcaram Rafael Reis, naquele época estudante de Teologia, hoje, pastor em São Paulo, SP. Ele e outros colegas foram a Guiné-Bissau como missionários voluntários, nas férias. Assim como eles, milhares de adventistas de todas as formações e idades estão se dedicando a uma atividade que vem ganhando cada vez mais espaço: a missão de curto prazo. 
 

Voluntários

O voluntário de curto prazo é alguém que realiza um serviço missionário por um período de duas semanas a dois anos. Pode desenvolver qualquer atividade, seja ela relacionada a evangelismo, enfermagem, medicina, educação física, engenharia, construção, odontologia, pedagogia, ensino de línguas, trabalhos técnicos, etc. Ele atua diretamente na comunidade ou serve em uma instituição da igreja onde a ajuda não é somente bem-vinda, mas essencial. 
 
Mais do que um serviço isolado, um trabalho em equipe pode fazer a diferença. Foi o que fizeram 23 jovens do Unasp, campus Hortolândia, SP. Entre 14 de agosto e 3 de setembro deste ano, eles se organizaram para ajudar pessoas em Munguluni, Moçambique. A equipe reuniu três médicos, cinco enfermeiros, bancários, engenheiros, entre outros profissionais. Eles se dedicaram a reformar um posto médico, terminar a construção de uma igreja e participar de oito noites de pregações. Durante o dia, realizavam atividades gerais. À noite, dirigiam a série evangelística e contavam histórias para crianças. O projeto, chamado Missão África, terminou com 64 batismos, 27 deles, despertados pelo projeto (mais detalhes no blog missaoiasp.blogspot.com). 
 
Segundo Marly Timm, coordenadora do Serviço Voluntário Adventista (SVA) para a América do Sul, nos últimos anos tem havido um forte crescimento no número de voluntários adventistas em todo o mundo, “e o que se vê hoje é apenas a ponta do iceberg”, conta. De acordo com ela, anteriormente, as iniciativas eram individuais e isoladas, ou de grupos de adventistas independentes, sem vínculo com a organização da igreja, indo para lugares onde nem sempre havia necessidade.

Mas a igreja mundial percebeu a tendência, e a situação mudou drasticamente desde que foi organizado há cerca de 13 anos o Adventist Volunteer Center, departamento que passou a centralizar em um só site “todos os projetos, voluntários e necessidades, funcionando como uma ponte entre aqueles que querem ajudar e os que precisam de ajuda”, explica Marly.
 

Um termômetro desse movimento foi o primeiro congresso internacional de universitários missionários adventistas, “I Will Go”. Idealizado pela Universidade Adventista del Plata (UAP), na Argentina, ocorreu entre os dias 1 e 3 de setembro deste ano, reunindo mais de 700 participantes de 31 países.

No encontro, além das palestras, testemunhos e stands, três casais missionários foram dedicados: um para ser enviado a Palau, próximo às Filipinas, outro para o Líbano e outro para um local ainda a ser definido. Relatos do envolvimento missionário de jovens – como o dos mil estudantes e professores da UAP que saem todos os sábados para o trabalho missionário – demonstram que o envolvimento de voluntários está em alta. 
 

Hoje, Marly informa, a América do Norte ainda é a região que mais envia missionários (mais do que a soma de todas as outras juntas). A segunda região que mais envia missionários e a que mais cresce nesse sentido é a América do Sul. No Brasil, essa tendência é nova. País continental, com a maior parte da população distante da fronteira e historicamente voltada para sua própria cultura, nunca teve tradição missionária. As iniciativas sempre foram esparsas e isoladas.

No entanto, num despertar missionário, hoje já são mais de 500 voluntários brasileiros envolvidos em projetos ao redor do mundo, segundo dados do SVA. São cerca de 100 missionários em atividades de mais de um ano de duração, e o restante, engajados em projetos de missões de curto prazo.
 

Os focos desse despertar missionário têm sido as instituições de ensino. A maioria dos internatos adventistas está envolvida com algum projeto missionário, seja dentro ou fora do país. São atividades que não envolvem apenas universitários, mas estudantes de ensino médio que desenvolvem o gosto por servir. “Nosso desafio é envolver os jovens, dizendo que existe um programa oficial da igreja seguro e fácil” – afirma Marly Timm. 
 
Para quem já participou da Missão Calebe pode dar o próximo passo como um missionário voluntário no exterior. “Só neste ano, foram mais de 45 mil jovens participando do projeto [Missão Calebe], e muitos deles não sabem como dar continuidade a isso. Precisamos ajudá-los a ingressar em projetos maiores e a participar dos desafios da igreja mundial. Temos que criar uma cultura missionária no Brasil” – defende Marly.

Uma amostra do potencial missionário dos jovens da Missão Calebe foi o que aconteceu na Albânia em julho deste ano. Para Berndt Wolter, professor de Teologia do Unasp e diretor do Núcleo de Missões e Crescimento de Igreja (Numci), a igreja no Brasil vive uma grande oportunidade. “A igreja talvez esteja passando por um de seus melhores momentos no Brasil. Ela pode, finalmente, investir no campo missionário. No mundo inteiro, a igreja está clamando: ‘Por favor, brasileiros, nos ajudem na pregação do evangelho’” – afirma.

 
Exemplificando a importância do envio de missionários brasileiros ao exterior, Wolter menciona o caso de três missionários enviados ao Oriente Médio, numa parceria do Numci com a Divisão Trans-Europeia e a União do Oriente Médio, para iniciar a transmissão da Hope Channel, em árabe. “Eles montaram o estúdio, compraram os equipamentos, escreveram os roteiros, enfim, fizeram todo o trabalho” – conta.

E dá outros exemplos: “Temos um missionário no Qatar, lá no meio do mundo islâmico. Temos outro lá no Líbano. Estávamos com três prontos para ir ao Egito, quando estourou a revolução no início do ano, e não pudemos enviá-los, por conselho da igreja de lá. Temos cerca de 15 jovens na Comunidade Árabe Aberta, em São Paulo, preparando-se para servir em países árabes. Em Guiné-Bissau, temos dois casais pastorais e mais um rapaz, como voluntário. Cada casal é mantido por uma Associação aqui no Brasil. Quanto pesa para uma Associação depositar 800 reais por mês para um casal? Para muitas, não é nada. E, lá, eles conseguem viver com isso tranquilamente.” 
 

Bagagem

O que é preciso para ser um missionário voluntário? “Tem que levar primeiro o amor pelo ser humano. O resto entra no pacote”– acredita Felipe Tonasso, que já foi voluntário na Malásia e que organizou a Missão África. “Além disso, creio ser fundamental o desejo de ter uma experiência tão real com Cristo que leve a pessoa a descobrir Deus o tempo inteiro ali”, completa. 
 
“Em primeiro lugar, vem o chamado de Deus”, acredita Marly Timm. “Não é um passeio nem uma aventura. Muitas ONGs vão só para realizar ações sociais. O grupo missionário vai além, para cumprir a missão.” Wolter destaca a capacidade de lidar com imprevistos, algo que teve de praticar há três anos, em Moçambique. Um grupo dissidente da própria igreja havia invadido a sede da União e expulsado os líderes eleitos. Em meio a ameaças de agressão, Wolter e os alunos decidiram ficar, e o quadro foi revertido.
 
Situações perigosas não são comuns no campo missionário, nem as que mais requerem flexibilidade. É o choque cultural que exige mais do voluntário. “Na Malásia, você chega no café da manhã e tem macarrão. No púlpito, a gente não pode apontar com o dedo indicador, só com o polegar (imagine falar do Céu?). Em Moçambique, tivemos o choque com uma infraestrutura que o Brasil tinha há 500 anos. Como digo para o pessoal, o primeiro baque é a primeira janta”, brinca Tonasso.
 
Por isso, o voluntário precisa levar na bagagem preparo e conhecimento cultural e do idioma do país ao qual pretende ir. “Alguns me dizem: ‘Pastor, quero ser missionário para aprender inglês.’ E eu respondo: ‘Não. Você vai para o campo missionário já sabendo falar inglês’”, pontua Wolter. Preparo espiritual e pessoal são indispensáveis para o sucesso da missão. Por isso, Marly Timm afirma que o SVA trabalha para oferecer cursos gratuitos de línguas para estudantes que pretendam ser missionários. Um exemplo é o da  Faculdade Adventista da Amazônia (Faama), que já oferece cursos de inglês e francês.
 
Money é outro ponto. O voluntário de curto prazo geralmente custeia parte ou todas as despesas. Alguns arcam apenas com os custos de viagem, seguro e documentação, mas recebem hospedagem, alimentação e, em poucos casos, um auxílio-manutenção numa instituição adventista, seja ela hospital ou colégio. Em casos específicos, as instituições que têm condições e necessitam muito de um voluntário até pagam tudo. 
 
“Ok, quero participar, mas para onde vou?” – você pode se perguntar. O site do Serviço Voluntário Adventista oferece uma lista de projetos atualizada diariamente. São cerca de 500 novos projetos todos os dias, em todo o mundo. Cada projeto tem suas necessidades e requer uma participação financeira diferente. A inscrição é feita no próprio site, e o SVA dá as orientações necessárias.
 
Um dos principais objetivos do SVA é motivar e prover recursos didáticos para que colégios (incluindo externatos) e igrejas treinem e enviem missionários. No projeto “Igrejas em Missão”, foram produzidos dois DVDs promocionais para igrejas e um kit de DVDs para o treinamento missionário em colégios. “Nas escolas que estão entrando no projeto, vemos bastante euforia e animação!” – relata Marly.
 

O que fica

Ninguém volta o mesmo após um serviço voluntário. O que era para ser de “curto prazo” se transforma em “para sempre”, mesmo para quem não volta mais ao campo missionário. As experiências dão aos participantes uma nova visão de mundo e de si mesmos. Refinam os talentos e ajudam a descobrir novas aptidões. “Muitos [da equipe da Missão África] usaram termos como ‘despertamento’, ‘reavivamento’. Vários pararam para pensar em como usam seu dinheiro” – conta Tonasso.
Wolter fala com convicção: “Não sei se existe alguém que entende mais de felicidade do que o missionário. Se uma pessoa tem a sua religiosidade quadradinha e nunca faz nada por alguém, eu diria que ela nunca experimentou o cristianismo. Nosso Mestre disse: ‘Eu vim para servir, e não para ser servido.’”
 
Muitos, ao terminar o trabalho voluntário, sentem vontade de voltar. “Muitos participam para ter uma experiência curta, se identificam e gostam. Aconselho aos que pretendem ser missionários a que antes participem de um projeto como voluntários. Isso dá mais segurança ao assumirem uma missão por um prazo maior” – conta Marly Timm.

“Na nossa equipe, uns seis ou sete se levantaram com potencial de liderança” – revela Tonasso, que já delegou a alguns deles eles a organização de um novo projeto para Moçambique no próximo ano, enquanto ele planeja organizar outro, para um país de cultura diferente. O pastor Rafael, do início desta reportagem, está planejando com a esposa umas “férias missionárias” na Tailândia.
 

“Nossa responsabilidade não pode se restringir ao nosso território” – apela Wolter. “Há lugares em que americanos e europeus não conseguem entrar, pois não são bem-vindos. Então, quem irá? Nesses lugares, os brasileiros são recebidos com aplauso. Por isso, temos uma responsabilidade diante do mundo. Não penso que precisamos escolher entre evangelizar o nosso país e evangelizar lá fora. Temos condição de fazer ambas as coisas, e muito bem. Com um milhão de adventistas no Brasil, 2,5 milhões, na América do Sul, temos condições de mandar alguns deles para fora? Com certeza!”
O fato é que o serviço missionário voluntário marca não apenas quem vai. Influencia a família e a igreja que apoiam o voluntário. Inspira o surgimento de novos missionários e abre portas que só a fé e o amor conseguem enxergar. Por mais que tenhamos feito pouco pelo mundo no passado, hoje temos uma responsabilidade que, sem dúvida, é um privilégio. “‘Quem enviarei? Quem irá por nós?’ E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!” (Is 6:8, NVI).
 

Seja um missionário

Apesar de a igreja estar presente em mais de 200 países nos cinco continentes, em muitos deles, quase 100% da população jamais ouviu falar de Jesus. Em várias nações não há um adventista sequer. Pessoas precisam de você 
 
Europa ocidental: Desafio quase tão grande quanto a Janela 10/40. Os europeus já são considerados pós-cristãos e têm aversão ao cristianismo. 
Janela 10/40: Região do mundo que menos conhece a Cristo, reúne 28 países muçulmanos, oito budistas e dois hindus. Com mais de 40% da população mundial, concentra 80% dos mais pobres do planeta.
China: Potência emergente com mais de 1,3 bilhão de habitantes, é um país fechado para igrejas e missionários oficiais. Assim como em outros países da Janela 10/40, casais de profissionais liberais podem fazer a diferença, morando lá.
Oceania: Austrália e outros países da região são altamente secularizados Uruguai. Devido ao forte secularismo, os uruguaios são o povo sul-americano mais resistente à religião. 
África: Dividida em 54 países e fragmentada em centenas de etnias, culturas e línguas, sempre foi um desafio missionário e social. 
Brasil: Também recebe missionários (50 em atividade), que sofrem para entrar no país, devido à burocracia. Nossos maiores desafios são cerca de 200 povos indígenas, com suas 120 línguas (67 desses povos não têm contato com o país). Outros desafios são as tribos urbanas, as colônias estrangeiras e a crescente secularização da sociedade. 
 

Materiais
 

DVDs do Serviço Voluntário Adventista – Dois DVDs promocionais e kit com DVDs para escolas missionárias.
 
Passaporte para a Missão – Leitura que inspira até quem nunca se imaginou missionário. Indispensável para quem está fazendo as malas para servir.
 
Mission Post – Revista trimestral produzida pelo Adventist Volunteer Center.
 
Journal of Adventist Mission Studies – Periódico semestral que oferece uma análise mais acadêmica da missiologia adventista. 
 

Links

voluntariosadventistas.org – Site em português e espanhol mantido pelo Serviço Voluntário Adventista, com sede no prédio da Divisão Sul-Americana, em Brasília. Nele você tem tudo o que precisa para se tornar um missionário voluntário. 
 
www.adventistvolunteers.org – Site em inglês, mantido pelo Adventist Volunteer Center, da Associação Geral. O site do SVA é ligado a ele.
 
numci.org – Núcleo de Missões e Crescimento de Igreja, sediado no Unasp, campus Engenheiro Coelho.
 
www.hishands.ws/default.aspx – His Hands International, voltado para projetos de curto prazo. É mantido pelo Adventist Volunteer Center. 
 
www.afmonline.org – Site do Adventist Frontier Missions, organização adventista leiga dedicada a estabelecer igrejas entre grupos não alcançados. 
 

Leve na bagagem

(1) O chamado de Deus – A missão começa em Deus e continua através de nós, em comunhão com Ele
(2) Amor – Requisito essencial para lidar com as diferenças e desafios
(3) Preparo – Sem ele, a missão não alcança seu objetivo. Inclui conhecimento, seguro de saúde, treinamento e recursos
 

Missão de curto prazo

De algumas semanas até dois anos, dependendo do projeto. Você escolhe! 
Faça o que você sabe fazer melhor
Encontre Deus e o sentido da vida
Disponha-se a servir outros
 

Projeto igrejas em missão 

O que é: Uma igreja ou um distrito pastoral enviam um voluntário
Como funciona: O pastor atua na escolha do voluntário. Os membros se dividem em três equipes para cuidar do antes, durante e depois do projeto missionário. 
Saiba mais: Visite o site voluntariosadventistas.org
Autor: Diogo Cavalcanti - Publicado em: 14/10/2013 - Fonte: