A segunda princesa Isabel

Ela odiava política, mas viu nesse caminho a chance de promover a justiça social. Eunice Michiles, a primeira senadora do Brasil
Carlos Seribelli
Estava atônita. Aquela cena não fazia sentido. Pela janela que apontava à rua Rui Barbosa, no centro de Manaus, viam-se cinco crianças em uma praça. Porém não eram crianças acompanhadas dos pais e se divertindo com brinquedos. Não. Duas delas se abrigavam em um papelão. Quem sabe a única posse dos pequenos. 
 
Mas tudo aquilo era estranho para os anos 70. Por isso, a mente da mãe que assistia tudo através da janela ficou bagunçada. O trabalho, o desejo de justiça e a insatisfação com a rotina somados ao retrato visto pelas vidraças, lhe foram um basta. 
 
“Não ficarei nessa vidinha boba!”, decidiu. “Preciso fazer algo mais.” A família dos meninos, ela desconhecia. Dinheiro para ajudar, ela não tinha. Assistente social, ela não era. Inquieta, fechou a janela, dormiu e no outro dia acordou com a solução: “Entrarei para a política!”
 
Era o ano de 1974. Até então a abertura pública para mulheres era irrisória. O Congresso Nacional ainda era um palácio só para homens. No campo religioso, o catolicismo reinava. Portanto, pensar em uma evangélica na política era mais improvável ainda.
 
Mas foi neste caminho, o do estado laico, em que religião não se mistura com politica, mas religioso tem abertura para adentrar nela, que, mais tarde, Eunice Michiles surgiu do Amazonas: a primeira senadora do Brasil, uma adventista do sétimo dia. 
 

Causas defendidas

Descendente de alemães, Eunice nasceu em julho de 1929, filha de Theófilo e Edith Schwantes Berger, pioneiros da Igreja Adventista no Nordeste. Dos pais, ela herdou a fé e a ânsia por justiça ao vê-los amparando ao povo nordestino. “Toda essa doação me impressionou e me ensinou a verdadeira essência do evangelho, que vai além da pregação apenas por palavras e consiste em dar a vida pelo próximo”, pontua Eunice. Convicção que carregou para a vida pública. 
 
Sua carreira política não lhe custou a fé. Na verdade, foram os princípios que lhe deram uma carreira política. Tal qual Daniel na Babilônia, Eunice usou recursos e poder para intervir positivamente na degradante política brasileira. Afinal, projetos de lei aprovados beneficiariam mais pessoas do que ações isoladas. 
 
“A vida pensada de Eunice na política surgiu como possibilidade. Mais: achava-se capaz de combater a pobreza e minimizar o sofrimento por meio de um cargo público. Só mais tarde, já eleita, Eunice compreendeu melhor sua escolha”, escreveu a jornalista Henrianne Barbosa na biografia da senadora. 
 
Em 1982, por exemplo, Eunice levou à votação as PLS 00113 e 00114. Ambas fazendo menção à adoção de menores. Ela propôs que a idade mínima de afiliação de órfãos passasse dos 30 anos, para os 21. “Facilitando o processo de adoção no Brasil, estaremos propiciando alívio e esperança a muitas crianças sem probabilidade de alcançar a idade adulta, e se a alcançarem o farão inferiorizadas física e mentalmente por carência de alimentos e cuidados”, discursou na seção parlamentar quando apresentou os projetos. 
 
Eunice propunha também garantia de bolsa de estudo ao adotado em todos os níveis educacionais, empréstimo para aquisição de casa própria e desconto no imposto de renda para os casais que se dispusessem a ficar com as crianças. 
 
Além disso, a linha de ação da senadora esteve ligada à defesa do Amazonas, aos direitos da mulher, da família, das empregadas domésticas, da liberdade de expressão e religiosa – sobre a qual redigiu nove emendas na Constituinte. 
 

De professora à senadora

Mas antes de se erguer de tal forma, Eunice não se envolvia com política. Na verdade, ela odiava política. O rancor veio do assédio petulante na vida do ex-marido, Darcy Augusto Michiles, à época deputado estadual do Amazonas. Sentimento passageiro, já que encontrou no objeto odiado o meio de levar amor ao próximo.
 
A vida pública de Eunice teve início com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sigla da qual seu marido era coligado. À época, 1950, a professora formada em São Paulo morava em Maués, Amazonas, para acompanhar os trabalhos do então esposo. Mas não demorou muito para que a paulistana saísse da sombra do cônjuge. O que acontecia, é que na cidade de interior, qualquer pessoa com um nível a mais de estudo saia do anonimato para se tornar enfermeiro, médico e engenheiro, mesmo sem o diploma específico da área. 
 
Por isso, de forma gradual, Eunice chegou a assumir algumas secretarias municipais e a direção de uma escola. A paixão pelas crianças e o espírito missionário ligado às políticas públicas surtiram resultados surpreendentes no município, o que, de forma inevitável, lhe proporcionaram em 1963, a contragosto, um convite para se tornar vereadora (não é um cargo eletivo?). Cargo, este, nunca assumido. “Naquele momento eu não tinha nenhum plano de entrar efetivamente para a política”, explica. 
 
Um ano depois, o país recebeu o golpe militar. Uma ditadura instaurada até 1985. Naquele ano, 1964, começou uma série de perseguições políticas que inclusive invalidaram os votos populares. Eunice havia ganhado, mas foi vetada de entrar para a Câmara devido ao agravante. 
 
Tempos depois, ela e Michiles se separaram e Eunice foi para Manaus com os quatro filhos. Na capital, ficou longe da militância política e assumiu a gerência da Senasa, empresa de seguros de saúde de um dos irmãos. Mas sentiu falta do contato com o povo. Até que, em 1974, abriu a janela em frente à rua Rui Barbosa e tomou a decisão que a levaria ao Senado nas eleições de 15 de novembro de 1978 como a primeira senadora do Brasil. 
 
Antes de Eunice, a única mulher próxima ao Senado fora a princesa Isabel. Isso no século 19. Mas a princesa não ocupou o posto que a ela era de direito, uma vez que a Constituição Imperial estabelecia todos os Príncipes da Casa Imperial como senadores. A princesa deixou para Eunice a cadeira que representaria o gênero no Senado. E Eunice o fez com maestria.
 
Embora a senadora nunca tenha se levantado para fazer um sermão em plenária, usou do poder que a ela fora concedido para intervir positivamente na sociedade. “Através da política, a comunidade cristã também tem a oportunidade de colocar em prática os ensinamentos bíblicos e promover a paz nas mais diversas esferas”, aconselhou. 
 
Hoje, Eunice Michiles representa um Marcos Feliciano às avessas. Cristã, mas longe de escândalos, tira da Bíblia os argumentos e conselhos para legislar sobre o povo a quem Deus prestigia. É uma verdadeira Ester da Pérsia, vivendo no Brasil do século 21. 
 

Para saber +

Eunice Michiles: A Primeira Senadora do Brasil, de Henrianne Barbosa (2008), 356 páginas. 
Autor: Isadora Stentzler - Publicado em: 03/04/2014 - Fonte: