Além do véu

A história da brasileira que foi estudar inglês no Líbano, mas aprendeu lições que não estavam no currículo: julgar menos e servir mais
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Muitas pessoas têm me perguntado por que larguei tudo no Brasil para mudar para nada mais nada menos que o Oriente Médio. A surpresa deles é maior quando descobrem que o objetivo da minha mudança é aprender inglês e árabe. “Quem fala árabe no mundo? E quem fala inglês no Oriente Médio?”, alguns questionam. Não, não estou no clima dos homens-bomba e essa não é uma missão suicida.

Poderia dizer que optei por essa “loucura” porque o árabe é a 5ª língua mais falada no mundo, por ser o idioma de 260 milhões de pessoas que moram no Oriente Médio, no norte da África e em várias comunidades de imigrantes ao redor do mundo. E poderia argumentar também que o curso de inglês que faço aqui é preparatório para entrar em universidades e muito mais em conta do que os oferecidos nos Estados Unidos e Inglaterra.

Mas, sinceramente, não escolhi vir para cá, fui escolhida para estar aqui. Sabe aquele tipo de oportunidade que cai no seu colo e puxa você pela mão? Talvez, esse fosse o único jeito de vencer meus medos e rever meus preconceitos sobre essa região. Meus planos eram passar quatro meses em Londres estudando inglês, mas um e-mail mudou tudo. Orei dizendo que iria para onde Deus quisesse, e poucos minutos depois uma ligação confirmou meu destino. A licença do trabalho para estudar, virou demissão para eu mudar.

Medos e preconceitos

Minha jornada aqui começou quando aterrissei no aeroporto internacional de Beirute, Líbano, em 14 de junho de 2013. Diferentes cores, roupas, paisagens e uma língua nada similar pintavam meu novo dia a dia. Por estudar e trabalhar como bolsista na Middle East University (MEU), única universidade adventista no Oriente Médio, tenho a oportunidade de conviver não apenas com libaneses, mas egípcios, armênios, iraquianos, iranianos e sudaneses. Definitivamente, esse é um outro mundo dentro do mundo.

Por mais que o Oriente Médio já chamasse minha atenção, não posso dizer que fosse por algo positivo, afinal, sou filha da globalização. Cresci vendo televisão e as notícias sobre essa região raramente são boas. Mas como Natalie Gassoub, uma assistente de marketing libanesa de 30 anos, descreve: “O que a grande mídia propaga não é a realidade da experiência que se pode viver aqui. Eles publicam muitas coisas ruins sobre o Oriente Médio, e há muito mais do que se diz”.

Apesar de estar no Oriente Médio, o fato de ter sido ocupado pela França nas duas grandes guerras mundiais, trouxe para o Líbano forte influência europeia. Esse mosaico de culturas faz desse pequeno país uma joia do oeste asiático e uma porta acessível para nações ocidentais. Ou seja, você encontra de tudo aqui, e se estiver disposto, pode aprender muito mais do que ensinam no curso de línguas.

Valores

Para os libaneses, conceitos como família, comida e religião são pilares. É comum entre eles viver com os pais até o casamento, independentemente da idade. E até agora não li sequer uma notícia de filho matando mãe, ou pai matando filho. Talvez, por não serem tão globalizados, conseguiram preservar algo que para nós vem se desmoronando. Essa unidade com a família é fortificada em torno da mesa. No Líbano, comida é sinônimo de festa, e festa tem que ser com gente e muitos alimentos.

E por aqui religião é tudo – inclusive política, na qual os partidos são divididos entre cristãos e muçulmanos. A segmentação também se percebe nas cidades. Alguns lugares são habitados apenas por uma facção religiosa. Com os libaneses, tenho aprendido que igreja não é um lugar apenas para se estar no fim de semana, o que me fez parar e refletir sobre a influência da fé na minha vida.

Mas o Líbano também tem suas cicatrizes, resultado da guerra civil (1975-1990) e do conflito com Israel. Desde 2006, os países cortaram suas relações diplomáticas. Essa história ainda gera um senso de insegurança nos mais antigos. Outra guerra que tem afetado o Líbano é o conflito civil na Síria. O país recebe um número crescente de refugiados do outro lado da fronteira.

Fazer a diferença

É nesse contexto tão peculiar, que tenho encontrado pessoas que não foram atraídas simplesmente para conhecer o diferente, mas fazer a diferença. Gente como Ryan McCabe, um norte-americano de 25 anos que, como ele mesmo descreve, decidiu deixar “o sonho americano” para fazer algo além dos próprios interesses.

“Lendo a Bíblia, percebi que tudo que fazia era para mim e nada pelo meu próximo. As pessoas não têm ideia do que realmente é o mundo árabe, por isso decidi ajudar aqui e descobrir o verdadeiro Oriente Médio”, explica o voluntário adventista que trabalha como design gráfico na universidade em que estudo. Além das suas atividades normais, Ryan tem procurado apresentar Jesus de forma atrativa para outros alunos do campus. Ele fala de Cristo como um amigo, em vez de um ditador.

O Oriente Médio é a região do mundo em que vivem a menor densidade de adventistas, pouco mais de 3 mil membros registrados. Em Beirute, a universidade tem apenas 200 estudantes, 10% são adventistas, e a maioria é cristã. Mas foi aqui que Cynthia Carballo, uma mexicana de 24 anos escolheu ser estudante missionária e participar do curso de imersão em árabe. Uma de suas atividades é ensinar arte para crianças refugiadas da Síria.

“Ao trabalhar com as crianças, percebo que apesar da guerra elas continuam sendo crianças. Elas só precisam de um pouco de amor e esperança. E isso vem me ajudando a abrir minha mente e aceitar qualquer tipo de pessoa, independentemente de religião, cor ou raça”, relata Cynthia a respeito de seu crescimento pessoal.

Sem ilusão

Esse texto não é para pintar de cor-de-rosa o mapa de uma região que é retratada no Ocidente como um barril de pólvora. Mas, se você tem o interesse de conhecer in loco esse lugar, e conferir o que é mito e fato sobre o que está além do véu, pode se surpreender com o povo que existe além das armas e com a cultura que existe além do preconceito. Para os interessados na língua inglesa e na cultura árabe, a Middle East University pode ser uma boa opção.

Uma matéria assim pode ser provocadora para os inquietos e curiosos, mas espero mexer, principalmente, com os que têm paixão pela salvação das pessoas, os missionários. Talvez, para esse grupo seja mais fácil entender a razão da minha mudança para o Líbano: o chamado de Cristo para alcançar todas as nações, todos os povos, todas as línguas (Mc 16:15).

Para saber +

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Autor: Allana Ferreira - Publicado em: 05/01/2014 - Fonte: