O AMOR tudo supera

A história do casal improvável cujo amor foi além das próprias limitações e derrubou preconceitos
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Ela era a filha mais velha de pais com poucos recursos, a estudante aplicada que tocava piano e flauta. Paulista de Santo André, Amanda precisava tomar ônibus e metrô para ir à escola. Por sua vez, ele era o filho caçula, cujo pai, funcionário de multinacional, mantinha o sítio onde a família vivia. Edino era o aluno problemático que nenhum professor suportava. Guitarrista e baterista de banda, o catarinense de Rio do Sul curtia a farra ao ponto de destruir o carro do pai depois de uma bebedeira. Os opostos cruzaram-se na improvável esquina do amor. Da parte dele, foi amor “à primeira vista”. Da parte dela, foi amor “ao primeiro ouvir”. Apesar de nunca o ter visto, Amanda ainda assim enxergou o melhor de Edino.

Olhos preconceituosos não viam conquistas para Amanda. Ela nasceu com 5% da visão e lutou para conquistar espaço num mundo onde não se costuma enxergar as necessidades dos que não enxergam. Edino cresceu baixinho e corcunda devido a uma síndrome que deforma vértebras e costelas, mas ergueu-se mais alto que os comentários impróprios e preconceituosos.

Amanda nasceu em 1987. Ainda bebê, submeteu-se a três malsucedidos transplantes de córneas. Mesmo cega, Amanda enxergou o sucesso: aprendeu a ler pelo método braile e tornou-se uma musicista premiada. Ao terminar o Ensino Médio, era professora de braile em uma ONG em Tatuí, interior paulista.

Edino nasceu em 1981. Alvo de constrangimentos devido à aparência incomum, foi uma criança agressiva que descobriu cedo o alcoolismo. Só abandonou a bebida depois de quase morrer no acidente com o carro do pai. Descobriu o talento para a música, e que, ao tocar guitarra ou bateria no palco, conseguia a atenção das pessoas que normalmente o menosprezavam. A fim de aperfeiçoar-se nos instrumentos, buscou a aprovação no Conservatório Musical de Tatuí, o maior do Brasil. Deu certo. Foi admitido na escola. A próxima conquista seria o vestibular. Para isso, matriculou-se num cursinho e passava o tempo entre as aulas do pré-vestibular e as de música lendo de tudo na biblioteca pública da cidade. Até que um dia…

 

O código do encontro

Numa visita à biblioteca, Edino descobriu um armário cheio de livros diferentes. Ao mexer nos volumes, um cartão enigmático caiu a seus pés. Mais tarde, o jovem imaginou que um anjo lhe havia soprado o papelzinho; mas, na ocasião, Edino não fazia ideia do que eram os pontos salientes marcados no folheto. Curioso, perguntou para a bibliotecária o significado do código. A atendente se reservou a informar que uma moça costumava levar emprestados os livros em braile, e que ela ensinava a leitura de braile numa instituição da cidade. Edino decidiu procurar a professora. Como os olhos eventualmente doíam por causa das muitas leituras, aprender a ler com os dedos não seria má ideia, pensou Edino. Assim que pôde, o rapaz foi ao endereço indicado.

Na instituição, Edino deixou seu número de telefone e pediu à secretária para que o passasse à professora de braile. Quando Amanda, a professora, telefonou, curiosa para descobrir o que o desconhecido desejava, sua voz doce empolgou Edino. Amanda percebeu. “Quando o telefonema foi encerrado, falei para a secretária que estava perto de mim: — ‘vou me casar com esse homem!’” — lembra, aos risos. Edino se apressou em encontrar a professora.

“Ao chegar àquela escola novamente, vi uma jovem de costas, com cabelo longo” — descreve Edino. “Ao se voltar para mim, identificou-se como a professora Amanda, uma pessoa encantadora, que, a despeito da deficiência visual, via a vida com outros olhos. Ao lado dela, eu sentia que meus problemas desapareciam. Tive certeza absoluta de que me casaria com ela.”

Já apresentados, curiosa, Amanda perguntou a Edino a razão do interesse em aprender a escrita braile. Edino estendeu o enigmático cartão encontrado na biblioteca. “Isso é o alfabeto braile” — explicou Amanda.

Nas aulas, Edino se empenhava mais em aprender a respeito da professora do que da matéria. Até que, “num dia marcado para a aula, saí decidido” – conta Edino. “Iria abrir o jogo e contar para ela que eu a amava e que queria viver o resto da vida ao lado daquela doçura de pessoa. Quando cheguei à sala, a bela professora Amanda esperava-me para ensinar braile, mas eu não queria nem saber de braile. Tomei fôlego e falei que estava gostando muito dela, que queria namorá-la”.

Para sua surpresa, Amanda contou-lhe a reação que teve ao ouvir a voz dele pela primeira vez ao telefone. Sabendo ser correspondido, o namoro começou. Era 10 de março de 2005.

A família de Amanda recebeu Edino bem. Ambos tinham desafios para enfrentar. Por causa da deformidade na coluna vertebral, Edino sentia dores intensas, que os analgésicos comuns não aliviavam. Os médicos não sabiam como ajudá-lo. Estava difícil estudar longe de casa. Dois meses após o início do namoro, Edino teve que voltar para a casa dos pais para que eles o ajudassem melhor. Edino tinha 24 anos. Amanda, 18. Normalmente, desafios forçam o amadurecimento. Foi o caso. A perseverança diante das dificuldades não os faria desistir um do outro.

Nas férias, Amanda viajou até Santa Catarina para visitar Edino. Ela conheceu a família dele. Apesar das dores, Edino não deixou de passear com a namorada, descrevendo detalhadamente a paisagem para que Amanda imaginasse a beleza dos cenários que não via. Perto do fim das férias, à beira da lagoa do sítio do pai de Edino, eles prometeram um para o outro que, da próxima vez que se encontrassem, seria para não mais se separarem. Promessa cumprida. A próxima vinda de Amanda foi para o casamento, no fim do mesmo ano.

 

O Casamento

Numa tarde chuvosa, Amanda entrou de vestido branco na igreja. Mesmo não vendo nada, sabia que tudo ao redor estava lindo. Na verdade, Amanda só era cega para as dificuldades e defeitos. Ela enxergava muito bem o amor naquele rapaz baixinho que sofria tantas dores.

Casados, Amanda, vencendo mais um desafio, iniciou a graduação em Direito. Edino empregou-se numa agência bancária. Além do trabalho, ele ensinava à esposa as atividades domésticas, levava-a para a faculdade em uma bicicleta de dois lugares que ele encomendara e lia em voz alta os livros e apostilas da faculdade para que Amanda memorizasse o conteúdo. O esforço compensava. Um dia, Amanda se descobriu grávida. Para ela, a maternidade parecia inimaginável. “Como cuidaria de uma criança?” — pensava Amanda. Ana Luísa nasceu. “Acho que foi mais fácil cuidar dela, eu não precisava acender a luz para que ela mamasse à noite; assim, o bebê dormia rapidamente”.

Quando Ana Luísa foi para a escola, o casal conheceu por meio da professora a Igreja Adventista do Sétimo Dia. Ambos descobriram que Deus tinha para eles um plano maior que suas limitações físicas. A fé deu a Amanda perseverança para concluir o curso, apesar da falta de adequação para que alunos como ela pudessem estudar. Hoje ela é advogada. A mesma fé levaria Edino a confiar em Deus e a receber a oportunidade de ser operado num dos hospitais mais caros do Brasil, com todas as despesas pagas providencialmente. Hoje Edino trabalha no setor de vendas de uma grande empresa e não sente mais aquelas dores. Ele é grato a Deus, juntamente com Amanda e Ana Luísa, por conhecer o amor que tudo supera.

 

Autor: Fernando Dias - Publicado em: 05/02/2019 - Fonte: