Imagine

... se não houvesse corrupção no Brasil
Carlos Seribelli
Esqueça toda aquela história de “era uma vez, em um reino muito distante”. Estampada nos principais jornais do país, a corrupção foi a principal motivação da onda de protestos de junho. Milhares de pessoas foram às ruas por causa de um desvio aqui, um caixa dois ali, um enriquecimento ilícito acolá. E se você pensa que não tem nada a ver com a malandragem institucionalizada, lembre-se de que sempre damos “aquele jeitinho” pra tudo. Romper com esse vício da nossa cultura nacional, pode tornar sua vida e seu país muito melhores.
 

Herança genética

Se não terminar em “pizza” a sentença dada aos condenados no caso do mensalão, esse julgamento vai entrar para a história como exemplo de punição à corrupção. Mas, infelizmente, a arte de passar a mão no dinheiro público não é algo novo no Brasil. Ela só foi aprimorada ao longo do tempo. Durante o período em que a corte de D. João VI esteve aqui, de 1808 a 1821, já se fazia isso. Bento Maria Targini, homem pobre que se tornou o responsável pelas contas públicas e as despesas reais após a chegada da comitiva ao país, ficou rico rapidinho. E quando o rei retornou a Portugal, Targini tinha uma das maiores casas do Rio de Janeiro. O povo, claro, o chamava de ladrão. 
 

Educação de qualidade

Você sabe que a Finlândia é o país que tem a melhor educação do planeta. O que talvez você não saiba é que isso está relacionado, em partes, ao investimento que é feito anualmente no ensino. São cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) de um território com menos de 6 milhões de habitantes investidos na formação educacional contra 6,1% do PIB de uma nação de 194 milhões de cidadãos. Há ainda a valorização e o reconhecimento dos professores, que ganham um salário equivalente a 8 mil reais – bem diferente do pago por aqui. E por falar em Finlândia, sabe qual é o país com menor índice de corrupção do mundo? Pois é. Lá o dinheiro chega ao seu destino. 
 

Saúde padrão Fifa

Se você já precisou do sistema público de saúde, esse tópico provavelmente não lhe trará boas lembranças. Talvez para você o SUS seja sinônimo de equipamentos ultrapassados, falta de médicos, meses de espera por uma consulta e risco de morte diante da ineficiência no atendimento de emergência. Por que esse caos? Simples: má gestão e falta de recursos. Só para se ter uma ideia, de 2002 a 2011, 2,3 bilhões de reais destinados à saúde pública desapareceram devido à corrupção. Imagine esse dinheiro empregado na inauguração de hospitais padrão Fifa?
 

Fora das ruas

Se o Estado fosse bem administrado, milhares de pessoas não precisariam ter gastado seu tempo livre, de trabalho ou de estudo nos protestos de junho. Muito menos ter corrido risco de apanhar da polícia ou dos baderneiros. Apesar de o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus ter sido o estopim das manifestações na capital paulista, uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que metade dos entrevistados foram às ruas para lutar contra a corrupção. A queda do valor das passagens, a indignação contra políticos e a melhora na qualidade do transporte vinham em seguida na agenda de reivindicações. Se a corrupção fosse uma fábula e as instituições democráticas o representassem, você poderia dedicar o tempo gasto para cobrar mudanças naquela caminhada que você quase (ou) nunca faz. 
 

Honestidade diária

Falar sobre os outros é fácil. E quanto a você? Você pode se considerar corrupto “apenas” por que tenta evitar aquela multa ao subornar o policial? E quando furar a fila? Para você, existe algum problema em inflar o preço daquela nota fiscal cujo valor será reembolsado pela empresa? Com a ajuda do promotor de justiça Jairo Moreira, que coordenava a campanha “o que você tem a ver com a corrupção”, a BBC Brasil elaborou uma lista com dez atitudes de brasileiros que, às vezes, não percebem que estão caindo nesse erro. E ela incluiu falsificar carteirinha de estudante, não dar nota fiscal, roubar a TV a cabo, comprar produtos falsificados e bater o cartão de ponto para o colega de trabalho. Imagine se toda essa energia “criativa” para tirar vantagem pessoal fosse canalizada para o esforço de ser honesto?
 
É bem verdade que essa doença social não atinge apenas o Brasil. Dezenas de países sofrem com a mesma praga. Mas precisamos combater isso de maneira mais eficaz. O caminho da mudança passa por sua fiscalização da gestão pública e seu voto consciente nas eleições. Em nível individual, como cidadão comum, cabe a você fazer da honestidade o antivírus para esse mal que destrói tanta gente. 
 
Fontes: 1808, de Laurentino Gomes (Planeta, 2007). “Investimento público na educação representa 6,1% do PIB, diz governo”, em http://goo.gl/LEk1X9; “Dados sobre a população mundial”, em http://www.ibge.gov.br/paisesat/main_frameset.php; “Corruption perceptions index 2012”, em http://www.transparency.org/cpi2012/results; “Corrupção na Saúde desviou R$ 2,3 bilhões em nove anos”, em http://goo.gl/Jl81gq; “Lista aponta 10 ‘práticas de corrupção’ do dia a dia do brasileiro”, em http://goo.gl/OADxxW; “Corrupção é principal motivação de manifestantes em SP, diz Datafolha”, em http://goo.gl/OnPobN
 
Autor: Jefferson Paradello - Publicado em: 03/10/2013 - Fonte: