Outra lógica

A proposta do cristianismo é mudar o mundo, a começar pelo homem. O que essa religião tem a dizer para a geração que sonha em revolucionar tudo, começando pela comunidade?
Thiago Lobo
O grito de insatisfação generalizada que tomou as ruas do Brasil de junho para cá foi um sintoma claro de que o país passa por uma crise institucional sem precedentes. Ainda que as bandeiras levantadas nas manifestações sejam as mais diversas, o pedido por mudanças estruturais é o mesmo. Boa parte dos brasileiros não se sente representada pelos homens e mulheres que elegeram e não vê mecanismos acessíveis ao cidadão comum para intervir nos rumos da nação. 
 
Nesse cenário de indignação, como em outros momentos da história brasileira, os jovens foram os protagonistas. Segundo uma pesquisa do Ibope feita no dia 20 de junho, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas em cem cidades brasileiras, 63% dos manifestantes tinham entre 14 e 29 anos; 43% deles completaram o ensino superior, 62% se mobilizaram pelo Facebook e 61% tinham muito interesse por política, apesar de 96% não terem filiação partidária.1  
 
O ponto é que os protestos das ruas parecem apontar para um fenômeno social mais abrangente de uma geração que deseja também mudar o mundo, mas usando novos mecanismos. Talvez esta seja a primeira geração de brasileiros que nasce num mundo globalizado e hiperconectado; que procura conciliar realização pessoal com transformação social; que enxerga o respeito à diversidade como ponto de partida para o diálogo e a criatividade como um caminho para a mudança; de jovens que se identificam como líderes orgânicos de microrrevoluções em sua comunidade.2  
 
Mas antes que você se orgulhe ao imaginar que sua geração pode mudar tudo, é importante pensar no que precisa ser mudado e como isso pode ser feito. Longe de criticar a participação política legítima, mas procurando uma motivação espiritual para ela, esta matéria da Conexão 2.0 quer levar você a refletir que problemas como corrupção, desigualdade, exploração e violência urbana são, em última instância, pecados coletivos e estruturais que têm sua origem na natureza humana. E mudar a sociedade nesse nível, somente o cristianismo se propõe e pode fazer. 
 

Será?

Antes que você torça o nariz pensando que esse texto sugere uma resposta simplista para os desafios tão complexos da nossa sociedade, fique tranquilo porque queremos refletir sobre religião num nível mais profundo. 
É verdade que é difícil pensar que a solução para os grandes problemas do Brasil estejam na fé. Afinal, o país tem milhões de templos, centenas de escolas confessionais, vários programas religiosos na TV e no rádio, mas ainda assim não vemos mudanças significativas na sociedade. 
 
Para piorar, segundo o Censo 2010, 85% dos jovens brasileiros se dizem filiados a alguma igreja cristã, mas isso parece não diminuir a desonestidade sem limites da nossa cultura – que começa com o escandoloso desvio de dinheiro público, passa pela esperada sonegação de impostos e termina com a natural e esperta pirataria de produtos. 
 
O que parece claro, no entanto, é que o cristianismo nominal – de fachada, professado por causa de mera tradição familiar ou cultural – não muda nada nem ninguém. Apesar de o Brasil ter sido colonizado por cristãos, o cristianismo duvidoso trazido pelos portugueses sofreu sincretismo com as tradições índigenas nativas e as influências das religiões de matriz africana. O resultado foi um mosaico religioso bem diferente dos ensinos originais de Cristo. 
 

Mudança de cosmovisão

Diante disso, como a religião poderia fazer a diferença não apenas no mundo porvir, mas também na realidade atual? Segundo os missiólogos3 – acadêmicos que estudam o impacto do evangelho nos indivíduos e na sociedade – o caminho é entender que a mensagem de Cristo implica transformação de cosmovisão, ou seja, mudança do modo pelo qual interpretamos e damos significado a tudo que vemos e com que interagimos. 
 
O termo “cosmovisão” tem sido usado em várias áreas do conhecimento, da Filosofia às ciências naturais. A expressão foi criada pelo filófoso germânico Immanuel Kant, em 1790. Mas numerosos acadêmicos têm discorrido sobre ela, atribuindo ao termo novos significados. Alguns sugerem sinônimos como ideologia, estruturas sociais, pressupostos e paradigmas.4 O fato é que o conceito de cosmovisão tem influenciado o pensamento ocidental nos últimos 200 anos. E, ao mesmo tempo em que parece intuitivo, se mostra também muito abstrato e complexo. 
 
Entre tantas definições, os missiólogos têm preferido o conceito dado pela antropologia cultural. Para esse campo do conhecimento, de modo geral, cosmovisão poderia ser definida como “um quadro bem fundamentado de crenças, convicções e valores, que oferece uma perspectiva verdadeira e unificada sobre o significado da existência humana”.5 
 
Vale lembrar que, evidentemente, todos possuem uma cosmovisão, ainda que boa parte dos seres humanos nunca tenha refletido sobre isso. A razão? Ela começa a ser formada de forma subconsciente e normativa na infância. Quando seus pais disseram para você que comer com a mão diretamente no prato, sem usar talheres, era errado, você não argumentou dizendo que isso não era um padrão universal. Crianças têm poucos filtros, e costumam absorver, sem senso crítico, os costumes e valores com os quais têm contato.
 
Isso mostra que o contexto em que você foi criado e vive é fundamental na formação de sua cosmovisão. Aliás, a cultura na qual você está inserido é a manifestação concreta da visão de mundo do seu grupo. Segundo o missiólogo Paul Hiebert, a cultura é o “sistema mais ou menos integrado de ideias, sentimentos, valores e padrões de comportamento compartilhado por um grupo de pessoas que organizam o que pensam, sentem e fazem”.6  
 
Logo, se você nunca se perguntou qual é sua cosmovisão, um bom começo é analisar o discurso dos produtos culturais (livros, filmes, revistas, músicas) que você consome sem sentir desconforto moral. Outro parâmetro que funciona é você se perguntar qual é a motivação por trás das suas ações, especialmente dos hábitos mais normais, como padrões de relacionamento, de alimentação, de uso do dinheiro e do tempo.
 

A base do iceberg

Para o assunto ficar ainda mais claro, a cultura, como manifestação da cosmovisão, pode ser comparada a um iceberg. No grande bloco de gelo, a ponta – a menor de suas partes – fica visível, acima da superfície da água. Essa ponta poderia representar os padrões de comportamento da cultura. Abaixo dela e da superfície, estariam dois níveis de princípios que motivam a conduta: as crenças e os valores. 
 
O estudioso Charles H. Kraft,ao analisar a cultura norte-americana de hoje, sugeriu o seguinte quadro para aplicar esse esquema. Segundo ele, na base da cosmovisão dos ianques estão os valores que justificam toda a dinâmica da sua sociedade. O valor, por exemplo, de que dinheiro e/ou bens materiais são a medida do sucesso infuencia a formação de crenças como: “tempo é dinheiro”; “estudar é o caminho para ganhar melhor”; e “quem conquista mais dinheiro tem mais prestígio”. 
 
Esse valor e as crenças baseadas nele, por sua vez, têm impacto nos padrões de comportamento. Logo, parece natural, por exemplo, calcular a importância de alguém mediante sua condição econômica; comprar bons carros, roupas e gadgets para manter a aparência de sucesso financeiro; e não perder tempo com atividades que não rendam uns trocados, como cuidar da saúde e dos relacionamentos familiares. Ou seja, seu comportamento é a expressão concreta e visível de sua cosmovisão, é a ponta de seu iceberg
 

Autoconhecimento

Por isso, pensar na sua cosmovisão é tocar no que há de mais íntimo, secreto e precioso em você. Afinal, a visão de mundo tem a função de oferecer para o ser humano pelo menos quatro coisas essenciais: (1) uma explicação para a existência; (2) os critérios para avaliar como boas ou más as experiências vivenciadas; (3) os elementos que integram e organizam a vida, trazendo estabilidade para o indivíduo; e (4) as ferramentas para monitorar a necessidade e velocidade das mudanças pessoais.8  
 
Não é por acaso que alguém se dá conta dos valores de sua cosmovisão quando as circunstâncias o levam a se confrontar com visões de mundo diferentes da sua. Nesse processo de procurar entender o outro, muitos acabam entendendo melhor a si mesmos. Pensar sobre isso se torna mais importante num mundo em que as culturas não são mais limitadas pela geografia, e no qual os conflitos de cosmovisão têm sido cada vez mais frequentes. Que o digam os milhares de imigrantes de etnias diferentes que vivem em Nova York, Londres, São Paulo ou qualquer outra metrópole cosmopolita. 
 

Novo discurso, novas experiências

Mas a possibilidade de choque, convivência ou mudança de cosmovisão mostra que a visão sobre a realidade não é estática, mas dinâmica. Diariamente, as influências externas que o indivíduo recebe passam por três filtros internos. O primeiro é o cognitivo, que avalia se a informação recebida está de acordo ou não com os pressupostos da cosmovisão. O segundo, o afetivo, faz o mesmo processo com a experiência vivenciada. E o terceiro, o avaliativo, vai ponderar que decisão deve ser tomada,9  e se a nova informação será completa ou parcialmente rejeitada ou assimilada, bem como se a nova experiência deve ser repetida ou evitada.
 
O processo pode ser facilmente compreendido, mas nem sempre é simples de ser vivenciado. A mudança de cosmovisão quase sempre é acompanhada de dúvidas, instabilidade e desconforto. Na adolescência, muitos experimentam algo semelhante. Criado na infância com a visão de mundo ensinada pelos pais, o indivíduo passa por conflitos internos na juventude para definir como será sua própria cosmovisão. 
 
Semelhantemente, um processo dramático tende a acontecer na conversão religiosa, mesmo para as pessoas que nasceram em culturas fortemente influenciadas pelo cristianismo. A conversão é quando o indivíduo se depara com um novo discurso e novas experiências que parecem apontar para uma lógica de vida diferente da que ele viveu até ali. Diferentemente da fé nominal vivenciada pela maioria dos brasilerios, é desse nível de transformação que a mensagem original de Cristo, como revelada na Bíblia, trata. 
 

A lógica do reino

Um dos trechos da Bíblia que muito podem ajudar a entender a mudança radical proposta por Jesus é o chamado Sermão da Montanha (Mt 5–7). Nesse discurso, Ele falou sobre o caráter de Seus súditos (5:1-12); a influência do cristianismo na sociedade (5:13-16); os princípios de Sua lei (5:17-48); a espiritualidade autêntica (6:1-16); as prioridades da vida (6:19-34); os padrões de relacionamento (7:1-12); e o compromisso com Seu reino (7:13-27). 
A chegada do reino de Deus através do ministério, morte e ressurreição de Jesus foi o tema da pregação dEle (Mt 4:17), de Seu primo e antecessor, João Batista (Mt 3:2), e do apóstolo Paulo (At 28:31). Mas, ao contrário do que esperavam Seus compatriotas, o reino sobre o qual Cristo pregava não seria estabelecido por meio de estruturas convencionais e manipuladas pelo homem. Ele, mais do que ninguém, sabia que o orgulho, egoísmo, ambição, inveja e outros sentimentos destrutivos não se mudam com revolução política, repressão policial ou imposição de leis. 
 
No plano de Cristo, os valores de Seu reino seriam primeiramente plantados em nível individual (Lc 10:11; 17:21). Seus seguidores experimentariam uma transformação radical,10 contínua e crescente, que faria deles sal para uma sociedade sem sabor e luz para um mundo escuro (Mt 5:13-16). Isso significaria ser humilde, equilibrado, misericordioso, puro e pacificador; significaria amar os diferentes e indesejáveis; isso seria praticar a bondade para quem não pode retribuir e buscar a santidade sem a intenção de ser aplaudido; seria não viver como escravo da ansiedade e do consumo, e priorizar, por meio do uso do tempo e do dinheiro, as coisas do reino de Deus. 
Para fazer com que os ouvintes daquele sermão enxergassem essa nova lógica, Cristo fez uma releitura da cultura e da religião deles, tocando nas bases da cosmovisão de Seu auditório. Ele mostrou que Sua mensagem era contracultural e libertadora. Disse que deveriam levar a fé a sério, porque Ele fazia isso: praticava tudo o que dizia (Mt 7:28, 29; 23:1-3). E foi a coerência desse novo discurso e do exemplo de Cristo que fez a multidão enxergar a “velha” religião, até ali ineficaz para muitos deles, como algo novo e transformador. 
 
A proposta de Cristo não se limitava à mudança de comportamento ou aceitação de novas crenças, Seu discurso e ministério trabalharam no nível do sistema de valores, da cosmovisão. Ele sabia que transformação duradoura e radical só acontece quando a mensagem revolucionária do evangelho é assimilada e vivida com essa profundidade. 
 

Redescoberta

Hoje, o cristianismo passa por uma crise de credibilidade. Na Europa, há décadas, as catedrais têm deixado de congregar fiéis para receber turistas. Nos Estados Unidos, o número dos sem religião ou sem igreja já chega a 20% da população.11 E no Brasil, o Índice de Confiança Social das igrejas, uma das instituições mais confiáveis para os brasileiros, caiu dez pontos nos últimos cinco anos.12  
 
Assim como o judaísmo da época de Jesus, a igreja e o mundo precisam redescobrir a mensagem de Cristo. E isso só acontecerá com uma compreensão renovada e correta da Bíblia (Lc 24:44-49). Quando os cristãos entenderem isso, poderão fazer diferença na sociedade. Vão rejeitar os valores antibíblicos da cultura em que vivem e manter os que não contrariam o Livro Sagrado. Mas, acima de tudo, vão influenciar intencionalmente a sociedade com os princípios do reino de Deus. 
Dois mil anos depois, o discurso pregado por Jesus para os judeus ainda ecoa como a solução para o Brasil e o mundo no século 21. Não porque seja uma proposta essencialmente política, mas porque pode transformar todos que fazem política. A religião ensinada por Ele é a mensagem original do cristianismo. Religião que Cristo espera que seja vivida pela igreja, organização da qual Ele é a cabeça e Seus seguidores são o corpo (Ef 1:22). Moldada pela cosmovisão bíblica, essa comunidade de fiéis pode cumprir a missão libertadora de cooperar com Deus na transformação da visão de mundo de pessoas de todas as épocas e culturas (Mt 28:19,20). 
 
E, quando esse chamado pessoal e coletivo é aceito, a igreja prepara o mundo para o estabecimento universal do reino de Deus (Dn 2:44), antecipa o fim desse período injusto da história humana (Mt 24:14) e abre as portas para o início de uma realidade restaurada e eterna (Ap 21:1-4). Entender e experimentar essa nova lógica pode mudar o mundo, a começar por você. 
 

Referências

1 Pesquisa de Opinião Pública sobre os Manifestantes, do Ibope para o Fantástico

2 Veja o vídeo-resumo da pesquisa O Sonho Brasileiro (osonhobrasileiro.com.br). 
3 “Missiófilos, missiólogo e missionários”, de Marcelo Dias, em revista Ministério (set-out 2013), p. 29.
4 Paulo Cândido de Oliveira, “A importância da cosmovisão para o ministério no século XXI”, em Elias Brasil (org.), Teologia e Metodologia da Missão: VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano (Parma, 2011), p. 644, 645. 
5 Larry L. Lichtenwalter, “Transformação da cosmovisão e missão: narrativa, teologia e ritual no Apocalipse”, em Elias Brasil (org.), Teologia e Metodologia da Missão: VIII Simpósio Bíblico-Teológico Sul-Americano, p. 184. 
6 Paul G. Hiebert, Anthropological Insights for Missionaries (Baker Book House, 1985), p. 30. 
7 Charles H. Kraft, Anthropology for Christian Witness (Orbis, 1996), cap. 12, p. 3. 
8 Paulo Cândido de Oliveira, “A importância da cosmovisão para o ministério no século XXI”, p. 653. 
9 Ibidem, p. 655.
10 George R. Knight, Caminhando com Jesus no Monte das Bem-Aventuranças (CPB, 2001), p. 7. 
11 “Americans and Religion Increasingly Parting Ways, New Survey Shows”, em adventistreview.org. Levantamento do Centro Nacional de Pesquisa de Opinião (NORC), um instituto independente na Universidade de Chicago. 
12 “Cai a confiança dos brasileiros nas instituições”, notícia publicada em 2 de agosto de 2013 no ibope.com.br. O índice, medido pelo Ibope anualmente, avalia instituições e grupos sociais.
 
Autor: Wendel - Publicado em: 03/10/2013 - Fonte: