Além das quatro linhas

Ex-atletas de futebol usam o esporte para virar o jogo da vida de adolescentes de SP
Leblu

Gabriel de Sousa, 14 anos, pedalava sua bicicleta pela Avenida Marechal Eurico Gaspar Dutra, em São Paulo, quando viu alguns garotos reunidos em frente ao Colégio Adventista do Tucuruvi para jogar bola. O estudante parou de pedalar sua bicicleta para jogar bola, mas o que ele realmente conseguiu foi dar os primeiros passos em direção a Cristo. Isso porque o grupo que chamou a atenção de Gabriel não estava ali apenas para jogar bola, já que eram integrantes do “Gol de Esperança”, projeto da Ação Solidária Adventista (ASA).

Além dos treinos que o projeto “Gol de Esperança” proporciona aos participantes, existe a preocupação com aspectos que vão muito além das quatro linhas. "Nosso objetivo é usar o esporte para promover educação, saúde, cidadania e, principalmente, salvação", afirma o pastor Jair Miranda, coordenador-geral do projeto e diretor da ASA na região leste de São Paulo. Segundo ele, o esporte, principalmente o futebol, atrai os adolescentes de forma natural. Por isso, defende que o esporte bretão seja o meio de campo para apresentar a mensagem bíblica para esse público.

O foco no evangelismo é notado antes mesmo de a bola rolar. No início de cada treino, os "alunos" vão para uma sala de aula estudar a Bíblia. Só depois que cantam, oram e acompanham o estudo bíblico é que eles vão para o ginásio do colégio jogar bola. "Nosso aquecimento é diferente. A gente se preocupa em ter comunhão com Deus", ressalta Mateus Ricardo, de 15 anos. A fórmula tem dado resultado. Após vários treinos, Gabriel e Mateus, com mais um companheiro de time, Victor Samuel, de 14 anos, abraçaram a nova fé e, em outubro, foram batizados na Igreja Adventista.

Ideia de ex-boleiros

Apesar de ter sido iniciado em São Paulo, o projeto “Gol de Esperança” foi inspirado em um trabalho realizado pelo pastor Miranda em João Pessoa, na Paraíba. Em 2007, ele começou um projeto evangelístico e assistencial usando a bola para atrair adolescentes. Com o nome de “Escolinha Vida Total”, o programa atendeu 35 garotos de 14 a 17 anos. Entre eles estava Denisval Araújo que ficou sabendo da iniciativa por meio de um grupo de desbravadores. "Quando eles apareceram na escola em que estudava, decidi ir. Mesmo sabendo que era algo ligado a uma igreja, eu fui, mas só por causa da bola", relembra o agora estudante de Educação Física.

Na época, Araújo, que tinha completado 14 anos, não era adventista, tampouco se preocupava com questões religiosas. Antes dos treinos, Jair Miranda contava do seu passado como jogador de futebol no Treze Futebol Clube, alertava sobre a ilusão do sucesso, desestimulava o profissionalismo e falava sobre sua mudança de vida para só então começar pregar a Bíblia. "Certa vez ele prometeu um meião para quem decorasse os Dez Mandamentos. Na semana seguinte, quase todos sabiam de cor", relata Araújo. Em outubro de 2007, três meses após o contato com a “Escolinha Vida Total”, Araújo se tornou adventista e há seis anos atua como evangelista voluntário.

Apesar de ter dado frutos, o projeto em João Pessoa não avançou. Entretanto, em 2010, Jair Miranda juntou-se ao pastor Carlos Alberto Batista, que jogou em grandes clubes do Brasil e foi campeão mundial pelo São Paulo Futebol Clube, em 1992. Unindo forças e compartilhando a mesma visão, eles criaram o “Gol de Esperança”. Tudo começou em um campo de futebol no bairro de União de Vila Nova, na zona leste de São Paulo. Desde então, o projeto cresceu e abriu uma nova unidade no Colégio Adventista do Tucuruvi, voltada para a prática do futsal. A ideia já está sendo replicada também pela Igreja Adventista em bairros da Zona Sul.

Gols fora de campo

O projeto oferece acompanhamento escolar e assistência médica para cem adolescentes que treinam nas duas unidades do “Gol de esperança”. "Como a maioria dos participantes é criança carente, oferecemos um lanche a cada treino. Por incrível que pareça, alguns não têm nem o que comer em casa", lamenta Jair. Quem frequenta regularmente a escolinha é registrado no cadastro da ASA para receber cestas básicas, o uniforme do projeto e ser beneficiado com outras assistências gratuitas.

Preocupado com a qualidade do serviço oferecido, o pastor Miranda lamenta não poder aumentar o número de crianças atendidas. "A preocupação é com a qualidade, não com a quantidade", argumenta. A última prova da qualidade de atendimento do projeto foi conseguir um consultório odontológico volante para atender as 60 famílias beneficiadas pela unidade de União de Vila Nova.

A integração com a família também é outro aspecto importante do projeto. Os pais são chamados para acompanhar não só os treinos, como também o desempenho acadêmico e o comportamento do filho. "A grande maioria dos pais elogia o projeto por ter contribuído para melhorar o comportamento do filho", destaca o pastor. Ele conta com mais dois assistentes que coordenam os treinos em cada unidade: o ex-jogador Carlos Alberto e o motorista Nelson Oliveira.

Apesar de ter alcançado sucesso nos gramados na década de 1990, Carlos Alberto sabe que a fama e o dinheiro no esporte não é para todos. Por isso, ele explica que o projeto não estimula a profissionalização, e sim a educação formal. "Na primeira reunião com eles, já deixamos claro que o objetivo do projeto não é levar nenhum jovem para a profissionalização", destaca o ex-jogador, que também já vestiu as camisas do Fluminense e Santos.

Expansão

O projeto tem perspectivas de expansão. "A intenção é que cada colégio adventista das regiões norte e leste de São Paulo seja um ponto do ‘Gol de Esperança’", idealiza Miranda. Além disso, a expansão do programa deverá incluir, ainda neste ano, a prática de outros esportes, como o tênis de mesa.

Independentemente da modalidade esportiva que é oferecida, para os garotos das comunidades atendidas, o “Gol de Esperança” é uma porta aberta para novas oportunidades. "O projeto traz garotos que inicialmente estavam dispersos, muitos sem nada para fazer. O esporte acaba os trazendo para perto da igreja e para longe das drogas e do crime", avalia Carlos Alberto.

Autor: Lucas Rocha - Publicado em: 05/07/2014 - Fonte: