Imagine

...se você tivesse vivido em 1844
Thiago Lobo

Há exatos 170 anos, alguns norte-americanos estavam convictos de sua interpretação sobre as profecias de Daniel. Para eles, em 22 de outubro de 1844, Cristo voltaria à Terra, não como Alguém que morreria voluntariamente pela humanidade, mas como o Todo-poderoso (Ap 1:7; Mt 24:30, 31). Em uma época em que os Estados Unidos tinham apenas 17 milhões de habitantes, cerca de 100 mil deles esperaram pelo cumprimento da profecia mais aguardada de todos os tempos. Muitos venderam casas e bens, deixaram o emprego e os estudos, para se dedicar à pregação sobre esse evento e à preparação para ele. Mas, o dia 22 de outubro passou e, como você pode perceber, Cristo não voltou. Imagine se você fosse um deles...

 

Revolução industrial

Teria vivido na época da revolução industrial. Um período de transformações e de otimismo pelo que a tecnologia poderia oferecer. O mundo estava maravilhado com a transição da produção artesanal para a mecanizada; com a fabricação de produtos químicos; com o uso da energia a vapor e a substituição da madeira pelo carvão. Luzes de gás, máquinas de extrair caroços de algodão, alimentos enlatados, fotografia, colheitadeiras e trens a vapor eram as grandes novidades nas décadas de 1830 a 1850.

Ebulição religiosa

Foi nesse contexto que o fazendeiro batista Guilherme Miller começou a estudar a Bíblia e calculou uma possível data para o retorno de Cristo. Os milhares de cristãos de várias denominações que se juntaram a ele, ficaram conhecidos como mileritas. Era um tempo de efervescência religiosa. Nos Estados Unidos, estava em curso o Segundo Grande Reavivamento (1790-1830). Fenômenos naturais como o terremoto de Lisboa (1755), um dia escuro misterioso (1780) e uma chuva de meteoros (1833) foram interpretados como sinais do fim do mundo (Ap 6:13; Mt 24:29). A prisão do papa Pio VI pelo exército de Napoleão, em 1798, também despertou o interesse do povo pelos livros mais enigmáticos da Bíblia – Daniel e Apocalipse (Dn 12:4).

Matemática e fé

Ao ler a Bíblia de capa a capa, Miller se deparou com a profecia mais longa das Escrituras (Dn 8:14): “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.” Ele entendeu que, em profecia, cada dia corresponde a um ano (Nm 14:34; Ez 4:7) e que há uma clara conexão entre Daniel 8 e 9:25-27. Assim, Miller acertou a identificação da data do início desse período de 2.300 anos: 457 a.C (Dn 9:25). Ele também descobriu o cumprimento dos eventos proféticos relacionados com o ministério de Cristo: o batismo (27 d.C) e a morte de Jesus (31 d.C), e o início da pregação do evangelho para os não judeus (34 d.C). Quanto à data final, ele estimou que seria entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. A explicação matemática de Miller tinha lógica e mobilizou muitas pessoas.

Esmagados pela decepção

Como Cristo não retornou na data marcada, muitos mileritas deixaram o movimento. Miller entendeu que havia alguma imprecisão nos cálculos, que a suposta demora estava profetizada (Hc 2:3) e que Jesus ainda voltaria naquela época. Posteriormente, Samuel Snow levou em consideração que, de acordo com o calendário judaico, o Dia da Expiação (Lv 16), festa que celebrava a purificação do santuário israelita, ocorreria naquele ano em 22 de outubro. Miller resistiu em aceitar a nova explicação até poucas semanas antes da data apontada. Novamente, os mileritas correram contra o tempo. Folhetos e revistas, a mídia de massa da época, foram distribuídos aos milhares. Houve nova comoção, nova esperança e novo desapontamento. Cristo não voltou e a mensagem que era doce se tornou amarga (Ap 10:10). Alguns perderam a fé e outros tantos retornaram para suas antigas igrejas.

Perseverantes

Foi nesse cenário que alguns poucos insistiram no estudo da Bíblia e descobriram que os cálculos estavam certos, mas o evento predito era outro. Cristo não havia voltado (Mt 24:36), mas naquela data, o juízo que antecede a Sua vinda começou no Céu, e a última mensagem para a humanidade passou a ser proclamada na Terra (Ap 14:6, 7; Dn 7:9, 10).

Ellen White

Nesse grupo estava Ellen Gould Harmon, de 17 anos, uma garota metodista de saúde frágil e visão distorcida sobre Deus. Porém, ao ouvir sobre a volta de Jesus, pôde entender melhor Seu amor. Em dezembro de 1844, ela foi chamada por Deus para ser Sua mensageira. Ellen viajou pelos Estados Unidos, pela Europa e Austrália para pregar, ensinar e cuidar dos pobres e doentes. Sem sua influência e 100 mil páginas manuscritas, dificilmente a Igreja Adventista teria investido em escolas, hospitais e editoras.

Tiago White

Ellen se casou com Tiago White, um jovem adulto que passou pela decepção de 1844. Tiago era ministro da Conexão Cristã, um líder empreendedor, disposto a abrir mão do conforto pessoal em favor da missão e com habilidades administrativas e editoriais que seriam usadas por Deus no processo de organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia, nos anos 1860. Ele entendeu que uma missão urgente e global, exigiria a otimização de esforços e recursos.

John Andrews    

Em outubro de 1844, John Andrews era o mais novo dos três: tinha 13 anos. Garoto estudioso, tornou-se um erudito, dominou várias línguas e chegou a decorar o Novo Testamento. Escritor produtivo e dedicado pesquisador da Bíblia, Andrews participou do grupo que formou a base doutrinária dos adventistas. Em 1874, foi o primeiro missionário enviado oficialmente pela denominação para além-mar. Hoje, a principal universidade da denominação, que recebe alunos de 80 países, leva o nome dele.

 

Assim como os primeiros cristãos (Lc 24:16-21), os pioneiros adventistas passaram por uma grande decepção antes de entenderem a importância da mensagem e o alcance da missão que Deus tinha para eles. O ponto é que os dois grupos perseveraram e responderam positivamente ao chamado de Deus (Lc 24:45-49; Ap 10:11). E você, o que faria se tivesse vivido nos Estados Unidos em 1844? Estaria no grupo dos céticos, dos desistentes ou dos perseverantes? O juízo no Céu ainda não acabou, a mensagem sobre a vinda de Cristo continua a ser anunciada ao redor do mundo, convidando todos a confiar na maior de todas as promessas (Jo 14:1-3; Ap 22:12).
 

Autor: Denis Cruz - Publicado em: 22/10/2014 - Fonte: