Imagine

... se não houvesse celebridades
Thiago Lobo

Provavelmente, você não conhece pessoalmente nenhuma celebridade, mas já pode ter jurado amor eterno a um ator de Hollywood, ter imitado o corte de cabelo de um jogador de futebol ou ter gastado seu precioso tempo lendo futilidades sobre a vida de uma pessoa famosa. No entanto, a pergunta é: por que fazemos isso? A lógica do entretenimento pode explicar.
 

A perda da aura

No século passado, com a ascensão de mídias como o rádio e a TV, estudiosos já identificaram o surgimento da cultura de massa. Na visão desses críticos, para facilitar o acesso da população ao conhecimento e à arte, os produtos culturais tiveram que se render à lógica da produção em larga escala e do lucro de mercado. Nesse processo, a cultura antes elitizada, que tinha a proposta de elevar o espírito humano, agora se torna diversão das massas. Os mais pessimistas, como o pensador Walter Benjamin, enxergaram nesse processo a perda da aura da arte.

Modelos universais

Porém, a massificação da cultura não se explica apenas pela união bem-sucedida de tecnologia e lógica do mercado, mas pela promessa do entretenimento de responder a questões existenciais. Ou seja, o mesmo processo histórico que viabilizou o surgimento da indústria cultural foi o que gerou uma crise de identidade no homem urbano. E quanto mais vulnerável, sozinho e fragmentado o indivíduo se sente diante do mundo desafiador da competição, mais inclinado ele fica a buscar referências no entretenimento. Referências que são baseadas em arquétipos, modelos com os quais todos se identificam

Deuses do Olimpo

Do mesmo modo como os antigos gregos acreditavam nos deuses do Olimpo, na cultura atual, atores, cantores, modelos e esportistas cumprem o papel de semideuses construídos pela tecnologia. E a indústria do entretenimento, que lucra muito com as celebridades, vende essas personalidades como exemplos de beleza, riqueza e poder para que muitas pessoas realizem, ilusoriamente, suas fantasias e aspirações por meio delas.

Tempo livre

Se não existissem celebridades, nosso tempo livre seria usado de outro modo. Quem sabe a TV perderia a liderança como entretenimento para 85% dos brasileiros e a leitura deixaria a preocupante sétima posição entre as opções de lazer. Até mesmo nossa relação com a web seria diferente. Das sete horas diárias, em média, que os jovens de 18 a 30 anos passam conectados à internet, mais tempo seria dedicado à pesquisa e menos ao consumo de entretenimento.

Utilidade pública

Quem sabe, dessa maneira, a política teria mais visibilidade que o futebol; e as questões coletivas seriam mais relevantes do que a intimidade dos artistas.Os assuntos de utilidade pública teriam mais espaço que os de interesse do público. E as emissoras de TV, que são concessões públicas, não pautariam seus telejornais e revistas eletrônicas com propaganda velada (ou escancarada) de suas novelas, séries e reality shows.

Desigualdade salarial

A disparidade entre o salário de profissionais essenciais e os artistas seria menos vergonhosa se as celebridades não ganhassem cifras astronômicas. Enquanto a Madonna fatura 125 milhões de dólares em um ano, o piso salarial de um professor no Brasil é 1.567 reais mensais e o policial militar de Roraima recebe 801,40 reais no fim do mês para arriscar a vida em defesa da população e do patrimônio público. Por que esse abismo entre eles? Na sociedade do espetáculo, a remuneração não tem como base a qualificação do profissional ou a contribuição social e os riscos da função, mas seu potencial de lucratividade para a indústria cultural.

Fim das webcelebridades

Esqueça o sucesso meteórico de Justin Bieber ou de Psy, da música Gangnam Style. Sem a lógica de produção das celebridades, muitos artistas não teriam no YouTube sua janela para a fama, nem mesmo anônimos teriam seus 15 minutos de popularidade. Valorizar a visibilidade não é exclusividade da internet, mas algo que caracteriza o espaço criado pela tecnologia. O que a rede mundial trouxe de novo foi a possibilidade de tornar qualquer usuário conectado uma celebridade instantânea.

Você não precisa demonizar os meios de comunicação ou os avanços tecnológicos para perceber que essa lógica é injusta. Nem mesmo precisa atirar tomates ou pedras no Neymar, na Lady Gaga ou na Sabrina Sato. Eles interpretam personagens que permeiam nosso imaginário e com os quais, em maior ou menor grau de consciência, nossa sociedade se identifica. Se os críticos da cultura de massa acertaram em nos provocar reflexão, exageraram em enxergar tanta passividade no público receptor. Não somos meras marionetes ou vítimas desse sistema, mas cúmplices. Por isso, vale lembrar que os deuses e heróis construídos até hoje pela humanidade foram apenas projeções de nossas aspirações. E como tais, são limitados como nós.

Fontes: “20 celebridades mais bem pagas do mundo”, em Forbes Brasil; MATTELART, Armand e Michéle. História das teorias da comunicação (Loyola, 1999); Retratos da Leitura no Brasil (3ª edição), estudo do Instituto Pró-Livro com 5.012 entrevistados; Telefónica Global Millennial Survey, pesquisa de 2013 com 12.171 jovens, de 27 países, entre 18 e 30 anos; artigo acadêmico “Visibilidade mediática, melancolia do único e violência invisível na cibercultura”, de Eugênio Trivinho; Vanderlei Dorneles, jornalista e doutor em Ciências da Comunicação pela USP; e Tales Tomaz, jornalista e doutorando em Meios e Processos Audivisuais pela USP.

Autor: Jefferson Paradello - Publicado em: 05/01/2014 - Fonte: