Down é normal

A convivência com portadores da síndrome ensina que diferença é questão de perspectiva
Carlos Seribelli
Aprecio a diferença, mas devo admitir que muitas vezes não é fácil encará-la. Sempre que me deparo com o não ser semelhante, sou levada a refletir em conflito. Às vezes também, quando não paralisada pelos meus próprios pensamentos, sou impulsionada a agir. É uma sensação de viagem para fora de mim mesma, que exige atitude, ameaça minha zona de conforto e gera inquietude. 
 
Tudo isso me faz, de repente, entender que o diferente pode estar mais próximo da normalidade do que eu, que, como outras milhões de pessoas estou longe do ideal de humanidade. Reflexões como essas são benéficas. A coisa complica quando fico paralisada na minha “normalidade”.
 

Diferença, uma perspectiva

Ao pé da letra, segundo o dicionário Aurélio, o termo “diferente”, aplicado à matemática “é o resto, o que fica após a diferença ou subtração de dois números”. Em outras palavras, a sobra. Como a matemática é sempre exata, e a vida precisa de molejo, recorri a mais uma definição: “Caráter que distingue um ser do outro, uma coisa da outra. Falta de igualdade ou semelhança.”   
 
Sim, ela é diferente! Chama a atenção no meio da maioria de iguais, mas para seus familiares ela não é a sobra, é única. Não é resto, exótica ou anormal, é apenas peculiar. Falo da Aline Soares! 
 
Super articulada, ela faz amizade por onde passa. Entre um beijo, um abraço, uma conversa e expressando sinceridade rara, ela constrói muito bem seus círculos sociais. 
 
Seu hobby? Escrever cartas anônimas com mensagens de motivação para pessoas que ela não conhece, mas ajuda com seu trabalho, onde atua com carteira assinada há três anos. Com as próprias mãos miúdas, fofinhas e diferentes, Aline está sempre disposta a somar, multiplicar, até dividir, mas  nunca subtrair. 
 

Incentivo que vem do berço  

“Mãe, você não queria ter sua filha? O que você fez durante a gravidez, não desejou sua criança?” Foram com esses questionamentos inapropriados, feitos por uma médica, que Inês recebeu a notícia de que seu bebê tinha síndrome de Down. Após o susto, recolher-se seria o natural. Mas, com seu marido, Dêra (Hideraldo), ela iniciou, a partir daquele momento, uma luta pela inclusão. 
 
“Para mim, minha filha é normal! A gente sofre preconceito sim, mas não me importo. São pessoas que precisam amadurecer”, conta o pai. “A Aline é uma jovem que precisa de atenção, mas que aos poucos e com muita paciência está sendo inserida na sociedade. Lutamos muito, corremos atrás de tratamentos que fizeram com que ela se desenvolvesse e se comunicasse melhor. Isso tudo foi muito importante para o amadurecimento dela”, revela Inês.  
 
O desenvolvimento pessoal e a inclusão do portador de síndrome de Down é uma luta que deve ser abraçada principalmente pela família. “Existe uma rejeição natural do mundo para com os diferentes, e eles sofrem por isso. Cabe à família fazer com que eles se sintam acolhidos primeiramente no lar. Eu batalho para que a Aline seja respeitada como qualquer ser humano merece. Mas apenas a vontade não basta. Percebemos que precisaríamos preparar o caminho para que nossa filha andasse com as próprias pernas. E nossa luta com fonoaudiólogos, fisioterapeutas e diversos profissionais foi para dar essa autonomia a ela”, relembra Inês.
 

Trabalho mais humanizado

Dona de um bom humor peculiar, Aline tem sonhos como qualquer outro jovem. No trabalho, na sede administrativa da Igreja Adventista, em São José dos Campos, SP, sua responsabilidade é montar kits de estudos bíblicos que serão enviados pelo correio. “Aqui eu monto estudos bíblicos que vão para a casa de pessoas que desejam conhecer melhor a Bíblia. Sempre que posso, escrevo cartinhas que vão juntas na correspondência”, descreve Aline. 
 
A garota de 20 anos é beneficiada pelo amadurecimento do mercado de trabalho brasileiro para as políticas de inclusão social. Segundo a Lei nº 8.213/91, as empresas com mais de cem funcionários precisam preencher de 2% a 5% de seu quadro de servidores com pessoas portadoras de necessidades especiais. 
 
Segundo Gilvan Correa, administrador do escritório que contratou a Aline, a inclusão ainda é uma barreira. “Quando rompemos essa barreira conseguimos entender alguns fatores importantes. Para o universo dela, nós também somos diferentes. As diferenças são minimizadas quando participamos de um grupo que aceita as pessoas como são. Isso agrega valores a qualquer empresa”, avalia. 
 

Inclusão mútua

Não satisfeito com a contratação da Aline, Gilvan buscou a assessoria de uma psicóloga para acompanhar o processo inicial de inclusão da garota com a equipe de trabalho. “Fiquei muito surpreso quando percebi que o foco do estudo da inclusão da Aline não era ela, mas os demais colaboradores”, revela.
 
Após alguns dias, segundo Gilvan, o grupo foi reunido para ouvir o relatório da psicóloga. “Aprendemos que a diferença da Aline para nós é que ela tem um cromossomo a mais. Ela funciona como uma caixa transparente, o que é por dentro, é por fora. Nós é que somos uma caixa fechada, nem tudo o que pensamos, acabamos falando. Hoje, a  presença da Aline humanizou nosso ambiente de trabalho”, garante Gilvan.
 
Já para a Aline, o que vale mesmo é viver sem o sentimento de rejeição. Ela não quer ser o resto, muito menos ser mais uma em meio à multidão. Trabalha para fazer a diferença, não se importando em ser diferente. “Amo o que faço, amo meu trabalho. Tenho amigos, sou sempre bem aceita e quero aceitar a todos também”, conclui Aline.   
 
Para saber + 
 
C+: veja as edições dos programas Conexão Jovem e Educação dedicadas aos portadores da síndrome de Down. 
Autor: Luciana Santana - Publicado em: 02/07/2013 - Fonte: