Eu não sou um anjo

A modelo que deixou o seleto time de angels da Victoria’s Secret para ser a mulher de Provérbios 31
Carlos Seribelli

 

A modelo Kylie Bisutti, aos 21 anos, sabia que aquele post mudaria sua vida de uma vez por todas. "Eu sabia que aquela era a mensagem certa, e esperava que ela pudesse ajudar a libertar outras pessoas que estavam presas num mundo de insegurança, autocomiseração, transtornos alimentares e que se sentiam vazias. Um mundo que eu conhecia muito bem. Eu não queria mais fazer parte daquilo. Era suicídio de carreira, eu pensei, enquanto apertava o botão 'enviar'", detalha a americana no livro I'm no angel (Eu não sou um anjo), uma referência ao apelido que só um grupo seleto de modelos da grife de lingerie ostenta.
 
O post havia sido redigido como resposta a Alex Eklund, fundador do site Live 31, que ajuda mulheres a ter uma visão mais positiva e bíblica sobre si mesmas. Antes mesmo de enviar a mensagem, Kylie já havia deixado bem claro em seu feed o que queria dali pra frente. "Deixo a Victoria’s Secret para ser a mulher de Provérbios 31", tuitou.
 
Desde então, Kylie passou a ser vista como uma mulher diferente. Não daquelas que aparecem em poses sensuais nas capas e anúncios de revista, mas como uma mulher que, segundo a Bíblia, é "muito mais valiosa que os rubis" (Pv 31:10). 
 

Meu corpo era do cliente

No livro, Kylie conta com detalhes como começou sua carreira de modelo e revela os bastidores de uma profissão que só quer "vender sexo", diz a escritora. "Para falar a verdade, seu corpo realmente não pertence a você. É do cliente. Uma vez que ele está pagando pelo seu corpo, ele pode fazer exatamente o que quiser com você", denuncia. 
 
A ex-modelo da grife de lingerie mais famosa do mundo revela que se sentia como um pedaço de carne ao tirar a roupa e posar de forma sensual para as câmeras. Ela sabia que, de um jeito ou de outro, estaria mexendo com o público masculino.
 

Início em Las Vegas

Criada em Jackpot, uma pequena cidade de Nevada, que fica a 727 quilômetros de Las Vegas, Kylie entrou na indústria da moda por acaso. Quando ainda estava no ensino fundamental, sua mãe ficou sabendo de um concurso que selecionaria jovens modelos. Kylie sentia-se um pouco desajeitada, mas suas longas pernas faziam com que outras pessoas a incentivassem a alimentar a ideia de ser uma modelo.
 
A partir daquele momento, várias oportunidades surgiram, e quando menos percebeu, já estava completamente envolvida na indústria da moda. "Atuava como modelo em quase todos os fins de semana em style shows no famoso shopping Fashion Show em Las Vegas. Com 14 anos, eu já era a modelo mais jovem da minha agência", conta.
 
Ao mesmo tempo em que juntava algum dinheiro, o relacionamento dela com o pai, o herói que tanto admirou e com quem adorava passar seu tempo livre, se enfraquecia cada vez mais. A vida de modelo fez com que Kylie e sua família se mudassem de uma pequena região rural para Las Vegas, a cidade em que "tudo acontece". 
 

A ausência do modelo

Assim, sua família também acabou entrando em um ritmo frenético de trabalho e atividades. "'Pai, sinto sua falta', eu disse. 'Você tem trabalhado tanto. Sinto que nunca o vejo'. 'Eu sei, Ky.' Ele secou suas mãos. 'Estou trabalhando muito para que você e sua mãe possam ter coisas legais. Eu quero que você tenha o que eu não pude ter enquanto crescia’", relata a escritora.
 
A jovem modelo comenta que a atenção que o pai não dava era preenchida de outras formas e por outras pessoas. "Ironicamente, a atenção cada vez menor que eu recebia do meu pai fazia com que outras pessoas, incluindo rapazes mais velhos, se interessassem mais por mim", conta. Na adolescência, os rapazes começaram a vê-la de um jeito diferente. Não como uma "girafa", mas como uma sexy e linda garota.
 

Do início ao topo

Da desilusão amorosa que teve com Jake, na adolescência, ao convite para trabalhar em uma agência de modelos em Nova York aos 16 anos, Kylie fala sobre a falta de privacidade e respeito que, muitas vezes, as modelos em início de carreira têm que enfrentar. 
 
"O Daniel disse que eu teria meu próprio studio, o que seria uma mensagem de boas-vindas confortante depois do que vivi em quartos minúsculos em Nova York. Já do lado de fora, acendi as luzes e descobri que eu tinha, sim, colegas de quarto, e muitas por sinal! Baratas do tamanho de um sachê de açúcar espalhadas pelo chão corriam debaixo da cama, da geladeira e do fogão", lembra a jovem, que após perder o trabalho na Big Apple, aceitou o convite de um agente para passar um período de dois meses no Japão.
 
O ponto mais alto de sua carreira, no entanto, ocorreu em 2009 quando foi selecionada pela Victoria’s Secret para fazer parte do casting de "anjos" da marca. Neste período, Kylie já era casada e conhecia um pouco a respeito da Bíblia. Mike, seu esposo, sentia-se incomodado com a profissão da esposa. "Ele nunca me pediu que parasse de ser modelo, ao contrário, sempre me incentivou. Ele apenas orava, e suas orações foram ouvidas", disse Kylie a um dos diversos programas de TV que a entrevistou após declarar publicamente que não queria mais ser uma angel.
 
Os detalhes da decisão, as situações nos sets de fotografia que a fizeram buscar mais a Deus e o papel importante que o marido dela, Mike, desempenhou nesta decisão estão todos retratados de forma clara e contundente no livro, que certamente irá surpreender ao leitor. 
 

Para saber +

I'm no angel: From Victoria's Secret Model to Role Model (Tyndale House Publishers, 2013), 304 pp. 
 
Autor: Leonardo Siqueira - Publicado em: 03/10/2013 - Fonte: