O bilionário da cocada

Saiba por que o empresário Milton Afonso não mede seu sucesso pelo patrimônio que construiu, mas pelos 200 mil estudantes que ajudou
Thiago Lobo

Hospedado na suíte presidencial do Hotel Nacional, em Brasília, Milton Afonso penteia o cabelo, ajeita os óculos de grau no rosto e arruma o colarinho. É meados da década de 80 e o dono da Golden Cross é padrinho de casamento. Ele está impecável. Do outro lado da cidade, dirigindo um Chevette por mais de mil quilômetros desde o Rio de Janeiro, chega Sidney Dutra. Sem hospedagem em hotel, ele se arruma do jeito que dá e vai para a mesma cerimônia. No local, ele e Afonso dividem o banco.

“Você por aqui?”, pergunta Afonso para o amigo. À época, Dutra frequentava a Igreja Adventista de Botafogo, no Rio, a mesma que Afonso. “Pois é”, respondeu timidamente. Enquanto isso, a cerimônia seguia. Na saída para a festa, um pedido de Afonso: “Pode me dar uma carona?” Dutra balbucia, desconversa, repara no carro dos outros convidados e, com o constrangimento saltando aos olhos, pondera: “Olha, estou de Chevette... tem certeza?” Afonso não fez caso. Em meio a embaixadores e comandantes de exército, um ministro de estado convida o empresário para acompanhá-lo no carro oficial. Afonso nega. “Estou com meu amigo Sidney!”, responde.

Fim de festa, mais um pedido: “Agora você me leva para o hotel.” Chec, chec, chec, chec. O Chevette estaciona na entrada do prédio cinco estrelas. “E você?”, pergunta Afonso. “Onde está ficando?” “Eu, eu, eu...”, Dutra, acompanhado da esposa, não estava em lugar nenhum. É aí que o empresário o chama para se hospedar na suíte presidencial do hotel.

“E esse é o doutor Milton”, exalta Dutra, que o conhece há 34 anos. “Um homem muito humilde.” Para falar do fundador da Golden Cross, nascido em dezembro de 1921 e proprietário da Ilha do Cavaco, em Angra dos Reis, RJ, nenhum adjetivo usado pelo agora empresário e diretor do Hospital Bom Samaritano, em Artur Nogueira, SP, teve a ver com as posses do advogado. “Bom, compreensível, brincalhão... o doutor Milton Afonso é tanta coisa.” Mas antes de ser “tanta coisa”, o homem que agora pode dormir em suítes, mandar e desmandar, já foi uma criança vendedora de pés de moleque e cocadas.

É claro que os tais doces não eram produzidos em uma grande confeitaria, e sim na cozinha da casa que nem água corrente tinha. Mas era ali que sua mãe, dona Genebra Soldani Afonso, preparava o que traria a renda extra do mês. Tudo era colocado numa caixa para que ao chegar da escola, o menino de sete anos, descalço, saísse a vender pelas ruas de Nova Lima, em Minas Gerais. Naquela época, a ilha, o helicóptero e a que seria em 1984 a maior companhia de seguros de saúde da América Latina eram coisas que não cabiam na cesta de guloseimas.

“Olha o doce! Doce de coco! Pé de moleque!”, propagandeava. Como Davi enfrentando Golias, Afonso não fugia da obrigação e encarava os desafios da infância. Enquanto alguns meninos brincavam de carrinho, o garoto tinha um cabo de vassoura. Ou melhor, um “cavalinho”, suficiente para sua criatividade. Uma época que orgulha Afonso.

O homem que se tornou empresário, nunca teve alguém que investisse no seu futuro. Tudo que obteve conseguiu com o derrame do seu suor. No entanto, se tornou o padrinho de muita gente. Isso começou na colportagem. Após ele e a mãe se tornarem adventistas do sétimo dia, na década de 30, Afonso foi matriculado no Colégio Adventista Brasileiro (CAB), em São Paulo. Sem dinheiro para custear os estudos, ele voltou às ruas como mercante.

Dessa vez não de doces, mas de livros. “A colportagem me treinou como vendedor”, conta no documentário O menino que vendia doces e entregava sonhos. Não demorou muito para que, em 1941, se tornasse campeão de vendas. Do excedente do trabalho, não guardava para si, mas doava aos amigos que não alcançavam a cota. “Seguramente mais de 200 mil estudantes já foram ajudados”, afirmou Dutra que também já trabalhou com Afonso.

Visionário, Afonso cresceu. Formou-se em direito. Casou. Fundou a Golden Cross. Tornou-se o Assis Chateaubriand da mídia adventista – adquirindo rádios e investindo no avanço da TV Novo Tempo – e nunca mais precisou vender pés de moleque ou cocadas.

Da casinha simples do interior, hoje, os vizinhos de ilha de Afonso são, por exemplo, Simon Aluan, executivo do Ponto Frio; Adauto Marques de Paiva, dono do Café Bom Dia; e o jogador Ronaldo Nazário, o Fenômeno. Mas Afonso nunca atribuiu a prosperidade a si. “Devo tudo a Deus”, alega o advogado. Sentimento que mantém mesmo nas horas de aperto.

Nos anos 80, a Golden Cross entrou em crise. Foi um período financeiro muito difícil que quase acarretou na perda de 10 milhões de dólares para a empresa. A fim de superar a fase ruim, além de toda a negociação necessária, Afonso permaneceu fiel. “Fiquei nas mãos de Deus como sempre estive”, abriu o coração a um amigo.

Nesses dias, o empresário citava uma metáfora que figurava sua confiança no invisível. “Quando acontece isso, fico como uma criança que perde seu barquinho na praia quando uma forte onda aparece. No desespero, corro e desabafo ao Pai: ‘Pai, o mar levou meu barco. E agora?’ Então espero e confio. E foi isso o que fiz.”
Os princípios de Afonso, reforçados com sua conversão à Igreja Adventista, o fizeram entender que os bens não são para este mundo, por isso a riqueza que adquiriu com o tempo nunca lhe subiram à cabeça. Pelo contrário. “Embora minha posição na vida tenha mudado muito, uma coisa que o dinheiro não mudou foi minha fé em Deus, a quem devo tudo que sou”, diz.

Exemplo disso é a própria Golden Cross que está registrada como empresa filantrópica e cujo lucro é direcionado a projetos educacionais, de assistência social – como os lares substitutos – e à evangelização. Para se ter uma ideia, só em 2013, a Golden Cross custeou 50% das mensalidades de 24 alunos do Unasp, campus Engenheiro Coelho. Mas em todo o mundo são muitos mais.

Alguns dos jovens ajudados por Afonso nunca o viram pessoalmente, tampouco o abraçaram. Mesmo assim são jovens que devem a Deus e ao empresário a oportunidade de realizar o sonho acadêmico. É por isso que não raras vezes Afonso é surpreendido por encontros casuais de agradecimento.

“Você pode não lembrar de mim, mas a ajuda do senhor possibilitou com que eu me tornasse uma advogada”, reverenciam. Claro, Afonso se emociona. Pois ao fitar os olhos do outro, sente, na verdade, estar diante de um reflexo nostálgico de um vendedor de cocadas e pés de moleque com bem menos de 92 anos.

Para saber +

Milton Afonso: Vida e Obra (CPB, 2004).
O menino que vendia doces e entregava sonhos (Novo Tempo, 2012).
miltonafonso.com

Autor: Isadora Stentzler - Publicado em: 05/01/2014 - Fonte: